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Suíça de portas abertas

Uma coluna quinzenal destinada a discutir temas ligados à integração e adaptação da comunidade de língua portuguesa na Suíça.

Pensando nisso e em outras diversas questões que envolvam o tema imigração criamos a coluna "Suíça de Portas Abertas", veiculada a cada segunda semana na swissinfo.ch para a comunidade de língua portuguesa. Fique ligado todo dia 1° e dia 15 de cada mês.

Liliana Tinoco Baeckert é carioca e vive na Suíça desde 2005. Jornalista, tem mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade de Lugano e se especializou em imigração de brasileiros na Suíça e em treinamento intercultural para adaptação e integração de estrangeiros.

Suíça de portas abertas

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Este conteúdo foi publicado em 1 de Novembro de 2018 16:28Eventos sobre arte e otimismo são boas opções para proteger a alma do frio

Novembro traz dias mais escuros, mas é tempo também de arte e otimismo. A coluna separou três eventos para os leitores que estejam em busca de beleza, cor e positividade para enfrentar o inverno que bate à porta. 

Mulher olhando para a câmera

Jessica Lockhart: "Quando nos mudamos para outro país, nossos valores e cultura são questionados.

(Buburuza Productions, LLC)

Anotem na agenda: dois são sobre arte: o Circuit Café Culture (5 a 18/11) e a Exposição Aquarelas de Zurique (17/11 a 23/12). Já no fim de semana dos dias 17 e 18 deste mês, acontece o Global Optimism Summit (n.r.: Conferência Global sobre Otimismo), encontro que traz especialistas de várias partes do mundo para falar sobre o tema.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Arte e Café pelo mundo

O Circuit Café Culture trata-se de exposições de artistas do mundo simultaneamente em um café cultural de quatro cidades espalhadas pelo mundo: Genebra (Suíça), Rio de Janeiro, Annemasse (França) e São José do Rio Preto, no estado de São Paulo. A organizadora e idealizadora do evento, Leca Araújo, diz que a ideia do Circuito é conectar o Brasil, a Suíça e outros países por meio de arte e cafés culturais, além de mostrar as diferentes faces da cultura brasileira. "Não somos só samba e carnaval, temos muita arte também", explica Leca, artista plástica carioca que vive em Genebra. 

O tema da vez é Equilíbrio no estilo contemporâneo. Os 14 artistas escolhidos expõem trabalhos em diferentes técnicas: pintura em acrílico, óleo, colagem e texturas. Os participantes vêm de países distintos e expõem em dois, dos quatro cafés selecionados para o evento.  "É uma oportunidade de conectar arte com prazer. Diferentemente das galerias, que giram em torno de muita vaidade, os cafés culturais difundem ideias", explica Leca. O Caffè Olé e Le Doxaty fazem dupla no circuito café do Rio e de Annemasse, na França; o Les Recyclabes e Maroka Decora Café integram a dobradinha Genebra e São José do Rio Preto, em São Paulo.  

O evento está na segunda edição, a última aconteceu em fevereiro de 2017. Para o futuro, Leca pretende ampliar o número de cidades e países. "A minha vontade é levar o Circuito para o mundo", diz a artista, que escolhe locais que já tenham tradição em promover arte e cultura. A produção do evento é dividida com a curadora Elisa Maria Muradas.

Aquarelas de Zurique

Não se admire se você vir uma mineira de Uberaba pintando aquarelas em pontos turísticos da cidade de Zurique e arredores. A artista plástica e musicóloga Rejane Paiva tem passado algumas de suas tardes, desde a primavera desse ano, se apropriando de ângulos e vistas e eternizando seus olhares no papel. 

Mulher com pintura na mão

Pintar aquarelas sobre cidades é uma forma de Rejane Paiva dialogar e se apropriar da cultura do local onde vive.

(swissinfo.ch)

A artista pintou inúmeros lugares do cantão de Zurique, como por exemplo, a ópera, a casa onde morou o compositor Wagner, o local onde viveu James Joyce quando escreveu o romance Ulysses, a Gross Münster, a vista do Rio Limmat, e até o centro antigo do vilarejo de Eglisau, local onde está localizado o restaurante Moema, que será palco da exposição de algumas das obras de Rejane. 

Pintar aquarelas sobre cidades é uma forma de Rejane dialogar e se apropriar da cultura do local onde vive. A artista, que também morou durante dez anos em Portugal, pintou as cidades de Lisboa e Cintra. Isso sem contar os outros lugares do mundo onde Rejane já visitou ou fez turismo. 

"Quando eu seleciono o tema da aquarela, é minha maneira de eleger uma parte da cidade que me sensibiliza. Essa escolha é uma forma de me apropriar do local e sua cultura. Eu levei alguns anos para começar a pintar o lugar onde moro e redondezas. Fiquei muito tempo observando, lancei meu olhar sensível. Assim tento desbravar essa nova cultura por meio de perspectivas, ângulos, cores e luzes", explica a artista. Como Rejane mesmo define: "andar pela Suíça e apreciar cada cantinho que um olhar atento pode avistar é um convite a enxergar o presente, o exato momento em que um ângulo interessante se mostra para você". 

- A exposição Aquarelas de Zurique começa no dia 17 de novembro, a partir das 17 horas, no Restaurante MoemaLink externo (Untergass, 1, Eglisau) e vai até 23 de dezembro

- Circuit Cafe CultureLink externo – de 5 a 18 de novembro, nos Cafés: Café Librairie Les Recyclables (Rue de Carouge 53, 1205 – Genebra), Brasserie Caffè Olé (Rua do Teatro, 3 - Centro - Rio de Janeiro), Le Doxaty Café (4, Rue de la faucille, 74100 – Annemasse) e Maroka Decora & Café (Rua Capitão João Gomide, 139 - São José do Rio Preto)

Lições para aprender a desfrutar a vida fora do país de origem

Otimismo é uma daquelas palavras em que cada um entende de uma maneira. Alguns acham que está relacionado à metade do copo cheio e vazio, por exemplo. Mas é muito mais que isso. É uma fora de encarar o mundo. Jessica J. Lockhart, que promove em Berna, a primeira Conferência Global sobre Otimismo, afirma que toda criança, até uma determinada idade, abre os olhos e só espera o melhor desse mundo. "Nós nascemos com essa capacidade, mas vamos perdendo, infelizmente, com o passar dos anos. É o declínio da esperança, da crença em um mundo melhor. Ao perdermos isso, estamos fadados a ter nossa energia, direção e motivação dissipadas", explica. 

Mas a boa notícia é que existem pessoas preocupadas com o assunto e que estudam seriamente o tema. A americana, que foi criada na Espanha, se debruça sobre o tema há dez anos e criou, após inúmeros estudos na área de Linguística, Neurolinguística e Coach, a Humanologia e o coach voltado para o otimismo. Com esse conhecimento, Jessica treina inclusive outros profissionais. Ela desenvolveu inúmeras técnicas e materiais que visam motivar pessoas, aumentar a criatividade e até a produtividade. Enfim, uma ajuda para uma vida mais plena, feliz e positiva. 

swissinfo.ch: Você poderia explicar como você pretende ajudar e orientar pessoas com o foco no otimismo?

Jessica J. Lockhart: Por meio de ferramentas para manter essa energia positiva. São dicas e conhecimentos necessários que podem ser aplicados contra essa sensação de que não há mais jeito, de que falta energia. A intenção é levantar o seu espírito, mudar o humor e aumentar a motivação. 

Eu tenho muitos migrantes como clientes. Pessoas que moram fora de seu ambiente cultural que têm que lidar com os desafios de se deparar com uma nova sociedade. E aí, dependendo de como esse indivíduo encara esses desafios, as dificuldades podem se tornar maiores e parecerem intransponíveis. 

swissinfo.ch: Como otimismo e suas técnicas podem ajudar quem mora fora?

J.J.L.: O trabalho que faço pode ajudar em muitas situações em que essas pessoas, por exemplo se sintam rejeitadas e frustradas por não entenderem certas diferenças culturais. Uma das raízes desse problema é que isso acontece devido a certas crenças, que criam ansiedades e preocupações. 

O que as pessoas fazem integra as crenças delas. Se pensarmos assim, fica mais fácil entender o outro e, consequentemente, nos adaptarmos. 

É importante lembrar que quando nos mudamos para outro país, nossos valores e cultura são questionados. Isso consome muito da nossa energia para sobreviver nesse ambiente cheio de novidades. É uma nova língua, regras diferentes... Imagina o quanto não consome da nossa força mental! Esses meus clientes me procuram exaustos. 

swissinfo.ch: E o que você diz a eles? Você poderia explicar alguns pontos básicos do seu discurso para ajudar migrantes?

J.J.L.: Claro. Eu digo sempre que é muito duro julgar somente sob o seu ponto de vista, sob a sua esfera pessoal. Duro para o próprio julgador, que está pressupondo dessa maneira. E o mais importante, você só tem poder dentro da sua esfera pessoal. Isso significa que o que a outra pessoa pensa, presume ou faz é problema dela. Esferas pessoais são territórios onde nossas crenças e pensamentos são inquebrantáveis. Então, por isso é perigoso julgar do alto da sua.

Então, você migrante, quando se irrita com o jeito do outro, está tentando fazer o impossível, que é tentar fazer com indivíduo pense como você. Quando você critica uma cultura estrangeira, você quer dizer: você está errado e eu, certa. Mas imagine! A esfera pessoal desse ser, que tem crenças e valores distintos, irá obviamente colidir com a sua. Então, criticar, ficar com raiva ou manter sentimento de oposição ao lugar e aos moradores do local onde se vive só pode prejudicar a você mesmo. A maioria dos problemas começa quando começamos a querer controlar as esferas pessoais de outras pessoas. 

Quando eu morei na Rússia, por exemplo, costumava sair com um grupo de latinos. Nós ríamos alto e éramos chamados a atenção pelos russos, porque eles não gostam de barulho em locais públicos. As pessoas do meu grupo ficavam muito irritadas. Era uma situação desagradável mesmo. Mas eu descobri que, na Rússia, na época do comunismo, famílias viviam juntas nas mesmas casas e que, por isso, o silêncio e o respeito à privacidade eram e continuou muito importantes. 

Vou trazer a situação para a Suíça: sabemos que os suíços, em relação aos latinos, não gostam muito de interações com estranhos, encontros casuais são menos esfuziantes. Mas não é porque não gostam dos outros, é só uma outra maneira de encarar a ação falar com estranho na rua. Os suíços veem a situação de uma determinada perspectiva porque nem sempre podem ver de outra. Nós, que fomos criados em outra cultura, enxergamos sob outro aspecto. A lição que tiro disso: tudo depende do ângulo. Assim é mais fácil não se estressar.

swissinfo.ch: E seria por essa razão que as pessoas vivem o choque cultural?

J.J.L.: Exatamente. Quando nossas crenças são questionadas, tem-se o perigo de choque cultural. E quando saímos da nossa cultura, na qual as crenças são bem sedimentadas e claras, para viver em outra, acontece o tão temido questionamento em massa. 

swissinfo.ch: E qual seria então o seu conselho para que os migrantes possam superar essas dificuldades da melhor maneira possível?

J.J.L.: Aceite que nem todo mundo consegue olhar para as situações de outros ângulos. Na maioria das vezes, aquela grosseria não é pessoal, não é contra você.  

Eu costumo dizer que a vida é feita das histórias que fazemos dela e quais delas você prefere contar. É sua a escolha. Você pode, por exemplo, com a migração, tornar sua vida em uma aventura ou em tortura. As coisas são como acreditamos. 

Serviço: A conferência será traduzida simultaneamente em inglês, alemão e espanhol.

Data: 17 e 18 de novembro, em Berna

Informação no site Optimism SummitLink externo

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15 de outubro de 2018Editora brasileira na Suíça dá voz aos desabafos e sonhos de migrantes escritores

Entre as descobertas interessantes que faço, quando pesquiso sobre os aspectos da vida no exterior, me surpreendeu encontrar uma editora de língua portuguesa e que apoia autores brasileiros e lusófonos na Suíça. 

Mulher

"A literatura funciona como válvula de escape, um desabafo para uma voz que não quer se calar", afirma Jannini Rosa.

(swissinfo.ch)

Trata-se da Helvetia EditoraLink externo, empresa de pequeno porte com sede em Vevey e que em três anos de existência já lançou 65 títulos, a maioria escrita em português, mas também em francês, alemão e inglês. O selo comercializa cerca de 3 mil exemplares anualmente. Dando continuidade ao conceito curiosidade, o outro quesito intrigante é o fato de a fundadora ter só 22 anos.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A fundadora, Jannini Rosa, é uma jovem da cidade fluminense de Cabo Frio, estado do Rio de Janeiro, que atua no ramo desde os 14 anos. Apaixonada por literatura, aos 16 anos já lançava seu primeiro livro, o Faces de Malala - na época sobre o regime do Talibã, que venceu edital de cultura e foi distribuído nas escolas do município.

Ao se mudar para a Suíça para se casar, não teve dúvida: quis continuar seu trabalho-paixão e encontrou um nicho. Entre seus autores, há escritores de primeira viagem que migraram e gostam de escrever, escritores de outros países lusófonos, como também aqueles que estão no Brasil e desejam promover seus livros no mercado europeu.

Migração e literatura

Uma das descobertas de Jannini é que está cheio de escritores brasileiros no continente. “Eu acho que a solidão e a bagagem de migrante ajudam a ter repertório para a escrita. É uma vivência muito forte, que não quer ser calada. Eu inclusive acredito que o ato de escrever dá a essas pessoas a possibilidade da existência”, explica a editora, que também escreve. “Todo mundo está buscando seu lugar ao sol. Já que o reestabelecimento à vida profissional aqui é muito mais difícil, essas pessoas trabalham até em diferentes áreas, como faxineiras, contadores, donas de casa, mas dão vazão aos seus sentimentos por meio da escrita. Dessa maneira, a literatura funciona como válvula de escape, um desabafo para uma voz que não quer se calar”.

O primeiro livro lançado pela Helvetia foi Madalenas em Prosa e Verso, em português e francês, uma antologia com vários autores brasileiros. A renda foi revertida para projetos sociais da ONG Madalenas, que trabalha com prevenção e informação sobre o tráfico de seres humanos, a violência doméstica e o abuso sexual.

Concursos de Poesia

Além de lançar e escrever, a editora promove eventos e concursos literários na Suíça e na Europa, além de ações específicas de poesia. Um dos concursos lançados pela Helvetia já está em sua terceira edição e faz parte do Festival de Poesia de Lisboa, um evento que acontece todo ano, no mês de setembro, aberto a todos da sociedade civil. A última edição foi realizada na sede do Instituto Camões, em Lisboa, Portugal.

Se existem pessoas interessadas no gênero poesia? Sim. Entre brasileiros, angolanos e portugueses, foram 95 inscritos para o concurso. A empresária acredita que o gosto pela poesia é uma aposta em um mundo com mais amor, talvez até mesmo uma necessidade. “As pessoas querem mais doçura, elas vivem longe da família e ficam mais sensíveis. Não é à toa que este concurso de poesia é um dos projetos com mais sucesso da Helvetia”, diz.

De acordo com Jannini, ela recebe inscrição de pessoas de todas as profissões, o que combina com o perfil de migrantes: gente com estudo no Brasil, mas que precisa trabalhar com a possibilidade que encontra na Europa. “O mais bonito é ver o amor pela literatura. Alguns deles nunca tiveram coragem de mostrar seus textos, só publicam depois de vencerem o festival”. A editora promove também o Concurso Talentos Helvéticos-Brasileiros, que premia os melhores livros de língua portuguesa escritos no Brasil.

Para tornar a Helvétia mais conhecida, Jannini participa de salões de livro pela Europa. Vai todo ano ao Salão do Livro de GenebraLink externo e já marcou presença no de Praga. O negócio de livros de língua portuguesa, assim como no Brasil, caminha a passos lentos também na Suíça. “É um trabalho de formiguinha, que envolve dedicação e muitas ideias para promoção da editora na Europa”, explica Jannini.

Para o próximo ano, a empresária pretende investir mais na comercialização de livros em língua francesa, no formato vira-vira (em português/francês) e em ações específicas direcionadas à comunidade lusófona na Suíça, com o objetivo de incentivar o hábito da leitura e divulgar os autores e suas obras. Dentre estas ações, ela cita o clube de leitura para crianças, exposição de literatura e arte, cafés literários e concursos para publicação de textos inéditos de escritores e de pessoas sem experiência.

Como escritora, Jannini tem muitas histórias a contar. Como editora, mil ideias na cabeça. E como migrante, sensibilidade para entender as necessidades de quem passou por mudanças tão profundas e precisa desabafar. A literatura entra nesse perfil como ferramenta.

Obras de autores lusófonos que residem na Europa publicadas até hoje pela Helvetia:

- Densidades Cíclicas, Felipe Cattapan (Suíça)

- Vida sem porta e Renascer em versos, Maria Beatriz Gonçalves (Alemanha)

- Menina Coco, Terezinha Malaquias (Alemanha)

- As peripécias de Plinio Malaquias, Marcelo Madeira (Suíça)

- Voo 606, Dulce Rodrigues (Portugal)

- Sous les tapis, Clau Stucki (Suíça)

- Lucia Amélia, confessions d’une guerrière, Jannini Rosa (Suíça)

- A princesa de Serte e o Reino Encantado, Maria Tereza Morais (Suíça)

- Via-Láctea, aprendendo em poesia/La Voie-Lactée, apprendre avec la poésie

- Carla De Sà Morais (Suíça)

Via Láctea para crianças e jovens

A coleção Aprendendo em poesia, publicada em português e francês pela Helvetia Edições, foi criada pela autora Carla de Sá Morais. A proposta é ensinar complexos conteúdos escolares por meio da poesia. O primeiro livro da série se chama Via Láctea/ La Voie-Lactée e traz 20 poemas ilustrados, citando todos os fenômenos astronômicos e astros que compõem o espaço. Com uma escrita simples e cativante, o texto permite fácil memorização do leitor infanto-juvenil e ao mesmo tempo prazer de descobrir curiosidades sobre a astronomia.

Livros disponíveis no siteLink externo.

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1º de outubro de 2018Policial suíço ensina estrangeiros a conviverem com a liberdade e a segurança

Convidada para evento civil de integração de estrangeiros promovido por Baden, cidade localizada ao noroeste de Zurique, me deparei com um policial suíço fardado.

Policial com arma na cintura

Markus Gilgen: "Migrantes e a Polícia apresentam grande probabilidade de se comunicar mal".

(swissinfo.ch)

Intrigada, aproveitei a pausa para abordá-lo. Não poderia sair dali sem saber o que a Polícia suíça tem a ver com o tema migração. Contundente, ele respondeu: "tudo". Segurança e integração andam de mãos dadas por uma série de fatores, que vão desde a prevenção de acidentes de trânsito a delitos do dia a dia, considerados simples desvios em seus países de origem, mas passíveis de serem enquadrados como crimes no país.

Há 17 anos na Corporação, o policial Markus Gilgen observa na sua rotina que as diferenças culturais interferem no entendimento sobre o papel da Instituição e consequentemente no seguimento de regras e leis. Um exemplo da influência da cultura no dia a dia da polícia pode ser descrito quando os brasileiros insistem em dirigir após o consumo de álcool ou em não usar o cinto de segurança.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Outro padrão apresentado por alguns grupos de migrantes é o medo da polícia. Imagina que migrantes que tiveram experiência traumática com a Polícia migrem para a Suíça e tragam esses medos na bagagem. Essas pessoas podem passar essa mensagem negativa para os filhos, que frequentam escolas locais, e são orientados a enxergar os policiais de outra forma. Esse é só o início de um problema de integração, que começa com o trauma dos pais e pode interferir na adaptação da criança.

Gilgen acredita que, em um contexto social no qual 25% da população é estrangeira, como é na Suíça, o papel da Instituição deve ser mais preventivo e educacional. "Assim conseguimos nos aproximar dos cidadãos e trabalhar na precaução", explica o policial.

swissinfo.ch: Como o Senhor vê a relação da Polícia com a integração de migrantes na Suíça?

Markus Gilgen: É intrínseco. Em termos gerais, o relacionamento da Instituição com a população é baseado no poder; nós representamos a autoridade e temos armas. Claro que precisamos lidar corretamente com as pessoas e só devemos lançar mão de armas quando extremamente necessário.

Diante dessa relação de poder que atua sobre um público com valores, culturas e vivências tão diferentes, é preciso explicar o básico sobre o papel da Instituição na Suíça. Estamos aqui para garantir a segurança da população, na qual uma parte considerável é formada por estrangeiros. Desse grupo, existe uma parcela que vem de países onde a convivência com a Polícia é violenta, baseada na desconfiança, como no Brasil, por exemplo. Nós sabemos que a Polícia de outros lugares infelizmente bate, aplica multa de forma errada e aceita suborno.

Dessa forma, eu penso que migrantes e Instituição Policial apresentam grande probabilidade de se comunicar mal, em vez de colaborar um com o outro. O nosso papel é mudar esse conceito. Isso sem falar na barreira da língua e do desconhecimento de direitos e deveres daqui.

Queremos que a população confie no nosso time. Policiais da Suíça não são treinados para bater nas pessoas e, sobretudo, não queremos sujar nossa imagem. Por isso acho muito importante que seja feito trabalho de conscientização com esses grupos de estrangeiros específicos.

swissinfo.ch: O Senhor sabe de alguma iniciativa já realizada nessa direção?

M.G.: Eu mesmo já fiz algumas palestras com o público de requerentes de asilo da Eritréia, por exemplo, como trabalho voluntário. Queria explicar a eles que a polícia na Suíça pode ser uma aliada, e não uma inimiga. Existem grupos de rapazes que pedem asilo aqui e, pela sua condição, não podem trabalhar e ficam perambulando por estações de trem.

Por virem de sociedades com poderes patriarcais muito fortes, não estão acostumados a conviver com a liberdade que a Suíça proporciona. Para esses rapazes, é difícil lidar com o fato de que os pais ou os órgãos repressores não estão mais ali. É um grande desafio aprender a lidar com a liberdade.

swissinfo.ch: E quais são as mensagens que tentam passar para esse grupo?

M.G.: O país é cheio de regras, mas o cidadão tem o privilégio de desfrutar de segurança e respeito pelos direitos humanos. Por aqui, desfruta-se de liberdade, que vem seguida de responsabilidades. Essas são algumas das regras. São consideradas por alguns grupos como exageradas, mas é o seguimento delas que garante uma convivência pacífica e segura.

Eu acredito que a Polícia tenha papel fundamental na explicação dessa dualidade liberdade-obrigações. Mas sempre tentando trazer o cidadão para o nosso lado, que eles nos enxerguem como aliado e não repressor.

Apresentamos para os cidadãos da Eritreia, por exemplo, o papel da Polícia, o que ela desempenha, como um controle de documentos deve ser realizado de modo a prevenir abuso de poder ou até como se comportar nesse tipo de situação. Inclusive explicamos que existe um canal no qual é possível reclamar caso alguém se sinta desrespeitado.

É claro para mim que, dependendo da cultura, as pessoas se comportam e entendem determinadas regras de forma diferente. Por exemplo, como é o comportamento em cada país com relação a beber e dirigir, o uso do cinto de segurança, a oferecer propina para o guarda.

swissinfo.ch: A Suíça é um país muito seguro, principalmente se comparado com o Brasil. Mas obviamente não é livre de crimes. Eu tenho a impressão de que pessoas que vêm de cidades muito violentas, como o Rio de Janeiro, por exemplo, podem confiar demais na calmaria e baixar a guarda, aumentando até a probabilidade de se tornarem vítimas de algum crime, como assalto ou até mesmo estupro. O que o Senhor diria a esses migrantes?

M.G.: É verdade. Temos o luxo de poder andar na rua sem medo, de deixar nossas crianças irem a pé para a escola. O presidente vai ao trabalho de transporte público, sem guarda-costas.

É importante que as estrangeiras, que não sabem se mantém a vigilância ou se relaxam e andam calmamente pelas ruas, mantenham em mente que aqui é seguro, mas não livre de crimes. Ambientes de estação de trem são locais mais arriscados. É preciso atenção. Sempre aconselho às mulheres que, se andam de madrugada, façam de preferência acompanhadas de uma pessoa. Evitem lugares escuros. Recomendamos a instalação de alarmes para prevenção de roubo a residências também.

Por um outro lado, temos observado aumento do número de crimes digitais, como assédio moral e pornografia. Fazemos trabalho intenso de prevenção nas escolas e em asilos de idosos. Como no Brasil, aqui na Suíça existe o crime de ligar para a casa ou celular e se passar como alguém da família para pedir dinheiro, o chamado Enkeltrick (n.r.: truque do neto). As vítimas são principalmente os mais idosos. Há também os golpistas que telefonam e dizem que precisam de dinheiro para doações a instituições de caridade.

Eu acho que é nossa obrigação como Instituição é esclarecer, e não somente vigiar. Assim conseguimos nos aproximar da população e trabalhar em conjunto para um país seguro, tanto na prevenção de acidentes de trânsito quanto na diminuição de crimes, delitos ou mal-entendidos. Acredito que a sensibilização da Polícia quanto ao entendimento da cultura dos estrangeiros seja um enorme campo a ser explorado.

14 de setembro de 2018Depressão faz mais vítimas entre quem vive longe de casa

A psicóloga Luciana Straub vive na pele as maravilhas e agruras de ser uma estrangeira em solo suíço. O lado positivo ela confirma pela família que construiu e pelo trabalho que realiza como moderadora terapêutica de grupos de brasileiras no cantão da Turgóvia e tradutora. Já o negativo ela mostra em números: estudos indicam que a depressão acomete quase duas vezes mais o grupo de migrantes que o restante da população.

pessoa

Luciana Straub: "No auge do desencantamento, as dificuldades enfrentadas no país estrangeiro tomam uma proporção enorme."

(swissinfo.ch)

Quando a comparação é o gênero, a mulher também apresenta desvantagem: a doença atinge 21% de mulheres e 13% dos homens. Como a migração brasileira na Suíça é em maioria feminina, o tema ganha mais relevância.

Dificuldades em se aprender uma nova língua, a obrigação da reinvenção, a saudade da família e dos amigos, a falta do sol e mais uma série de adversidades enfrentadas por um migrante podem levar ao desenvolvimento da doença. Entre as mulheres, há ainda alguns personagens extras para atrapalhar: as mudanças hormonais.

Por sua experiência pessoal e acadêmica como psicóloga, foi convidada para palestrar, no dia 19 de setembro, em evento promovido pelo Centro Brasileiro de Integração (Cibra), em Solothurn. O tema do encontro será Depressão no Processo Migratório. swissinfo.ch conseguiu conversar com a psicóloga antes da palestra e adiantar um pouco o que será falado.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Você profere palestra no Cibra sobre depressão. Como essa doença afeta os migrantes na Suíça?

Luciana Straub: As pessoas geralmente chegam encantadas ao país. Como diz a minha irmã, a Suíça é uma casa de bonecas de tão bonitinha, tão diferente do Brasil que a gente conhece. Dessa forma, logo que se chega, vive-se essa fase do encantamento. Eu mesma, quando desembarquei aqui, olhava pela janela do trem e via aquelas plantações lindas, as cores mudando com a troca das estações, e ficava maravilhada.

Só que esse encantamento passa. E aí começa o choque. Tudo que era lindo começa a incomodar. Quem está no Brasil, entretanto, não vê isso, nem ouve falar. Apesar do país viver esse momento complicadíssimo, o migrante que está aqui vivendo essa fase de decepção quer voltar, porque esquece desses fatores econômicos ou das mazelas. O Brasil, ou o país da onde a pessoa vem, nesse período, é o único que serve, que é bom.

O primeiro choque dá-se na confrontação com a língua. A gente tem que reeaprender quase tudo, volta para antes do jardim de infância; não sabemos nem falar. Conforme o tempo passa, vamos acumulando muitas perdas. E quando nos damos conta, começamos a viver o luto por essas privações.

Para aqueles que migram para a parte germânica, é ainda mais complicado. Se deparam com a língua alemã, que é mais difícil de aprender. Costumo dizer que trata-se de um idioma que se estuda muito, mas cujos resultados demoram para serem mostrados. E quando a pessoa tem coragem de iniciar uma conversa na rua, ainda precisa lidar com as respostas em dialeto.

No auge do desencantamento, as dificuldades enfrentadas no país estrangeiro tomam uma proporção enorme. Até o silêncio incomoda. E nesse processo, o migrante pode começar a se deprimir.

É quando percebemos que as conquistas não vêm, seja pelo aprendizado da língua ou pela busca de um emprego. Tem gente que se isola, o que acaba piorando a situação.

swissinfo.ch: Pelo seu relato e pelo que ouço de vários estrangeiros que vivem aqui na Suíça, concluo que esse migrante não esperava encontrar essas dificuldades. O fator surpresa acaba por não prepará-los para esses desafios, não é verdade?

L.S.: Concordo. Esses pequenos detalhes, que nos passam despercebidos quando estamos na nossa terra, são muito mais pesados aqui. Quando deixamos o Brasil, perdemos status social, emprego, nossa cultura, amigos, família, nosso solo, sol e mais uma infinidade de coisas. Todas essas supressões podem fazer com que a pessoa adoeça, seja por doenças psicossomáticas ou até uma depressão.

swissinfo.ch: Obviamente nem todos irão desenvolver uma depressão.

L.S.: Nem todo mundo terá depressão, que é uma doença. Mas a maioria irá enfrentar o choque cultural, essa fase da crise e de profundos questionamentos.

swissinfo.ch: E como é essa depressão no migrante? Como se dá?

L.S.: A depressão está ligada a alguns fatores: biológicos (genética, gênero, idade), psicológicos, sociais e uso de alguns medicamentos. Dependendo dessa mistura, pode-se ou não apresentar um quadro depressivo.

É importante saber que algumas pessoas têm mais tendência que outras. Mas isto também é influenciado pela forma como os fatores ligados à mudança se relacionam. O que se sabe é que as mulheres têm mais propensão que os homens, em termos gerais - 21% mulheres e 13% homens. Essa diferença deve-se, em muito, à turbulência hormonal que a mulher vive ao longo da sua vida. Mas se pegarmos o grupo de migrantes no mundo, teremos quase duas vezes mais incidência da doença do que na população em geral. Por quê? Porque os fatores sociais e psicológicos desse grupo jogam contra a saúde, digamos assim. O migrante saiu do seu habitat natural, tem dificuldades com a língua, tem saudade, geralmente uma nova posição social e/ou profissional, enfim, tudo que eu já mencionei. Soma-se a isso a parte psicológica, que fica fragilizada principalmente na fase de choque, com sintomas como baixa autoestima, dificuldade em lidar com o estresse, baixa tolerância à frustração e outros inúmeros.

swissinfo.ch: E o que você aconselharia às brasileiras para evitar ou pelo menos minorar o problema?

L.S.: Eu diria que uma das principais medidas é procurar ajuda profissional e grupos de apoio e não se isolar. O que me ajudou muito a não adoecer, na época do meu choque, foi reconhecer que eu não estava bem e pegar um avião para Salvador, minha cidade natal, para recarregar as energias, tomar banho de mar, de sol, de muito carinho e falar com um profissional sobre toda a mudança.vivida.

Aprenda o idioma da região onde mora, procure se integrar a vida suíça. Mas cuidado com assimilação total da rotina daqui, negando, algums vezes sua história, seu passado. É uma questão de equilíbrio, entende? A integração ajuda minimizar o choque cultural, e por sua vez, evitar o adoecimento. É importante também cultivar amigos brasileiros, falar português, procurar conversar com pessoas da nossa cultura.

Eu faço parte da organização de um grupo de brasileiras na Turgóvia, o Grupo Equilíbrio. Além de organizarmos palestras com temas diversos, também trocamos experiências, desabafamos e nos divertimos bastante.

swissinfo.ch: E como reconhecer se a pessoa sofre de depressão?

L.S.: Preste atenção em sintomas como humor deprimido, apatia, falta de interesse pela rotina, sono excessivo ou perda dele, mudança de apetite, dores sem causa física. Quem tem pai ou mãe com a doença, é importante ficar mais atento. O peso genético, às vezes, é forte

Para quem tem ou desconfia que esteja sofrendo da doença, procure ajuda profissional. Não tenha vergonha e não se apegue a rótulos. Psiquiatra e psicólogo não é sinônimo de maluquice! Procure a ajuda. Este é o primeiro passo. Tenha sempre em mente: sair do nosso país significa recomeçar. Tem que tomar as rédeas da mudança. É difícil, mas dá para superar. Se tiver depressão, vença com tratamento. Se não tiver, supere os obstáculos da migração com paciência, foco e amigos. E não deixem de comparecer no Cibra no dia 19 de setembro. Lembre-se da importância de debater essas questões para se fortalecer.

Mais informações sobre a palestraLink externo do Cibra: Do Encantamento à Depressão: A Depressão no Processo Migratório

Dia 19 de setembro, às 19 horas, no Infocenter Citywest, Brunngraberstrasse 2, Solothurn

Participação gratuita

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3 de setembro de 2018Estudo aponta preconceito na contratação de estrangeiros

O trabalho de conclusão do MBA de Adelina Stefan pela Universidade de Plymouth trouxe à tona uma triste realidade, que muitos já desconfiavam: existe preconceito sim contra estrangeiros, quando o assunto é entrevista de emprego e contratação na Suíça. 

Mulher

Adalina Stefan: "Achavam muito estranho que eu já tivesse cinco anos de experiência como assistente executiva."

(swissinfo.ch)

A estudante entrevistou 57 profissionais da área, advindos de 28 multinacionais, a maioria baseada no país. O resultado foi um misto de incompatibilidade de culturas nacional e corporativa como desculpa pelo não aproveitamento de determinado candidato que teria, em tese, as qualificações para a vaga de emprego.

O trabalho mostra mais que preconceito. Revela uma indisposição da sociedade e das corporações em abraçar a diversidade. “As empresas dizem, no discurso, que querem profissionais qualificados e que pensem fora da caixa. Na prática, alegam não quererem contratar alguém que não se encaixe na cultura do país ou na da empresa. Ao final, como em um algoritmo de rede social, somente os semelhantes são considerados”, explica Adelina, foi criada na Grécia e vive em Olten, na Suíça alemã, há pouco mais de dois anos.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: O que exatamente a senhora descobriu com a sua pesquisa?

A.S.: Eu queria compreender o impacto da cultura nas práticas de recursos humanos, crucial para entender como os gerentes da área percebem esse tema. O mais marcante foi que a cultura é percebida com duas facetas, a nacional e a organizacional. Então, resumindo, se o candidato não se encaixa em nenhuma dessas duas facetas, não é considerado no processo de seleção. O problema é que essa prática vai na direção contrária da busca pela diversidade, que prega mais mulheres em cargos de liderança, pessoas de diferentes realidades culturais trabalhando em times, funcionários que pensem diferente para despertar a criatividade.

swissinfo.ch: Eu imagino que em um país como a Suíça, no qual mais de 25% da população é estrangeira, fica bem complicado manter esse tipo de tendência de recrutamento.

A.S.: Com certeza. Com a minha pesquisa, eu pude identificar uma série de desafios que os departamentos de recursos humanos têm encontrado para recrutar, selecionar e treinar funcionários. Esses profissionais hoje, em termos globais, precisam encarar e rever seus pré-julgamentos, baseados em visões do mundo às vezes enviesadas pela cultura própria. Eles têm que lidar com a necessidade latente de consciência intercultural em relação à cultura organizacional, que significa a capacidade de entender as diferenças, de compreensão de que nem todos desempenham tarefas da mesma maneira ou entendem a mesma mensagem de forma igual. 

Esses profissionais precisam urgentemente de treinamento intercultural. Precisam aprender a avaliar candidatos tão distintos sem vieses. É necessária uma mudança de paradigma.

swissinfo.ch: E como isso se dá na prática?

A.S.: Eu entrevistei 57 profissionais relacionados com a área de recrutamento e seleção, a maior parte baseada na Suíça. Desse total, 28 eram profissionais de recursos humanos ou especialistas, 11 gerentes que trabalham nas áreas de diversidade e inclusão, seis gerentes de mobilidade global e 12 treinadores interculturais.

Pelas entrevistas, eu pude constatar que a maioria entende cultura pela ótica de Edgar Schein: "esse é o jeito que fazemos coisas aqui". Os gerentes também tendem a associar uma série de fatores, como nacionalidade, idade, gênero, formação, raça, religião, experiências pessoais.

No final das contas, os contratantes preferem culturas que se ajustem a eles. Eles observam o comportamento do candidato, o tipo de pensamento, que deve coincidir com o da empresa ou do gerente. Mas ao mesmo tempo essas empresas anunciar que querem apostar na diversidade. É uma discrepância.

Por exemplo, antes de uma vaga ser publicada, eles preferem contratar um profissional interno. Se não é achado, então a vaga é oferecida externamente.

Eu vou te dar um exemplo pessoal que talvez tenha me inspirado muito a estudar esse tema. Como eu cheguei jovem aqui na Suíça, quando era convidada para entrevistas de emprego, achavam muito estranho que eu já tivesse cinco anos de experiência como assistente executiva. Eu era considerada super-qualificada, mas ao mesmo tempo, me sugeriam voltar aos bancos universitários, para obter um diploma suíço. Ao mesmo tempo, pude verificar que o meu marido, que não fala tão bem o alemão, conseguia empregos mais facilmente.

É que além da cultura nacional e corporativa, os vieses culturais com relação ao gênero são muito fortes aqui. É mais fácil para um homem arrumar um emprego do que para uma mulher, assim como é mais provável que um suíço obtenha a vaga em vez de um estrangeiro. Nas entrevistas, veio também a confirmação de que mulheres com idades na casa dos 30 anos são mais rejeitadas, pelo fato de estarem na "idade fértil".

No final das contas, as empresas suíças, mesmo que multinacionais, estão repetindo o padrão da teoria das culturas 'coco' e 'pêssego'. Coco são as duras de penetrar, como a casca da fruta. Já as sociedades pêssego são mais maleáveis.

swissinfo.ch: E qual seria seu conselho para os estrangeiros procurando uma vaga de trabalho aqui na Suíça?

A.S.: Se você quer permanecer aqui, não espere que consiga esse emprego tão rapidamente. Pode demorar até dois ou três anos. Não se esqueça, trata-se de um mercado com casca dura como o coco. Então, não é incompetência da pessoa, mas a dificuldade é fruto de uma situação adversa.

Nas entrevistas, eu pude constatar que é importante o candidato mostrar que está totalmente integrado aos valores suíços, como pontualidade, se consegue falar uma das línguas nacionais, no caso o idioma de onde irá trabalhar.

Esteja preparado para lidar com colegas e chefes em uma sociedade de baixo contexto, categorização cultural de autoria de Richard Lewis. De acordo com a escala de comparações de Lewis, é importante não demonstrar muito os sentimentos, não misturar vida profissional com privada, por exemplo.

É de bom tom começar fazendo trabalhos voluntários. Assim consegue-se mostrar que há interesse em fazer algo para a comunidade, estabelece-se mais conexões, o que pode ajudar no tão sonhado emprego. Mas continue a sua busca: é difícil, mas não é impossível.

17 de agostoMúsica: um amor que rompe barreiras e une culturas

Foi no show Águas de Março, que acontece todo ano em Winterthur, que dei de cara com Lino Botter Maio tocando com o pai, Rodrigo Botter Maio. Inacreditável.

Três homens tocando saxofone, acordeão e trompeta

Os filhos do músico brasileiro também seguiram seus passos.

(swissinfo.ch)

O menino de 16 anos, criado em Zurique, maneja no acordeom clássicos da MPB, bossa-nova, tango, entre outros ritmos e estilos. 
Mas mais bonito que ouvir, é ver a conexão do filho suíço com pai brasileiro.

Do público, dá para enxergar, como nos diálogos de histórias em quadrinhos, transparentes balõezinhos com conversas trocadas pelo olhar. O menino mira o pai, que dá uma nota, e assim estabelece-se a comunicação. O público? Esse fica hipnotizado. 

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O fascínio nasce não somente pelo talento musical e graça do adolescente. A admiração vem da conjunção de menino criado fora do Brasil-filho de pai brasileiro-que ama e reproduz lindamente a música nacional. Nessa relação não tem barreira da língua, choque de gerações ou diferentes valores. Quem fala mais alto é o amor paternal e musical. 

Segundo Lino, a relação íntima com a música estreita a conexão com o pai e com o Brasil. Quando questionado sobre o assunto, não titubeou: "Eu tenho certeza de que passo mais tempo com meu pai do que os meus amigos da minha idade. Eu toco com ele, conversamos sobre canções, aprendo. É muito legal. Acho que conheci os ritmos brasileiros antes do país", conta o adolescente, que fala português fluentemente e de vez em quando toca MPB para os amigos suíços. 

Rodrigo Botter MaioLink externo confirma: "assunto é o que não falta entre a gente. Mas eu juro que nunca forcei. Vida de músico é dura. Eu não quero que meus filhos façam música só para me agradar. Mas confesso que fico muito feliz por eles gostarem. Acredito que ela una a nossa família", diz o músico, que conheceu a esposa suíça que, apesar de arquiteta, tocava saxofone em Roma. 

De acordo com Rodrigo, o interesse de Lino pela música e pelo acordeom, seu instrumento favorito, começou quando ele tinha seis anos, ao assistir ao filme Dois Filhos de Francisco, que conta a trajetória dos cantores sertanejos Zezé Di Camargo e Luciano. "Ele ficou simplesmente vidrado e me disse que queria aprender". De acordo com o pai, logo no início da aventura musical, Lino já conseguia tocar Asa Branca, de Luiz Gonzaga. O músico diz que criava arranjos mais simples para adaptar Trenzinho Caipira, de Villa Lobos, aos conhecimentos do filho ainda criança. Hoje ele toca e canta; não é à toa que pretende seguir carreira. 

Luis, o filho de 19 anos, também cresceu nesse ambiente e foi contaminado. Aos sete, descobriu o trompete, instrumento que, segundo Rodrigo, é difícil de tocar. Não se sabe se ele quer se tornar profissional, mas já tocou com o pai em vários concertos pela Suíça e Europa, integrando o Quarteto Bossa Nova e o Grupo Gafieira Alpina. Com apenas dez anos, o primogênito se apresentou com o pai no Jazz no Jazz, festival que acontece em Zurique todos os anos. Ele foi o participante mais jovem de todo o festival. 

O pai conta orgulhoso que o menino descobriu no ano passado Gilberto Gil e Rita Lee e que se diverte cantando sucessos dos artistas. Já compôs peça para piano, toca sempre bateria nos workshops de música, e em casa passa o dia todo no piano, ukulele, violão ou no baixo elétrico.
"Eu fico muito feliz de ter passado o gosto pela boa música. Eu fui mostrando aos poucos, e eles se interessaram", diz Rodrigo. Definitivamente não é só amor e laços de sangue que unem a família Botter Maio. 

Poder de seduzir, comunicar e aproximar pessoas

Quem cria filhos em outro país pode ter uma dificuldade a mais para estabelecer laços culturais estreitos quando eles ficam maiores. Barreira da língua, vivências e valores diferentes e choque de gerações são capazes de distanciar seres que tanto se amam. Mas é possível criar conexão, seja por hobby, esporte, música ou gostos parecidos, além de muita compreensão, claro. 

Mas a música tem inúmeros poderes e um deles é o de unir gerações e culturas totalmente distintas. De acordo com artigo da BBC de 2015, cientistas levantaram a hipótese de que a música teria surgido como uma forma primitiva de comunicação. Pesquisadores da Universidade do Wisconsin, nos Estados Unidos, estabeleceram que certos temas musicais podem, de fato, carregar algumas das marcas registradas de apelos emocionais de nossos antepassados. Alguns sons tendem a nos colocar em alerta, enquanto tons longos e descendentes parecem ter um efeito calmante – só para citar dois exemplos.

Uma vida de choro e bossa

O flautista e saxofonista Rodrigo Botter Maio sempre viveu de música. Ele acaba de lançar seu 7° CD, o primeiro gravado no Brasil. Já havia ...

Esses padrões sonoros parecem ter um sentido universal para adultos de diferentes culturas, crianças pequenas e até outros animais. Portanto, talvez a música tenha sido calcada em associações feitas com os sons emitidos pelos animais, ajudando-nos a expressar nossos sentimentos antes de termos as palavras. Seria uma forma de "protolíngua", que poderia ter aberto caminho para a fala.

Outras correntes acreditam que a música pode ter ajudado a moldar as sociedades humanas quando começamos a viver em grupos cada vez maiores. Dançar e cantar juntos parece ajudar os agrupamentos a serem mais altruístas e a terem uma identidade coletiva mais forte.

De acordo com uma pesquisa inovadora na área de neurociência, realizada na Grã-Bretanha, quando alguém se move em sincronia com outra pessoa, seu cérebro começa a criar uma névoa na sua percepção de si mesmo. Passa-se a pensar que os outros se parecem mais com você e compartilham das suas opiniões. E a melhor maneira de fazer as pessoas se moverem juntas é com música. O papel da música como um amálgama social também pode ser visto nas canções entoadas por escravos quando trabalhavam, por marinheiros e seus cânticos de navegação e por soldados e suas marchas.

Apesar de aumentar seu impacto, a participação ativa na música não é absolutamente necessária para sentir seus benefícios. Simplesmente ouvir uma canção que produza um "frisson musical" pode aumentar o altruísmo. Com mais solidariedade e menos disputas internas, um grupo pode ficar melhor equipado para sobreviver e se reproduzir. 

A música realmente tem um poder de união. E, ao tomar um lugar tão importante em nossas relações, parece lógico que ela também mexa com nosso coração, nos ajudando a criar uma conexão emocional.

De acordo com reportagem do Jornal Gazeta do PovoLink externo, até hoje, todas as culturas estudadas fazem alguma forma de música e entre os objetos artísticos mais antigos já encontrados estão flautas feitas de ossos de mamute, algumas com mais de 43 mil anos – ou seja, 24 mil anos antes das pinturas rupestres de Lascaux. Em vista da antiguidade, da universalidade e da profunda popularidade da música, muitos pesquisadores presumem há bastante tempo que o cérebro humano seja equipado com algum tipo de "câmara musical", uma área específica da arquitetura cortical dedicada à detecção e interpretação dos deliciosos sinais sonoros.

1º de agostoQuando o príncipe encantado se transforma em carrasco

A semana da conscientização contra o tráfico de seres humanos, que tem início todos os anos no dia 30 de julho, traz à tona um assunto que precisa ser discutido sem tabu: o casamento com pessoas de outro país.

Mulher posando para fotógrafo

"...Depender da ajuda do Estado é sempre perigoso para a mulher migrante, pois poderá caracterizar a sua falta de integração no país", explica a advogada Fernanda Pontes Clavadetscher.

(swissinfo.ch)

Com exceção das uniões baseadas no amor e no respeito, que são a maioria, o relacionamento com um estrangeiro e a consequente migração pode significar a porta de entrada para a vulnerabilidade ou até mesmo o início de uma realidade de escravidão sexual, de trabalhos forçados ou de violência.

O tráfico de seres humanos pode acontecer também por meio de casamentos ou uniões. É mais comum do que se imagina homens viajarem, trazerem uma mulher estrangeira para viver em seu país e depois escravizá-las.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O governo brasileiro está ciente do problema e criou material de orientação na sua página. O Ministério das Relações Exteriores afirma que vem recebendo numerosas queixas de cidadãs brasileiras vítimas de roubos, fraudes e violência cometidos por cônjuges estrangeiros que conheceram pela internet e com os quais tiveram pouco ou nenhum convívio presencial antes do casamento.

De acordo com os relatos recebidos, que incluem denúncias de cárcere privado, é frequente, nesses casos, que os maridos estrangeiros mudem completamente de comportamento, logo após a formalização do matrimônio, tornando-se agressivos e manipuladores ou interrompendo repentinamente o contato com as vítimas, após obterem visto de permanência no Brasil.

E a Suíça não está imune a isso. Matéria publicada no último dia 30 de julho mostra que o país lidera, junto com Portugal, a nação com maior número de brasileiros traficados internacionalmente.

O objetivo dessa matéria não é falar mal dos casamentos binacionais, mas alertar para alguns riscos que esse tipo de situação pode gerar e como a mulher brasileira em país estrangeiro deve se prevenir. É claro que violência doméstica pode acontecer com qualquer casal. Mas a migração expõe às mulheres a situações mais arriscadas.

Além do tráfico de seres humanos e a escravização de mulheres, outro problema enfrentado por brasileiras ao se casarem com estrangeiros é a vulnerabilidade que a própria situação migratória já traz: dificuldade com a língua, falta de uma rede de ajuda, família distante, dependência financeira, problemas culturais, desconhecimento dos seus direitos e da nova realidade e assim por diante. Para homens mal-intencionados, é a combinação perfeita.

Vulnerabilidades

Caso a união tenha gerado filhos, isso pode as colocar para sempre atadas ao país do marido. Mesmo que se divorcie e queira ir embora, a princípio terá que permanecer no país, caso o pai da criança não permitir que ela retorne para o seu país de origem com o menor de idade. Nessa situação, a única solução jurídica viável será requerer uma autorização judicial, a qual se baseará sempre no melhor interesse da criança. E caso ele a deixe sem dinheiro após a separação, ela poderá passar por situação de dificuldade financeira. Em alguns casos, o abandono e faz com que a pessoa precise deixar o país. Em outros, o que é o pior, a mulher simplesmente aguenta situações de maus tratos, violência e de humilhação por desconhecer os seus direitos.

Para esclarecer melhor a situação de relacionamento, direitos e divórcio, a advogada Fernanda Pontes Clavadetscher, presidente e coordenadora geral da Associação Saber Direito, conversou com a swissinfo.ch sobre as vulnerabilidades, o que pode ser feito para amenizar o problema, e o que mulheres que se divorciam no país devem prestar atenção ou podem pleitear.

A advogada atende pelo Saber Direito inúmeros casos de mulheres que sofrem violência ou que querem simplesmente se separar, mas não têm ideia sobre o que fazer por desconhecerem os seus direitos na Suíça. “Muitas têm um grande receio de entrar com a separação por acharem que perderão a guarda dos filhos ou por se sentirem desamparadas num país que não é o delas. É muito triste ver que mulheres se submetem a situações de maus tratos por desconhecerem seus direitos”, afirma a advogada.

swissinfo.ch – Como fica a situação de uma mulher que se divorcia na Suíça?

Fernanda Pontes: É difícil generalizar. Direito de Família é muito casuístico. O que eu quero dizer com isso é que cada caso deve ser avaliado individualmente. O juiz normalmente analisa como o casal vivia financeiramente. Se a mulher nunca trabalhou fora, sempre cuidou dos filhos e da casa e o marido era o provedor da família, em regra, numa separação essa estrutura familiar deverá permanecer. Na prática, a mulher tem o direito de permanecer com o mesmo estilo de vida, mas claro que isso vai depender muito da situação financeira do marido, pois a sua existência mínima terá que ser garantida.

Caso essa mulher fique desprovida de recursos, o que acontece com certa frequência quando a pensão alimentícia aplicada não dá para cobrir as suas despesas essenciais, quem assume as despesas dessa mulher e do filho é o Departamento Social. Porém, depender da ajuda do Estado é sempre perigoso para a mulher migrante, pois poderá caracterizar a sua falta de integração no país, fator essencial para a sua permanência na Suíça. É por isso que é tão importante manter-se bem informada sobre os seus direitos e deveres.

Outro detalhe muito importante: se a pessoa está casada há menos de três anos, em caso de separação, provavelmente terá que deixar a Suíça.

swissinfo.ch: A Senhora acredita que a mulher que se casa com um estrangeiro precisa tomar mais cuidados?

F.P.: Eu diria que é necessário tomar decisões com cautela, principalmente quando o casamento envolve mudança de país. Isso significa que ela deixará o seu meio social, a sua família, profissão e muito mais.

Migração, por si só, significa vulnerabilidade. Afinal de contas, emigrar é pisar em um terreno que não se conhece, salvo raras exceções. Quando uma brasileira pega o avião e cruza o oceano, ela precisará de dinheiro para comprar a passagem de volta, caso algo dê errado. Se ela não trabalhar e depender financeiramente de alguém que deveria ser parceiro, mas se tornou algoz, está realmente nas mãos dessa pessoa. Mas o importante é saber que para tudo tem jeito e ficar atenta a sinais.

swissinfo.ch: E quais seriam esses sinais?

F.P.: Sem querer generalizar ou culpar alguém especificamente, a brasileira deve ficar atenta quando o marido não permite que ela aprenda a língua da região onde vive e não a estimula a se integrar no país. Fique atenta também ao comportamento dele quanto ao salário. Marido que não deixa a esposa saber quanto ganha não é bom sinal.

swissinfo.ch: Então, mesmo em 2018, ainda temos mulheres acreditando em príncipes encantados?

F.P.: Com certeza. Muitas mulheres se mudam para a Suíça achando que irão viver um conto de fadas. É aquela velha história de supervalorizar o estrangeiro. Não é à toa que o tráfico de seres humanos mexe tanto com esses sonhos ingênuos de tantas brasileiras e brasileiros.

Muitas dessas mulheres fantasiam que a vida delas será um luxo, afinal de contas vêm morar na Suíça, o país encantado dos alpes e do chocolate. Muitas se apaixonam mesmo, tanto pelos homens quanto pelo promissor futuro. E o pior, muitos desses relacionamentos começam pela internet, na maioria das vezes sem qualquer aprofundamento. Imagina o perigo.

E mesmo que essa migrante não enfrente uma situação tão séria quanto maus tratos ou tráfico, ela pode sofrer um choque simplesmente pela expectativa e realidade. A gente sabe que a vida de uma dona de casa aqui não é como no Brasil, quando a pessoa pertence à classe média. Some-se a isso as diferenças culturais, a frustração da perda da autoconfiança e autonomia, temos aí uma probabilidade para que uma situação não dê certo ou sofra fortes crises.

swissinfo.ch: E como advogada, qual seria o seu conselho a essas pessoas que pensam em deixar o seu país para se casarem com estrangeiros?

F.P.: Eu diria que principalmente à mulher, que é a maioria nesse processo de migração, deve procurar se empoderar.  Isso significa que ela necessita aprender o idioma local e procurar informações sobre vários assuntos.

Deixar a zona de conforto e tomar as rédeas da própria vida é fundamental. É importante não deixar para começar a se informar só quando já estiver numa crise. Informação é importante sempre. Outro aspecto essencial é estar ciente do orçamento familiar. É preciso saber questões simples, como por exemplo, quanto custa o seguro de saúde, o aluguel. Não espere o marido resolver tudo.

E se ainda não deixou o Brasil, aproveite para se informar sobre a cultura do país e como a vida funciona; não somente sobre questões jurídicas, mas culturais também. Converse sobre temas importantes com o futuro cônjuge. Pergunte o que ele acha sobre ter filhos, o que pensa em relação à mulher trabalhar e como você poderá aprender a língua do país. Com essas e outras respostas mais específicas, já dá para começar a ter uma ideia de como o seu futuro cônjuge pensa. Então, eu finalizo com a máxima: seja consciente, bem informada e, de resto, aproveite para ser feliz.

18 de julho de 2018Flexibilidade para sobreviver às mudanças

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". A psicóloga Clínica Cristina Bandeira aconselha a quem mora no exterior a seguir o conselho de Raul Seixas.

Mulher sentada

Cristina Bandeira: "Minha experiência me mostra e estudos comprovam que os mais apegados a rígidos valores e crenças têm mais inconvenientes em se adaptar a uma nova realidade..." 

(swissinfo.ch)

Com experiência de 30 anos em Terapia Gestalt, inclusive com pacientes brasileiros que embarcaram para o exterior e enfrentaram problemas de adaptação, ela mesma conta que foi vítima de choque cultural quando saiu do Rio de Janeiro para morar em Florianópolis. Carioca de Copacabana, estava acostumada a sair da praia e passar no supermercado somente de canga e chinelo. Em Santa Catarina, quase foi expulsa do por não estar vestida adequadamente. Nessa entrevista, Cristina divide com a equipe da swissinfo.ch seu ponto de vista, reflexões e ensinamentos.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Quem seriam as pessoas que mais apresentam dificuldades para se adaptar em outros países?

Cristina Bandeira: A minha experiência me mostra e estudos comprovam que os mais apegados a rígidos valores e crenças têm mais inconvenientes em se adaptar a uma nova realidade. Já os mais flexíveis, ao contrário, apresentam mais facilidade.  

Não se trata de um tipo de personalidade, como a histérica ou a narcisista, por exemplo. E sim de uma forma de estar e ou de se colocar no mundo. Explicando melhor: entre oito e 80, existem várias nuances. Assim é a vida.

swissinfo.ch: De que forma essa característica afetaria o processo de adaptação de um migrante?

C.B.: O interessante é que algumas pessoas conseguem ser flexíveis em várias áreas de sua vida, mas quando envolve família, valores ou se veem em processo de profundas mudanças, como é a migração, acabam mostrando que não são tão maleáveis assim.

Por exemplo, cada país tem sua tradição e cultura, certo? Suponhamos que alguém more na Suíça e vivencie o carnaval local, que com certeza não é tão animado quanto o brasileiro. Mas não adianta reclamar, porque as coisas são como são. Então você decide o que é importante para você, o que incomoda e o que é aceitável e convive com isso. Não precisa amar o carnaval suíço, mas tampouco tem que sofrer. Se odeia, planeje suas férias nessa época do ano. Se o orçamento estiver curto, junte os amigos e celebre o seu carnaval em casa. Por que não?

Quem não consegue se adaptar, geralmente se deprime. A depressão ocorre quando ficamos presos ao passado. E o migrante incorre nesse grande risco. Ele tende a se lembrar constantemente de como era bom naquele tempo, na sua rua, com os seus amigos. Atitude tipicamente de quem deixou algo para iniciar outro, mas não se desligou.

Se eu tentar fazer tudo como fazia no Brasil ou esperar reações brasileiras em outra cultura, vou me frustrar muito. País novo, regras diferentes.

swissinfo.ch: Além da flexibilidade, algum outro ingrediente na receita de uma adaptação mais leve em culturas estrangeiras?

C.B.: Outro componente que entra nesse processo é a expectativa trazida na mala. Geralmente quem deixa o Brasil traz muitas esperanças, que será feliz para sempre e que terá um emprego maravilhoso. A própria esperança pode trazer traços de visão do seu velho mundo, já que está integrada a uma análise feita ainda sob a ótica anterior. O meu sonho é uma possibilidade entre outras inúmeras. E isso tem um poder muito impactante, que pode se transformar em limitante, se a pessoa não conseguir relaxar e curtir o que lhe é apresentado.

Dessa forma, eu proponho que se faça uma reflexão profunda sobre a sua realidade atual e os valores antigos que ainda carrega e que não combinam mais. Os valores precisam ser atualizados com o tempo, e estarem de acordo com a sociedade em que se vive. Um exemplo que trago muito comigo é o da minha tia-avó, que levou uma surra dos pais quando era jovem porque mostrou o tornozelo para o rapaz que queria se casar com ela.

Conheço uma pessoa que me relatou que foi proibida pelo pai de usar roupa de couro. Naquela época, somente prostituta usava esse tipo de vestimenta. Mas se manter nesse padrão seria de extrema rigidez, algo que não caberia mais em tempos modernos. E assim se dá o processo de adaptação em uma outra cultura, alguns itens e comportamentos precisam ser substituídos por outros nesse meio distinto do que era originalmente o seu.

swissinfo.ch: Existe uma forma de exercitar a flexibilidade?

C.B.: Talvez ficando mais atenta ao seu comportamento. Por exemplo:  eu faço dessa forma, mas será que existe outra maneira de se fazer a mesma coisa? Como são as regras desse país? O que é aceitável e o que não é? Não tenha vergonha de perguntar para quem tem mais experiência do que você na sociedade na qual você agora está inserido. É importante mapear as atitudes esperadas. Engula a soberba e pratique a humildade de dar a cara a tapa. Peça explicação. Tente conhecer as leis, a cultura. O que não pode é chegar em um lugar e querer estabelecer suas próprias regras.

Afinal de contas, a forma de olhar o mundo não é igual em todos os lugares. A pior coisa é fingir que não vê e empurrar com a barriga. Não dá para fingir que o obstáculo não existe. Pode ser o aprendizado da língua, o desconhecimento das regras, a saudade, eles estão todos ali, acenando para você. Tem que encarar para remove-los.

O que nessa sociedade combina com meus valores? Como eu conseguiria integrar parte desses valores à minha vida? O que faz sentido para mim? O que eu quero, do que eu gosto? Entre em contato com você mesmo.

swissinfo.ch: Qual seria o seu recado para quem sofre com a adaptação ou que não consegue se encontrar nessa etapa da vida, vivendo em um país estrangeiro?

C.B.: Eu posso dizer que o que me deixa em sofrimento é esse conflito entre duas realidades totalmente distintas e a inaptidão em jogar fora o que não me serve mais. Eu sou feliz quando vivo o presente. O aqui e agora eu posso mudar, faça a sua escolha. Aceitar a nova cultura não significa se anular e sim aprender a conviver nesse novo contexto.

02 de julho de 2018Projetos de integração oferecidos pelo governo suíço ajudam a melhorar qualidade de vida no país

Uma boa dica para quem chegou à Suíça é procurar a prefeitura da sua cidade ou vilarejo e perguntar sobre os programas de integração. 

Mulher posando para o fotógrafo

Sabine Graser: "É bom sair um pouco do grupo de nacionalidade própria."

(swissinfo.ch)

Vale pesquisar na página de internet também. Existe uma infinidade de iniciativas, que vão desde aulas de bicicletaLink externo, passando por entrevistas personalizadas com o Departamento de Migração e IntegraçãoLink externo, até eventos e cursos de Boas Vindas.

Muitos residentes infelizmente não tomam conhecimento dos projetos por serem disponibilizados na língua do país de acolhida, o que dificulta a procura ou participação para quem não domina o idioma. Outra razão para a não adesão deve-se aos discretos anúncios do governo ou falta de tempo e disposição.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Nesse artigo, são citados apenas algumas boas ideias. Obviamente existe uma infinidade de projetos interessantes por todo o país, organizados também por pessoas comuns e muitas vezes voluntárias. Infelizmente a jornalista não daria conta de tomar conhecimento de todos, além da falta de espaço para menciona-los. Por isso fica a dica: procure por eventos relativos à integração e não se feche para o contato direto com suíços. É importante frequentar grupos de brasileiros e de portugueses, além de eventos organizados por pessoas de outras nacionalidades.

Para driblar o obstáculo da informação, a cidade de BadenLink externo, por exemplo, oferece já na inscrição obrigatória de moradia, uma hora de uma conversa com a família sobre questões da vida no país e na região. O bate papo é conduzido por um funcionário do departamento de Integração e segue alguns passos. O primeiro é dar as boas-vindas. Depois fala-se sobre a importância de se aprender a língua local, com opções de cursos de alemãoLink externo. Os participantes também são informados sobre questões do dia a dia, como creches, centros Familiares, escolas, bibliotecas, compras, trânsito e tempo livre, além de especialidades culturais, como valores e hábitos suíços. A cidade de GrenchenLink externo também oferece esse tipo de serviço.

Como a identidade dos participantes é protegida, a reportagem da Swissinfo.ch não teve acesso a nomes e não pode entrevistar participantes. É fácil imaginar, entretanto, o quanto ações como essas podem ajudar. O Escritório para Estudos de Trabalho e Política Social Bass (em alemão Büro für Arbeits und Sozial Politische StudienLink externo) realizou estudo para avaliar a receptividade da promoção da integração por meio de conversas no cantão de Zurique em 2016. Pode constatar que o interesse nesse tipo de oferta é grande. Dos entrevistados, 80% disseram que eles gostariam de participar de uma conversa para entender melhor como é a vida no novo local.

Mas não é necessária pesquisa para comprovar os benefícios de uma boa acolhida. Qualquer novo morador gosta de se sentir bem-vindo. É humanamente compreensível, principalmente quando se trata de estrangeiros chegando a uma terra diferente.

Outra boa iniciativa oferecida pelo boverno é o curso Bem-Vindo a ZuriqueLink externo, oferecido pela cidade em diversos idiomas, inclusive em português. Trata-se de uma iniciativa arrojada e única; os outros cantões disponibilizam informações em pdf em suas páginas de internet.

Os programas são desenhados para diversos tipos de públicos, com necessidades variadas. Há encontros voltados para migrantes acima dos 55 anos, como o Café Santé Baden. Durantes os encontros, as mulheres são convidadas a discutirem sobre temas relativos a saúde, alimentação, seguro saúde e outros que tenham relação com quem já passou dos 50 anos.

Para Sabine Graser, integração é encontro

À frente do Departamento de Integração da cidade de BadenLink externo (no cantão de Argóvia) há muitos anos, Sabine Graser lida com a questão migratória desde criança. Aos nove anos, teve que se mudar da Holanda para a Suíça e lidar com os dilemas da integração. Insatisfeita e triste por ter que deixar o seu país e amigos, a menina conta que escreveu para a rainha da Holanda e contou a injustiça a que estava sendo submetida: sair do país e ir morar em um lugar estranho, onde ela não dominava o idioma e não conhecia ninguém.

- Eu senti na pele, ainda que criança, o que é chegar em uma nova sociedade e me sentir perdida. Hoje, naturalmente, agradeço aos meus pais por me permitirem ter livros didáticos da Suíça naquela época e, assim, aprendi muito bem o alemão antes da mudança. Mas eu estava então tão infeliz que meus pais consideraram seriamente se não deviam voltar! Os professores da escola e as pessoas da vizinhança, que se aproximaram de mim abertamente e sem preconceitos, acabaram por me ajudar. Então, eu acho que esse interesse em integração pode ter sido trazido para a minha vida - conta Sabine.

No Departamento de Integração em Baden, Sabine Graser vai além de liderar projetos e eventos de networking ligados ao tema. Ela está sempre aberta a novas ideias e também cria seus próprios programas ligados ao assunto. O coral WorldCHOR BadenLink externo é um exemplo. Foi fundado por ela em 2016, tornou-se uma Associação no ano passado e hoje conta com cerca de 90 participantes, representantes de mais de 20 nações, com idades que variam entre 20 a 85 anos.

De acordo com Graser, o coral possibilita encontros musicais e culturais. Tem no seu repertório músicas de vários países e todos são convidados e estimulados a cantar em vários idiomas. “Além de divertido, é uma ótima oportunidade criar uma rede de contatos diferente, com pessoas que moram próximas, mas que vêm de diferentes lugares do mundo. É bom sair um pouco do grupo de nacionalidade própria”, explica. Sinal de que a integração está se encontrando.

Alguns projetos de integração

HeksLink externo

Idade e Migração

Voltado para idosos, organiza eventos sobre temas como a chegada da aposentadoria, a Terceira Idade, saúde etc

IBK BadenLink externo

Mentores de jovens

Ajuda jovens a superarem desafios de separação da família no país de origem, saudade, orienta quanto ao novo sistema escolar

Hallo AargauLink externo

Para todos que se mudarem para Aargau

 

Mukki DeutschLink externo

Cursos de alemão para mulheres com serviço de baby-sitter para crianças

 

ProveloLink externo

Para todos

Para quem não sabe andar de bicicleta

Femmes Tisch na SuíçaLink externo

Para mulheres migrantes (em língua portuguesa)

Reuniões em língua portuguesa para falar sobre questões ligadas alimentação, ginástica, educação dos filhos, sistema educacional e diversos outros temas

Mamães na SuíçaLink externo

Para mães e pais de língua portuguesa na Suíça

Grupo de acolhimento: promove eventos,

CEBRAC ZuriqueLink externo

Serviços de informação e apoio à comunidade de língua portuguesa na Suíça.

 

Migração em DebateLink externo

Projeto social de acolhimento a migrantes de língua portuguesa na Suíça

Palestras e workshops sobre o tema migração são oferecidos aos participantes

WeltCHORLink externo

Para todas as idades e nacionalidades

Coral em Baden – o grupo canta canções do mundo inteiro. Integração pela música

Coral Canta Brasil

Para brasileiros e portugueses

Coral em Baden - informações no CEBRAC

 

15 de junho de 2018Tempos de identidade globalizada

A psicóloga intercultural Simone Torres Costa analisa a nova dimensão cultural moderna: a dos cidadãos que vivem pelo mundo em comunidades internacionais.

Pessoas trabalhando em uma cozinha

Um migrante trabalhando em uma cozinha na Suíça: a vida no exterior exige capacidade de adaptação, mas não a perda da própria cultura.

(Keystone)

Valorizar a cultura de origem e ao mesmo tempo a do país de acolhida são medidas indispensáveis para melhor adaptação em uma sociedade estrangeira. Essa é a constatação do famoso estudo de John W. Berry, pesquisador canadense, realizado desde os anos 70. A psicóloga intercultural e autora do livro Deconstructing Brazil beyond Carnival Soccer and Girls in Small BikinisLink externo, Simone Torres Costa questiona, entretanto, a verdade que vem sendo absoluta há décadas.

Sua dissertação de mestrado pela Universidade de LundLink externo, na Suécia, demostra que para a população de migrantes voluntários ou cidadãos do mundo globalizado, a convivência com pessoas da terceira cultura, aqueles de nacionalidades diversas que não necessariamente pertencem nem às suas culturas de origem nem à local, seria mais uma dimensão no processo de adaptação.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Como foi a sua pesquisa?

Simone Torres Costa: Em vez de focar em apenas uma nacionalidade se adaptando em um único país estrangeiro, entrevistei 708 pessoas de 69 diferentes nacionalidades vivendo 43 países. E foi exatamente essa diversidade de entrevistados que gerou resultado tão diferente: pela primeira vez analisou-se o ponto de vista dos nômades globais com um número tão significativo de participantes. O trabalho não focou na identificação das respostas por país; essa análise deverá ser realizada posteriormente.

swissinfo.ch: E o que foi tão surpreendente em termos de resultado?

S.T.C.: A interpretação dos resultados foi muito complexa, já que acaba por quebrar um paradigma. Há três décadas que se trabalha com a estratégia Integração como a melhor premissa. O estudo não desmente a psicologia intercultural de Berry, mas abre verificação de uma terceira dimensão que não havia sido observada anteriormente.

Os cidadãos globalizados estão aí para mostrar que é possível viver de outras maneiras. Essas pessoas mergulham tanto na cultura local, ao mesmo tempo mantém os seus traços culturais e ainda passeiam na terceira dimensão que é a cultura global, que ficam mais fortes ou atenuados dependendo do grupo em que estejam em determinado momento.

Uma brasileira participante da pesquisa, que mora há 40 anos na Suécia, lembra que apesar dos anos existe uma parte de sua identidade que nunca muda, uma parte na qual o cheiro, o paladar, e as emoções de se estar no Brasil nunca se perdem. É algo profundo. Por um outro lado, desenvolvemos a sensação nítida do não pertencimento em todos os lugares em que estamos e de certa forma nos acostumamos com ela.

A minha pesquisa vem de encontro ao trabalho de papas da área de identidade e globalização, como Stuart Hall e Zygmunt Bauman. Em seu livro A Identidade Cultural na Pós-ModernidadeLink externo, o sociólogo Stuart Hall escreveu sobre as novas identidades que estão surgindo na época do sujeito pós-moderno: um ser fragmentado, composto de várias identidades, algumas contraditórias e não resolvidas.  Segundo Hall, o pós-moderno assume diferentes identidades em diversos momentos. Elas estão inextricavelmente articuladas ou entrelaçadas, uma nunca anulando a outra completamente.

swissinfo.ch: E como se explica esse processo de integração sob as lentes do famoso psicólogo John W. Berry?

S.T.C.: Para melhor explicar as estratégias de adaptação, é importante dizer que existem quatro maneiras de lidar com a questão: a Assimilação, marcada pela valorização praticamente exclusiva da cultura local. A pessoa não quer falar o idioma natal, só quer pertencer à cultura do país estrangeiro. É como alguém que viesse viver na Suíça e resolvesse esquecer a vida pregressa. Tem poucos amigos brasileiros, não interessa esse tipo de contato. Só fala alemão com os filhos, não quer que eles tenham relação com o Brasil, por exemplo.

Simone Torres Costa: "Os cidadãos globalizados estão aí para mostrar que é possível viver de outras maneiras".

(swissinfo.ch)

Existem emigrantes, no entanto, que negam a cultura do lugar onde vivem e só querem ter contato com os costumes do passado. A esse fenômeno dá-se o nome de Separação. São aqueles que só querem falar a língua portuguesa, não querem falar o idioma do país onde escolheram para morar. Outros, no entanto, acham que podem tomar emprestado um pouco das duas culturas. A isso dá-se o nome de Integração.

A quarta prática é denominada "marginalização" e acontece quando o imigrante não quer se integrar nem com a sua terra e tampouco com a sociedade onde habita. Esta está relacionada com vários problemas psicológicos como depressão. Não estranhamente essas pessoas se sentem perdidas.

swissinfo.ch: A senhora também mora fora do Brasil há muitos anos. Na busca de respostas sobre adaptação em eras globais, não houve nenhum questionamento pessoal sobre o seu próprio processo de adaptação?

S.T.C.: O meu objetivo, ao iniciar meu trabalho acadêmico, era investigar a melhor adaptação psicológica e sócio cultural. Saí a campo virtual com a pergunta "Você valoriza e mantém a cultura de origem?" e "Você valoriza e mantém a cultura do país de acolhida?". Mas o estudo teve um efeito questionador sobre mim também.

Passei a pensar em mim mesma, enquanto brasileira no exterior, onde vivo há mais de 18 anos. Eu refletia: será que eu valorizo a minha cultura? No caso do brasileiro em tempos de crise, essa pergunta é muito atual. Nos questionamos que valor a cultura brasileira tem, o quanto nós a julgamos. E nesse caso, será que eu a mantenho?

Acredito que essa questão esteja mais ligada aos comportamentos que nos aproximam à nossa cultura de origem, sobre como manter amigos da mesma nacionalidade, sobre ouvir música ou comidas típicas.

A conclusão foi a de que eu valorizava, mas não mantinha, já que me colocava um pouco a parte e não trazia para o dia a dia aspectos do Brasil. Por trás da teoria, coloco outra questão: por que teríamos que escolher entre uma e outra? O que adotar, tomar para si e deixar de fora? Esse é exatamente o dilema da adaptação: manter o respeito às duas culturas, nutrir a antiga, entrar na nova e, com o mundo cada vez mais globalizado, talvez ter que circular na terceira dimensão cultural, ainda mais desconhecida do imigrante.

Trocando em miúdos

A psicóloga intercultural Simone Torres Costa explica que a identidade é um pilar invisível que guia o nosso comportamento. É socialmente construída, fluida e não permanente. Em contrapartida, precisa ser alimentada todos os dias. Cada um dependendo da experiência internacional que teve pode construir a sua identidade saudável incorporando várias influências culturais sem precisar apagar ou desvalorizar o seu passado.

Trocando em miúdos, usar a camisa com o brasão do seu time de futebol identifica o torcedor e o diferencia de um de outro time. E aí mora a dúvida, alguns símbolos culturais não fazem mais sentido em outro ambiente. Qual a diferença que faz usar o escudo do Vasco da Gama ou da Chapecoense se você mora na Suíça? Então, a decisão vai depender do imigrante. O único problema é que as decisões não são tão lógicas ou simples sempre.

Segundo a tese de mestrado de Vanessa Paola Rojas Fernandez, feita pela Universidade de São Paulo em 2011, o processo de adaptação e negociação identitária que os imigrantes têm de fazer no novo contexto ao qual foram inseridos é uma das problemáticas fundamentais que emana dos trabalhos de história oral de vida e movimentos migratório.

De acordo com Vanessa, em seu trabalho sobre "Dilemas de Construção de Identidade: história de vida dos chilenos em Campinas", ao efetuarem a mudança de um país para outro, os emigrantes/imigrantes são portadores de valores de uma cultura original, e chegam com esses valores a uma cultura diferente.

Para uma adaptação ao contexto, alguns de seus valores culturais precisam ser revisados e até abandonados, ao mesmo tempo em que novos valores vão sendo adquiridos, completando aqueles e por vezes provocando conflitos, o que exige uma negociação desses valores. Esses valores culturais nacionais são os formadores de identidade nacional dos habitantes de uma nação. Dessa maneira, ao negociarem seus valores nacionais, estão, na verdade, negociando sua identidade nacional.

01 de junho de 2018Empresários brasileiros atingem maturidade e saem do lugar comum

O sonho de Luciana Monin era voltar a pintar, assim como faz sua mãe, professora de artes desde que a filha era pequena. Deixou a carreira na área de finanças e abriu um atelier de arte próximo a Vevey, onde promove exposições, eventos temáticos e cursos. 

Mulher com um bolo na mão

Amuni Ghazzaoui: "Eu cozinho com amor, adoro conversar com os clientes e apresentar a culinária brasileira e suíça".

(swissinfo.ch)

Amuni Ghazzaoui ama cozinhar e sempre teve tino comercial. Quando menina, vendia para a vizinhança os limões do seu limoeiro, para espanto da avó. Deixou o emprego no setor de Meio Ambiente e montou o Café MoemaLink externo, especializado em comida suíça e brasileira em Glattbrugg. Já Isa Felder sempre gostou de idiomas. Jornalista de formação, hoje dirige a escola de idiomas World Language em Zurique com dois sócios. Kelly Nielsen se sensibilizou com a cultura do capim dourado do Tocantins e queria ter mais tempo para o filho pequeno. Abriu a loja Almada Bijou, que vende bijuterias on-line, onde revende o produto artesanal principalmente para clientes suíças.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Os quatro perfis de empresários demonstram o grau avançado da comunidade empreendedora brasileira na Suíça. Nada de picanha ou coxinha, esses negociantes saíram do lugar comum dos produtos étnicos, que vendem exclusivamente para o mercado brasileiro da saudade, e atuam em níveis mais desenvolvidos como o de mercados altamente competitivos.

O professor Eduardo Picanço Cruz, que coordena o projeto de pesquisa de Empreendedorismo de Imigrantes e Refugiados na Universidade Federal Fluminense (UFFLink externo), explica que a aposta na categoria de oportunidades denominada Mercados Altamente Competitivos demonstra claramente a maturidade no quesito empreendedorismo. “Esses empresários focam em um mercado consumidor internacional, tentam se adaptar culturalmente a esse novo público, desafio muito mais complexo. Isso não quer dizer que quem aposte no mercado étnico esteja desatualizado. De maneira alguma, é somente um outro foco de clientela”, explica o professor, que também coordena o MBA Executivo em Gestão Empreendedora da Universidade Federal Fluminense.

De acordo com Picanço, esses empresários têm perfis parecidos, em geral apresentam nível educacional mais alto, dominam a língua local e a cultura do país onde habitam. “Para atuar nesse mercado, é preciso entender o modus operandi suíço. Geralmente já trabalharam como empregados, compreendem o funcionamento e as necessidades do mercado e aí abrem seu próprio negócio”, explica. Segundo o professor, mesmo lidando com público internacional, o jeito, a simpatia e a flexibilidade brasileira devem ser mantidos como diferencial – isso é o principal “ativo” do empreendedor imigrante. Especializado no assunto e escrevendo livro sobre empreendedorismo em contexto migratório, ele cita o exemplo de brasileiros donos do próprio negócio em Miami, que ganham clientes por aceitarem encomendas de última hora, característica tipicamente brasileira.

De acordo com Luciana Monin, ela usa a organização e acuidade aprendidas no mercado financeiro em seu atelier. “Dou aula em vários idiomas, tenho sempre orçamento atualizado e registro dos clientes, disciplina que aprendi trabalhando em bancos aqui na Suíça. O meu lado brasileiro eu uso no atendimento. Sempre ofereço chá com biscoitos, respeito o ritmo individual de cada aluno e dou uma atenção especial às crianças e a seus pais, que podem até pintar juntos com os filhos”, diz a professora e empresária.

Mulher ao lado de pintura

Luciana Monin: " Sempre ofereço chá com biscoitos, respeito o ritmo individual de cada aluno e dou uma atenção especial às crianças e a seus pais, que podem até pintar juntos com os filhos."

(swissinfo.ch)

Amuni Ghazzaoui confessa que lança mão do seu lado latino para atender ao público do Moema Café. “Eu cozinho com amor, adoro conversar com os clientes e apresentar a culinária brasileira e suíça”, explica.

Empreendedores buscam qualificação

Outros indicadores do desenvolvimento do empreendedorismo na Suíça são o número de empresários e a consequente movimentação desse nicho da comunidade no país. Eventos, cursos de qualificação e plataforma de negócios podem ser usados como exemplo dessa ebulição.

De acordo com dados fornecidos pelo Ministério das Relações ExterioresLink externo, dos 20 mil microempresários conterrâneos pelo mundo, 950 têm sede na Suíça. Apesar de não contar com uma população brasileira tão numerosa, ocupa o quarto lugar no ranking, atrás somente dos Estados Unidos (6 mil), Japão (1,5 mil) e França (1,3 mil). Cerca de 3,1 milhões de brasileiros vivem em outros países.

Seguindo orientação do MRE, o Consulado Brasileiro de ZuriquLink externoe tem realizado eventos desde o ano passado. O último aconteceu em março deste ano. De acordo com vice-cônsul Brasileiro em Zurique, Leandro Rocha de Araújo, outros eventos estão previstos para 2018.

Durante o encontro, que contou com a participação de cerca de 70 brasileiros, a advogada Fernanda Pontes Clavadetscher pode contar como foi I Conferência sobre Micro e Pequeno Empreendedorismo Brasileiro no Exterior, promovida pelos Ministério das Relações Exteriores em setembro do ano passado. A advogada foi convidada como integrante do Conselho de Cidadania da Jurisdição de Zurique para representar a Suíça.

O Consulado ofereceu também aos convidados palestras sobre Como Elaborar plano de Negócios (SEBRAE), Marketing Digital (Loovus Comunicação), Empreendedorismo (Interpreender) e Comércio On Line (Eurora).

De olho na tendência, a Interpreender criou cursos e workshops para quem já administra a própria empresa ou quem iniciar o seu negócio. Junto com a Loovus Comunicação, desenvolveu o workshop Empreendendo na Suíça. A Loovus criou a plataforma on line Longe de Casa para anunciar negócios e serviços da comunidade na Suíça.

Em busca de sonhos e de aventuras

Amuni Ghazzaoui é bióloga com especialização em Gestão e Tecnologia Ambiental e tem mestrado em Ecologia na Universidade de Zurique. Mas quem venceu foi a vontade de cozinhar e atender clientes. Montou no ano passado com o sócio suíço Andreas Portman o Moema Café, com a proposta de oferecer um mix de pratos suíços e brasileiros. Levam a ideia da mistura das culturas tão a sério que chegam a fazer pastel de Züri Geschnetzeltes (picadinho de carne à moda suíça) e pão de queijo com queijos suíços e biscoito goiabinha de lembrança de natal. Colegas de universidade, dão toque sustentável ao negócio: tentam comprar ingredientes locais e orgânicos e usar o mínimo possível de material descartável.

A união das duas culturas deu tão certo que os sócios irão abrir novo restaurante no dia 1 de agosto. A nova localidade será em Eglisau, onde Amuni promete mais novidades, já que terá uma cozinha bem maior que a do Café Moema. 

Desde 2016, Lu Monin realiza o sonho de trabalhar com arte e comanda o Atelier que leva seu nome. É no espaço anexo à sua casa que a ex-gestora de Patrimônio ensina crianças e adultos os truques e técnicas dos pincéis e das tintas. Criativa, abre o local para festas infantis diferentes e oferece cursos para os pequenos durante as férias e workshops para adultos do tipo “Wine & Painting Night”, que como o próprio nome explica, as pessoas podem tomar vinho e pintar à noite. Desafio maior: a disciplina de trabalhar próxima da família e conseguir separar trabalho e tarefas do lar.

Kelly Nielsen chegou à Suíça em 2002. Aprendeu o alemão, trabalhou como cuidadora de idosos até que engravidou do seu filho, há cinco anos. Não queria mais ficar tanto tempo longe de casa e decidiu aprender algo novo. Foi quando conheceu a proposta dos artesãos de Palmas, que fazem bijuterias finas com o capim dourado, e montou a Almada BijouLink externo. Seu foco é o público suíço e venda online. “Como empreendedora, aprendi que não existe achismo. Quero levar o nome do Brasil para a Europa e ajudar a população carente de Tocantins”, conta Kelly, que para entrar no mercado internacional, teve que retirar materiais proibidos como níquel, usados na confecção das bijuterias brasileiras. 

Isa Felder queria fazer diferença na sociedade suíça e ajudar na formação do ser humano. Dessa forma, abrir uma escola de línguas veio de encontro à vontade. Isa defende a ideia de que nada mais importante que falar a língua para facilitar a integração. Formada em jornalismo, tradutora e com capacitação suíça para dar aula para adulto, decidiu a escola junto com os sócios Nelson Adão e Claudia Lopes. A World Language SchoolLink externo aposta no diferencial: ensina alemão e outros idiomas com professores de língua portuguesa, o que ajuda no entendimento da gramática e na explicação do conteúdo. A escola de idiomas funciona próxima à estação principal de trem de Zurique e atualmente tem alunos dos cursos de inglês, alemão e até de ioga.

15 de maio de 2018Em busca de Marias das Dores

A artista plástica carioca Leca Araújo homenageia as 11 milhões de Marias brasileiras com exposição na Semana de Direitos Humanos da ONU.

Mulher apresentando à menina obra de arte

Na sua arte, Leca Araújo trabalha a questão dos direitos da mulher e a violência doméstica.

(MARCOS AC)

Se você se chama Maria das Dores e gostaria de emprestar o seu rosto para representar o Brasil, entre em contato com a artista plástica Leca Araújo até o dia 25 de maio. Ela está à procura de mulheres com esse nome para a exposição da série As Marias, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra. Leca tem interesse em fotos, vídeos e nas histórias das personagens, que serão exibidas em uma videoinstalação batizada de Meu nome é Maria das entre os dias 18 a 28 de junho, período em que será debatido o tema Direitos Humanos.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O projeto Maria das Dores integra a série As Marias, uma ideia artística maior que retrata e homenageia vários tipos de mulheres brasileiras. A videoinstalação "Meu nome é Maria das Dores" foca nessas inúmeras das Dores brasileiras. Idealizada por Leca e a convite da Embaixatriz Maria Nazareth Farani Azevêdo, Representante da Missão Permanente do Brasil junto a ONU em Genebra, a exposição pretende contar por meio de telas, gravações e imagens a força, as vidas, ideais, histórias, vitórias, perdas e sentimentos de todas as brasileiras ali representadas.

O convite de retratar o Brasil durante a Semana de Direitos Humanos aconteceu pelo enfoque social dado por Leca à série As Marias. Além de tentar trazer à tona as diversas brasileiras que sofreram violência, racismo e exclusão social, também retrata diversos perfis de mulheres admiráveis, como Fernanda Torres e a própria Maria da Penha, uma das mulheres mais importantes no cenário feminino nacional. A vítima de violência doméstica Maria da Penha inspirou na criação da Lei homônima de Proteção à Mulher. Na série, a homenageada é pintada com o cabelo repleto de tomadas, que representa a tentativa de assassinato por choque de descarga elétrica. A ONU reconhece a lei Maria da Penha como uma das melhores legislações do mundo para combater a violência contra a mulher

Todas as Marias de Leca são negras e a maioria traz um recado de diversidade. De acordo com a autora, o nome Maria é simples e comum, retratando facilmente a ideia de beleza genuína. "Por isso pintei todas negras, coloridas e cheias de vida, mas sempre com fundo escuro, para não haver muita diferenciação. Elas podem ser vítimas e heroínas ao mesmo tempo, assim como Maria da Penha. Eu procuro pintar Marias, Fernandas e Clarices como se todas tivessem o mesmo nome; e negras, brancas e amarelas como se tivessem a mesma cor. O objetivo é trazer a mulher brasileira para um contexto comum e ali falar da sua beleza, que está na alma, e não no tom de pele ou profissão. A ideia do fundo e rosto preto é para traçar um paralelo com o fato de sermos similares porem diferentes", explica.

Leca partiu de alguns estudos para criar suas Marias. De acordo com uma pesquisa feita pelo IBGE em 2010, existem 11,7 milhões de Marias no Brasil e 54% da população brasileira é negra. Outro dado que chamou a atenção da artista foi o fato de o novelista Felipe Miguez, que escreveu a novela sobre empregadas domésticas na TV Globo, informar que a maioria das domésticas brasileiras é negra e se chama Maria. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), dos 52 milhões de trabalhadores domésticos no mundo, 7 milhões são brasileiros, e deste 7 milhões, 93% são mulheres.

Leca descobriu que há mais de 11 milhões de homônimas brasileiras, com variações somente no segundo nome. Segundo os Correios, existem mais de 230 ruas e cidades com nome de Maria das Dores no Brasil. "Historicamente, é dado geralmente a uma mulher guerreira, capaz de sofrer por uma causa nobre. Também pode ser uma referência à Nossa Senhora das Dores. O interessante é que reflete o nosso rico imaginário popular, com uma simbologia que propõe a transformação de um ser em uma pessoa virtuosa", conta a artista.

Vídeo

Vídeo do trabalho de Leca

Especializada em Maria de uma forma geral, Leca viaja pelo mundo com a exposição itinerante As Marias. Na série, a artista apresenta de forma criativa as histórias de muitas dessas personagens que marcaram época ou que estão presentes no nosso cotidiano. A série conta com quadros premiados internacionalmente.

Entre as 27 obras, apenas 20 serão expostas. Algumas já foram vendidas ou doadas. Entre as que poderão ser vistas na ONU, o público terá acesso aos quadros Maria Fernanda, uma homenagem a atriz Fernanda Montenegro; ao Maria do Alagoas, que simboliza as lavadeiras de Alagoas; Maria Sara, inspirada em Sara Kubitschek; Maria Dandara, que foi esposa de Zumbi dos Palmares, entre outras.

Heroína e vítima: quem é Maria da Penha

A cearense Maria da Penha Maia Fernandes é a responsável pela promulgação da Lei N. 11.340, que protege as mulheres contra crimes de violência doméstica no Brasil. Trata-se da famosa Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006, e que garante proteção de vítimas de agressão física, psicológica, sexual e patrimonial.

Por contemplar esses e outros tipos de agressão e buscar atender a vítima de modo integral, a Lei é uma referência, segundo o relatório do Banco Mundial. Resultou em diminuição do número de femicídios. De acordo com o Mapa da Violência 2015, o índice de crescimento caiu a 2,5% ao ano no período após a adoção da lei, contra os 7,6% do período anterior a ela. A lei Maria da Penha é a base para os compromissos adquiridos pelo Brasil em resposta à Convenção para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (da Organização dos Estados Americanos – OEA) e à Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (da Organização das Nações Unidas – ONU).

Na prática, alterou o Código Penal brasileiro, fazendo com que os agressores sejam presos em flagrante ou que tenham a prisão preventiva decretada. Outra grande mudança foi a eliminação das penas alternativas para os ofensores, que antes eram punidos com pagamento de cesta básica ou pequenas multas. Com a nova legislação, pode ser condenado a três anos de reclusão.

O ponto de partida para sua criação foi baseado na história da farmacêutica Maria da Penha, que sofreu violência doméstica por aproximadamente 23 anos. O professor universitário e ex-marido tentou matá-la duas vezes. A primeira tentativa deixou-a paraplégica, após levar um tiro enquanto dormia.

A segunda tentativa de assassinato, quando foi vítima de eletrocussão e afogamento, foi o estopim para a coragem de denunciar o seu agressor e começar o processo que demoraria quase 20 anos para ser finalizado: o da criação da Lei Maria da Penha e a proteção de mulheres em situações de risco e vulnerabilidade.

01 de maio de 2018Quando exclusão do mercado de trabalho corrói a alma

Reflexão na semana do Dia do Trabalho: Aprender a desvincular a identidade profissional da pessoa é essencial para preservação da identidade profissional da pessoa.

Mulher trabalhando em um laboratório

Apesar da profissão e do trabalho contarem muito para o prestígio social na Suíça, é importante valorizar a si mesmo. 

(Keystone)

"Hoje eu não consigo falar. Quando tento, choro. Estou desmotivada com a dificuldade de conseguir trabalho, tenho pensado em trocar totalmente de área, mas o meu problema básico é a autoconfiança, que está balançada... Eu sei que coloco muita pressão em cima de mim. Eu preciso começar a trabalhar isso internamente, porque está me fazendo muito mal. Já não é fácil conseguir emprego, aprender o idioma, me adaptar, imagina quando vem junto com auto pressão?" O desabafo vem por e-mail de uma brasileira com nível superior e pós-graduação, que vive na Suíça há pouco mais de um ano. Mas poderia se tornar o relato de muitos dos estrangeiros que moram no país e que reclamam das exigências do mercado suíço.

Geralmente essas pessoas tentam encontrar uma vaga por, no mínimo, um ano. Algumas conseguem, outras não. O perfil do público é formado, na maioria das vezes, por mulheres com alta qualificação profissional e que migram devido ao matrimônio. Muitas nem necessitam do dinheiro que o trabalho proporcionaria. O salário do parceiro supre as necessidades. Dessa maneira, a entrada no mercado significa mais uma questão de orgulho pessoal, de inclusão. Como já foi trazido pelo blog em outros artigos, os motivos pela dificuldade do primeiro emprego no país são inúmeros: diferenças no currículo universitário, que gera inadequação às exigências dos empregadores, proficiência do idioma local, preconceito por parte dos contratantes, falta de creche para deixar os filhos etc.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A pirâmide das necessidades de Maslow (Abraham H. Maslow - psicólogo americano), que representa a hierarquia de necessidades das pessoas, pode ajudar a explicar a questão da autovalorização pelo trabalho. De acordo com a pirâmide, as necessidades começam a ser satisfeitas de baixo para cima, começando então com as fisiológicas (como alimento, água e abrigo), na base. A camada acima é representada pela segurança (corpo, emprego, recursos etc.), seguida pelo sentimento de pertencimento a um grupo (inserção, relacionamento) e após isso a necessidade de estima (realização, conquista, respeito, autoestima). Por último, já no topo, vem a necessidade de auto realização, que poderia ser traduzida por um objetivo maior, "missão", atingir tudo o que "quer ou que se pode". "Se olharmos essas necessidades com foco no trabalho vemos que o mesmo pode suprir grande parte ou mesmo todas delas. Isso talvez ajude a explicar nossa identificação com as atividades que realizamos profissionalmente", explica a aconselhadora psicológica Graziela Birrer, que por atender a uma grande população de migrantes na Suíça, tem experiência no assunto.

Reconhecimento profissional - A saga desses migrantes começa ao buscarem uma oportunidade por anos. Nesse período, diminuem a exigência e expectativa. Muitos já passaram por cargos de chefia em seus países de origem, mas se candidatam a funções bem mais baixas na hierarquia. E ainda assim acumulam incontáveis insucessos na tentativa de abrir portas. Outros optam por mudar de área, algumas se perdem e não sabem mais que direção tomar. Entre todos esses casos, o sentimento presente é o de falta de autoestima. A desesperança se une às inúmeras negativas e acaba por corroer a confiança.

A importância do trabalho – Como o trabalho integra a construção da identidade do adulto, desvincular-se dele fica mais complicado. De acordo com a coordenadora de Especialização da Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro (UFF), Renata Monteiro, ao longo da história da humanidade, parece ser a transformação em um sujeito-produtivo, em um indivíduo inserido na lógica de produção e contribuição na sociedade. Essa condição configura para o jovem e para a comunidade da qual faz parte o reconhecimento da identidade adulta.

Renata Monteiro explica que na entrada na vida adulta é esperado, tradicionalmente, que o jovem se transforme em sujeito-produtivo. Isso significa para ele encontrar um novo lugar no sistema social e ao mesmo tempo sofrer transformações em sua subjetividade no sentido de tornar-se adulto. O trabalho da professora, embora não seja focado no migrante, ajuda a explicar a dificuldade, já passou muitas dessas pessoas já passaram da juventude, mas precisam reviver essa reentrada no mundo profissional.

Autovalorização - Um dos segredos em lidar com essa fase está na capacidade de desvincular a sua identidade profissional da pessoal. A aconselhadora psicológica Graziela Birrer, que trabalha com inúmeros estrangeiros na Suíça, entende a dificuldade em fazer esse exercício de separação. Ela explica que o ser humano contemporâneo se identifica muito pelo que faz, pela profissão que exerce, mas que a construção da autoestima passa pela experiência de vida e profissional. "Só que nós somos mais que isso. Temos vários papéis na vida", explica.

No caso dos migrantes, a aconselhadora psicológica, que é brasileira, acredita que essas pessoas tenham ainda mais dificuldade em aceitar a nova realidade, já que a maioria desse grupo tinha uma posição profissional no seu país de origem e tem que reiniciar essa fase que já tinha ficado para trás. "Mudar de país é se reconstruir. Isso significa que não vai haver, em todos os casos, um encaixe de peças de quebra cabeça", explica.

O psicanalista e colunista do Jornal Folha de S. Paulo, Contardo Calligaris, explica em crônica publicado pelo periódico até onde vai a relação entre trabalho e identidade pessoal. Ele afirma que o emprego pode nos transformar em "sujeitos abstratos, resumidos por nossa função na produção e na circulação de mercadorias e serviços. A consequência é que o desemprego pode nos ameaçar com uma perda radical de identidade." O parágrafo foi retirado da crônica "Desemprego", selecionada para integrar o livro Quinta Coluna do mesmo autor.

Mulher

"Só que nós somos mais que isso. Temos vários papéis na vida", explica Graziela Birrer.

(swissinfo.ch)

Adversidades - O escritor relata que, de acordo com o organizador do livro de Bruce Dohrenwend, Adversity, Stress and Psychopathology (traduzido para português como Adversidade, Estresse e Psicopatologia), a perda do emprego está na lista dos piores fatores adversos, como as catástrofes naturais, a morte de uma pessoa amada, o estupro, a doença grave, a separação ou o divórcio.

De acordo com Calligaris, há algo mais, que talvez faça do desemprego a adversidade mais danosa para nossa saúde mental. "Preste atenção: no balcão de um boteco, como na mesa de um jantar, se seus vizinhos forem desconhecidos, a primeira pergunta não será quem é você? Mas o que você faz na vida? Se eles tiverem uma intenção alegre, talvez tentem primeiro descobrir seu estado civil. Fora isso, o interesse pela sua identidade se apresentará como interesse por seu papel produtivo."

Embora o exemplo seja usado para pessoas que perderam o emprego em seu próprio país, vale perfeitamente para estrangeiros que não conseguem se estabelecer profissionalmente no exterior. "Pega muito quando retornamos ao nosso país e os amigos nos perguntam: o que você faz agora? Sinto até um gosto amargo na boca", conta uma entrevistada portuguesa que não quis se identificar.

Bingo. Calligaris e Birrer vão ao âmago da questão. O organizador do livro Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturaisLink externo, Tomaz Tadeu Silva, entretanto, vai mais além. Ele complementa a complexa relação argumentando que "a identidade e a diferença se traduzem, assim, em declarações sobre quem pertence e sobre quem não pertence, sobre quem está incluído e quem está excluído. Afirmar a identidade significa demarcar fronteiras, fazer distinções entre o que fica dentro e o que fica fora." Dessa maneira, Tomaz Tadeu Silva consegue traduzir o sentimento de supressão, de cobrança e de deslocamento que o tema traz.

Mudar começa com a aceitação da realidade

"Emigrar significa auto reconstrução. Por isso, sempre digo que às vezes é preciso dar um passo atrás para preparar o terreno e depois reconstruir. Outro ponto importante. Não se compare com outros conterrâneos que estejam em uma posição melhor ou com o que você era no país de origem. Torna-se muito frustrante. Cada um tem sua história, seu próprio caminho.

Acredito que basear sua auto-avaliação somente na performance, no que se tem, no que é mensurável e esquecer o que já se fez, suas características e pontos fortes é extremamente duro com você mesmo. É importante se perguntar: por que o foco nos resultados, acima de tudo? Qual o pior cenário caso demore a encontrar o emprego dos sonhos? Como a pessoa se vê? E o mais importante: como ela acha que o outro a vê?

Eu aconselho um olhar com menos autocrítica, com mais amor e aceitação da realidade. Mudar começa com a aceitação do fato, para que haja clareza do que é possível modificar, inclusive sobre os seus limites e os da situação. Todos querem chegar lá, mas quando se trata de contextos migratórios, é preciso se abrir para outros caminhos. Nem sempre a vaga dos seus sonhos aparece tão rápido, ou nem aparece. Por isso bato na tecla da importância de mudar a rota, se necessário, estudar algo diferente e buscar, dentro do leque de opções que o país oferece, algo que poderia ser interessante.

Outra questão que percebo muito no meu consultório é a alta expectativa trazida por essas pessoas. A vinda para a Suíça é um choque de realidade e a decepção uma quebra na esperança. Dessa maneira, é preciso trabalhar o gerenciamento dessa emoção.

Outro ponto que considero importante nesse contexto é o fato de a Suíça ser um país de profissionais muito qualificados. Se no Brasil ou em Portugal é vantajoso falar inglês com proficiência, aqui a competição se dará com um mercado de inúmeros poliglotas. É uma realidade diferente e o mais inteligente a se fazer é se valorizar e ter jogo de cintura para driblar as adversidades. Eu proponho aos meus clientes um exercício: olhar para o passado, escrever todos os seus sucessos e pensar em como você já venceu tantos obstáculos na vida. A migração é só mais um.

*Depoimento da aconselhadora psicológica Graziela Birrer, que atende em Baden, em Zurique e em Lucerna.

16 de abril de 2018O jeito de paquerar também é cultural

Especialistas explicam os porquês das diferenças no ato de flertar e no jogo da sedução.

Bandeiras da Suíça com coração no meio

Também na área do amor existem muitas diferenças culturais entre os suíços e os brasileiros.

(swissinfo.ch)

Todo mundo flerta e se relaciona amorosamente; a distinção está na maneira. Para iniciar uma relação amorosa ou sexual, os primeiros passo são o olhar e a abordagem, fenômeno conhecido como paquera. Nesse quesito específico, as sociedades brasileiras e suíça se desencontram. Enquanto no Brasil, é feita abertamente; em Terras Helvéticas, na maior parte das vezes, não passa da fase platônica, frustrando outras nacionalidades acostumadas com o clima mais apimentado dos bares e discotecas dos sábados à noite.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Os hábitos e códigos seguidos em uma paquera são resultado de uma norma cultural. Flertar é uma atividade complexa, que tem relação com vários aspectos: o papel da mulher e do homem na hora da conquista, na maneira de lidar com sentimentos e conceitos intricados de privado e público, expectativa, respeito, sedução, espaço corporal, tomada de risco, falhas, honra, vulnerabilidade etc.  Se os brasileiros, brasileiras e solteiros de outras nacionalidades reclamam da dificuldade de iniciar um relacionamento na Suíça, isso se dá devido a expectativas erradas trazidas pelas diferenças culturais.

Assim como a comida, a vestimenta e os idiomas são diferentes, a forma de abordar uma pessoa também difere. Simples assim. Dessa forma, não dá para dizer que é melhor ou pior, só incomum. Só mais um desafio da vida global, um quebra-cabeças a ser decifrado, no qual a maioria dos códigos tão óbvios de outrora precisem ser decifrados quando no novo ambiente cultural.

Tímidos e reservados - Para começar a explicação, tomemos o exemplo de como os suíços se comportam quando o assunto é conhecer novas pessoas e fazer amigos. São conhecidos como povo mais reservado, tímido, em comparação com os latinos. Dessa maneira, não poderiam ser muito diferentes quando o assunto é flerte. De acordo com o levantamento com expatriados feito pelo grupo HSBC em 45 países do mundo em 2017, o Expat Explorer SurveyLink externo, a Suíça ocupa o quinto lugar no ranking em termos de qualidade em geral. Quando julgados alguns critérios referentes à Experiência, que integra a análise das esferas Integração e Possibilidade de se fazer amigos, a nota da Suíça cai para o 42° lugar.  Exatamente nesses quesitos as avaliações do Brasil sobem consideravelmente e atingem os primeiros lugares, o que mostra a discrepância e as evidentes diferenças entre as duas culturas.

De acordo com a psicóloga especializada em Comunicação Intercultural, Gabriela Broll Ribeiro, muitas dessas diferenças passam pelo jeito privado de lidar com afetos e desejos. "Se os suíços foram criados para serem mais discretos, respeitarem o espaço do outro, provavelmente será muito mais difícil para eles transporem essa barreira. Para eles, é como se fosse um desrespeito, uma invasão pessoal", explica, que é brasileira e estudo na Suíça.

Distância - Gabriela Broll acredita, com base em estudos das duas sociedades, que se no Brasil o toque físico e a demonstração aberta de interesse são valorizadas, na Suíça é evitada e há um maior distanciamento corporal. "Nesse ambiente de sedução existe um código, um ritual. E rituais são muito baseados na cultura. O brasileiro pode até incomodar na abordagem, mas ele geralmente não liga para isso. Ele cumpre o seu papel de homem latino, no qual está implícito tentar", explica.

Para Graziela Birrer, muitas mulheres sentem sua autoestima diminuir por acreditarem não chamar mais a atenção masculina, como acontecia no Brasil.

(swissinfo.ch)

Outro aspecto cultural importante nesse contexto é a vulnerabilidade e sobre como lidar com o risco. Segundo a psicóloga intercultural, abordar uma mulher ou um homem envolve incerteza, aposta em algo que pode dar errado, e até mesmo rejeição. Significa arriscar no jogo de cintura, na flexibilidade. A sociedade suíça, entretanto, também é conhecida por ser mais meticulosa e por valorizar a segurança; sem espaço para contratempos ou riscos. "Até mesmo no significado é diferente. Se para nós o flerte é uma brincadeira, para eles trata-se de coisa séria", explica.

Comportamentos esperados - A expectativa da paquera também tem um importante papel nesse contexto. Para a psicóloga boliviana Fabiola Dueri Sonderegger, especializada em famílias bi culturais na Suíça, as mulheres latinas, e não somente as brasileiras, esperam que os homens se aproximem. De acordo com Fabiola Dueri, nesse jogo, todos têm um papel definido: as mulheres mexem com os cabelos, seduzem com a roupa, o perfume e o olhar, mas têm um comportamento passivo, esperam que o homem se aproxime. "O problema é que esse papel não é executado da mesma maneira em todas as sociedades. É quando acontece o desencontro e a frustração das expectativas", explica.

A aconselhadora psicológica Graziela Birrer acrescenta que muitas mulheres sentem sua autoestima diminuir por acreditarem não chamar mais a atenção masculina, como acontecia no Brasil. "Elas interpretam o jeito discreto dos suíços como falta de interesse, sem entender que é uma forma diferente, de como eles tentam mostrar simpatia com respeito, sem invadir a privacidade", explica.

Telenovelas A falsa expectativa sobre o comportamento dos suíços no momento da paquera deve-se muito ao inconsciente coletivo reforçado pelas novelas, tão assistidas na América Latina. Nos folhetins, o galã sempre se aproxima com virilidade, com a postura corporal de um pavão, pronto para conquistar a fêmea que se insinua para ele. "No fundo, as mulheres esperam isso. E os homens latinos se frustram com a falta de reciprocidade das suíças, que não foram educadas para jogar cabelos para o lado, a se maquiarem e corresponderem a olhares libidinosos", explica Fabiola Dueri.

As mulheres latinas, por um outro lado, esperam o comportamento do mocinho, do galã da novela. Não encontram essa reação e ficam sem saber o que fazer. "É preciso saber interpretar as reações de cada um e quem sabe até sair da zona de conforto, como tomar a liberdade e abordar com elegância, caso haja reciprocidade no olhar", aconselha Fabiola.

Embora as diferenças sejam grandes, em um aspecto as três especialistas concordam: o segredo está em ler cada cultura nas entrelinhas. Mesmo com sinais sutis, é importante saber interpretar e contextualizar. Isso sem falar em mais coragem para tomar iniciativa, amor próprio para lidar com as rejeições e sabedoria para interpretar as diferenças.

02 de abril de 2018Não faça do seu filho um estrangeiro no país onde ele cresce

Das crianças bi culturais que chegam ao consultório da neuropsicóloga Fabiola Dueri Sonderegger, indicadas com problemas na fala, hiperatividade ou déficit de atenção, apenas 15% apresentam real indicação. 

Fabiola Dueri Sonderegger

Fabiola Dueri Sonderegger: "Ao contrário do que se esperava, esses meninos e meninas apresentam dificuldades na escola não pelas falhas relatadas, mas simplesmente por comportamentos programados de um dos pais..."

(swissinfo.ch)

O restante é, por incrível que pareça, resultado de um comportamento inadequado de um dos pais, que é estrangeiro, e que por amor quer manter suas tradições e costumes culturais, mas acaba por prejudicar o êxito escolar escola e social da criança. Com experiência própria, Fabiola é boliviana, casada com suíço e mãe de um jovem que também vive entre diferentes mundos. Doutora em Neurociência Cognitiva pela Universidade de Tóquio, no Japão, ela fala à swissinfo.ch sobre sua vivência em um consultório na Suíça, trabalhando especialmente com famílias binacionais. 

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A psicóloga comportamental explica que componentes específicos das sociedades latino americanas, como o orgulho de manter cultura própria na família, aliado a hábitos caseiros como barulho, falta de disciplina, maior tolerância a barulho, televisão ligada o dia todo e visitas diárias de amigos podem comprometer as notas desses alunos e levar a notas baixas. Consequentemente, abre-se uma brecha para a criação de estigmas e diagnósticos errôneos. Fabiola dá dicas sobre como modificar esses comportamentos e como diferenciar hábitos da identidade cultural.

swissinfo.ch: A Senhora defende a ideia de que muitas das crianças binacionais diagnosticadas com déficit de atenção, hiperatividade e problemas na fala chegam ao seu consultório, em geral, com falha no diagnóstico. Em parte, por incompreensão cultural dos professores e, por outro lado, estimulados por comportamentos equivocados por um dos pais. A Senhora poderia explicar melhor?

F.D.S.: Trabalho há dez anos com crianças de origem latina na Suíça. Muitos chegam ao meu consultório com indicação, geralmente por parte dos professores, de que têm problema na fala, como falta de vocabulário, de que são hiperativos ou apresentam déficit de atenção. A minha experiência me mostrou que, em apenas 15% dos casos, essas crianças apresentam o real problema que as trouxe até a mim.  Ao contrário do que se esperava, esses meninos e meninas apresentam dificuldades na escola não pelas falhas relatadas, mas simplesmente por comportamentos programados de um dos pais. Nesse caso, geralmente o do progenitor estrangeiro.

Sem drama e culpa, por favor; vou me explicar melhor. Eu sou estrangeira e, por amor, também adotei posturas equivocadas baseadas na minha cultura, o que prejudicou de certa forma o meu filho quando ele era menor.

Eu quero dizer com isso que pais latinos têm uma determinada linha comportamental, devido à cultura, que pode contradizer os valores e costumes esperados pela sociedade suíça. Dessa maneira, alguns dos diagnósticos indicados por professores suíços, baseados nessas expectativas, podem camuflar uma interpretação errada de como funciona a educação de uma mãe latina e de como uma casa administrada por essa mulher transcorre no dia a dia.

swissinfo.ch: Então a Senhora afirma que os pais estrangeiros deveriam prestar mais atenção nos seus atos em casa para que os filhos não sofram problemas de avaliação na escola?

F.D.S.: Sim. Vou lhe contar um caso que pude observar, mas que tem se mostrado muito comum na minha experiência profissional aqui na Suíça com famílias em que um dos pais vem da América Central ou do Sul.

Uma criança de cinco anos, filha de mãe latina, por exemplo, está acostumada a escutar seu nome de cinco a sete vezes até que obedeça a um comando. Já a de família 100% suíça responde geralmente na segunda vez. Por quê? Simplesmente porque essa mãe, em geral, não grita pela casa. Ela vai até o filho e comunica o que quer dizer. Nós latinas não; gritamos e muito.

No meu trabalho, tive a possibilidade de observar essas famílias e cruzar a minha própria experiência com o que se espera de um padrão de escola helvética. Durante esse processo de estudo, notei que a mãe mexicana gritava o nome do filho para ele vir comer, enquanto ainda cortava os legumes. Então, além do grito, que se dispersa na casa em meio a tantos outros estímulos, ela perde credibilidade já que o chama para a refeição quando a comida ainda não está pronta. Aqui entram dois fatores de erro comportamental, baseados na cultura estrangeira e desfocada da do país de acolhimento.

swissinfo.ch: E como esse fator interfere na vida da criança na escola?

F.D.S.: A professora pode achar que o menino tem déficit de atenção, porque não atende aos comandos, ou que apresenta até mesmo problema na fala, porque não entenderia. Analisando melhor o caso dessa criança específica e de outras com indicações semelhantes, pude constatar que a dificuldade não estava com o aluno, mas com a mãe, que carrega esses diferentes hábitos e condicionamentos. A professora, assim como as mães suíças, não espera até o sétimo chamado.

Outro componente cultural é a tolerância ao ruído. Uma família brasileira, por exemplo, fala mais alto e aguenta mais bagunça e barulho infantil. Por isso, o motivo de alguns terem conflitos com os vizinhos. No ambiente escolar, esses alunos podem até ser taxados de hiperativos, porque gritam mais, fazem mais barulho e não param quietos.

Não é novidade para ninguém que nós, que viemos da América Central e do Sul, somos mais agitados: dançamos, ouvimos música, falamos mais, recebemos amigos, fazemos várias coisas ao mesmo tempo. Pode acontecer de professores pertencentes a outros grupos culturais estranharem esse comportamento e associarem com uma hiperatividade, por exemplo.

Claro que essa questão é facilmente detectada no consultório com testes. Mas é importante ficar atento a isso para evitar problemas com os vizinhos, com pessoas em restaurantes e até mesmo com familiares, que não estão acostumados com tanta agitação. Sabe a velha máxima de que devemos nos comportar de acordo com o ambiente? E trazendo de volta ao ambiente escolar, é preciso trazer os valores da sociedade suíça para a sua casa também, para que o seu filho não fique prejudicado com notas baixas em comportamento ou em outras matérias, ou até mesmo estigmatizado. E obviamente, para que essa criança se sinta totalmente integrada a essa comunidade.

swissinfo.ch: A Senhora teria outros exemplos comportamentais que poderiam comprometer o sucesso escolar e social dessas crianças binacionais?

F.D.S.: Claro. Música alta pela casa e televisão ligada o dia inteiro. Tudo isso interfere no rendimento escolar, porque dissipa a atenção. TV ligada dispersa muito e ainda é um instrumento muito passivo, que pouco ajuda no aprendizado de uma outra língua por exemplo, se esse for o caso do motivo de deixa-la ligada. A não ser que você assista junto com a criança e discuta o tema junto com ela, aí seria de ajuda na tarefa de faze-la falar a segunda língua da família.

Mas de novo o perigo de crianças se assemelharem a características de déficit de atenção. Porém, eu vejo as mães latinas fazendo exatamente isso. Ligam a TV o dia todo para trazer um pouco de companhia, porque muitas se sentem sozinhas.

Em vez de contaminar a casa toda com seus hábitos, veja seus vídeos no computador. Se gosta de escutar música, leve um rádio pequeno para a cozinha, ou ouça no celular em volume baixo. Mas não imponha o seu modo de viver a toda a família, principalmente quando as crianças precisam se concentrar para fazer o dever, escutar os seus comandos, ou até mesmo manter a disciplina de que tudo tem horário e local adequados. Como psicóloga comportamental, defendo mudanças de atitudes.

Outro hábito muito comum da nossa sociedade é a forma como impomos autoridade. Quem nunca disse ao filho aos gritos: menino, atenção com o carro. Cuidado, você vai morrer!!! É muito perigoso!!! Não estou dizendo que não haja necessidade de alertar. Claro, perigos existem. Mas a forma como avisamos é diferente, baseada no medo, na dramaticidade. Somos muito autoritárias.

Viemos de países perigosos, onde a cada esquina se mata uma vítima desavisada. Mas ao lidarmos com a distribuição de regras dessa maneira, tiramos também o poder de autossuficiência e independência tão prezados nessa sociedade. E qual a mensagem que passamos ao nosso filho? A de que eles não são capazes; os outros podem, ele não.

Aos olhos da professora, por exemplo, fica uma criança incapaz de tomar rédeas do que seria esperado dela naquela idade. Não é verdade que a mãe latina quer fazer tudo para a sua cria? Ela em geral escolhe a roupa, dá comida na boca, quer levar no colégio – nem que seja escondido atrás das árvores. Muitas professoras reclamam que essas crianças nunca manusearam uma tesoura ou uma faca. Claro que por excesso de zelo dos pais. O resultado disso é a quebra da autonomia desse ser, que acaba se diferenciando dos demais.

Eu mesma, quando meu filho tinha uns cinco anos, fui surpreendida com uma conhecida suíça dizendo que meu menino não era maduro para a idade. Chocada na hora, hoje entendo o que ela queria dizer. Ela ofereceu banana e maçã e perguntou qual das frutas ele preferia. Ele me olhou, sem saber o que responder. Para ela, aquela atitude demonstrava falta de confiança na sua vontade, em saber escolher o que lhe parecia mais saboroso. É um exemplo corriqueiro, que mostra o quanto a nossa autoridade forte de mãe latina, que quer resolver tudo para a criança, pode atrapalhar na impressão que essa criança pode passar.

swissinfo.ch: A Senhora menciona que algumas crianças binacionais também podem receber o diagnóstico equivocado dos professores, que atribuem a uma momentânea falta de riqueza de vocabulário a problemas com a língua local. Poderia explica melhor?

F.D.S.: Claro. Crianças de uma determinada idade, seja de quatro, cinco ou seis anos, deveriam ter geralmente uma quantidade X de palavras em seu vocabulário. Só que os que falam mais de um idioma obviamente não irão atingir essa capacidade máxima, simplesmente porque esse X será mais ou menos dividido por dois. A professora, entretanto, que só fala um desses idiomas, só será capaz de avaliar uma ponta dessa pirâmide, e não a figura por completo. Dessa maneira, é preciso ter muito cuidado ao dizer que uma criança que fala mais de uma língua tem realmente problemas.

swissinfo.ch: Voltando à questão cultural: apostar toda a educação do seu filho baseada nos padrões suíços não significaria abandonar a própria cultura e criar um estranho em casa?

F.D.S.: Essa é uma ótima pergunta, que toca exatamente no ponto; justamente o mais difícil de me fazer entender por essas famílias. Não, adotar comportamentos adequados à sociedade suíça não significa abrir mão da sua própria cultura. Os pais latinos precisam aceitar que o estrangeiro nessa sociedade são eles. A criança não é e não deve ser criada como um estrangeiro, embora tenha contato com duas diferentes culturas.

Em primeiro lugar, esse menor não é metade suíço e metade outra coisa; mas 200%: uma criança 100% suíça e 100% outra nacionalidade, aderindo aos costumes e características de ambos os pais, que serão escolhidas por ela mesma, e não por um dos genitores. Entende a diferença? Esse filho ou filha é produto das duas culturas, mas precisa se adequar aos padrões de valores suíços para que tenha êxito na escola e na sociedade.

Quais seriam os valores suíços? Respeito ao professor e à autoridade, mas sem subserviência, autossuficiência, independência, foco na tarefa, valor ao silêncio e à individualidade, pontualidade, compromisso e assim por diante.

Quer colaborar para que seu filho tenha sucesso escolar e social? Adote mudanças comportamentais em casa, começando por você. Não se preocupe em deixar de ser boliviana, portuguesa ou brasileira e tampouco trair sua cultura só porque está desligando a TV em horários específicos, impondo horários para dormir, para fazer o dever, ou dando mais autonomia para que essa criança amadureça.

Não podemos ser impedimento para que nossos filhos sejam plenos. Não façam de suas crianças um estrangeiro em seu próprio país só para que vocês se sintam menos sozinhos nesse ambiente. Às vezes queremos que nossos filhos sejam como nós para nos fazerem companhia. Mas a melhor maneira de nos aproximarmos deles é entendermos o seu mundo, e não os isolarmos no nosso.

15 de março de 2018Lições das favelas do Rio de Janeiro na mala

Hilaine Yaccoub é doutora em Antropologia do Consumo, matéria que estuda comportamentos das pessoas em relação as escolhas de produtos e serviços. Para escrever sua tese de doutorado, morou durante quatro anos na favela carioca da Barreira do Vasco, onde investigou a dinâmica local e sua organização sócio econômica, cultural e política.

Mulher sentada com outras ao redor

"Favelados e migrantes têm muito em comum: integram o grupo de populações vulneráveis, das minorias", afirma Hilaine Yaccoub.

(swissinfo.ch)

Ao se inserir no mundo dos "de dentro" da comunidade, observou que os moradores encontraram um caminho particular para desenvolver formas de consumo compartilhado e colaborativo, a partir dos laços e vínculos sociais formados e estabelecidos em valores baseados em trocas de favores, nua espécie de assistência mútua. Trocando em miúdos, quem tem torradeira, não compra liquidificador, porque usa o do vizinho. A rede de favores funciona porque cada um doa o que pode, ajudando o grupo.

A antropóloga apresenta a favela além da precarização, mas dona de práticas que estão na vanguarda do pensamento social e contemporâneo. A favela apresenta expressões sociais que, apesar de informais ou ainda não legitimadas pelas instituições estatais, estão cada vez mais afinadas com a vanguarda do pensamento social e econômico contemporâneo. A economia de compartilhamento dos moradores brilha como prenúncio de uma futura economia baseada na sustentabilidade, na qual compra-se menos e troca-se mais. Dessa forma, populações ignoradas por governantes driblam falta de recursos com criatividade e união.

Ao trazer as reflexões sobre grupos vulneráveis para o ambiente migratório, Hilaine acredita que pessoas que morem fora do seu país de origem possivelmente devam ou senão deveriam agir da mesma maneira, levando na mala as lições de vida das favelas. "Diferenças sociais a parte, estrangeiros e favelados pertencem a categorias minoritárias, vulneráveis. Então, aconselho que se abram para conexões com os seus semelhantes", explica Hilaine, que presta consultoria para empresas multinacionais no Brasil, profere palestras no país e pelo mundo.

swissinfo.ch: Você passou quatro anos estudando a vida em favelas do Rio de Janeiro e descobriu uma série de sistemas interessantes que ajudam essas pessoas a sobreviverem em um ambiente de abandono do governo. Qual o paralelo que você faria dessa situação com a dos brasileiros e portugueses que vivem no exterior e mais precisamente na Suíça?

Hilaine Yaccoub: Vou começar a minha explicação contando um caso que aconteceu comigo na ponte aérea Rio-São Paulo. Estava dentro do avião, na fila da decolagem, já na pista de decolagem. No voo percebi um público diferenciado, com executivos de alto padrão socioeconômico que trajavam ternos assinados e mulheres bem vestidas usavam bolsas de grife. Eis que o voo, que era o último da noite, atrasa quase três horas devido ao mau tempo e todo o glamour se esvanece com o cansaço extremo. Do alto da minha fome e precaução, saco um pacote de biscoito recheado de chocolate e começo a oferecer aos que estão ao meu lado. Todas aquelas pessoas, que certamente fazem dieta o ano inteiro, comeram meu biscoito. Fizemos amizade e até ganhei carona depois de um desses passageiros, que tinha motorista particular.

Assim é o ser humano, quando colocado em situação de desconforto extremo, status, título e dinheiro não valem mais nada. O modus operandi naquele ambiente foi modificado pela necessidade mais forte de união para driblar uma eventualidade. Eu quero dizer com isso que, diante de circunstâncias extremas, somos colocados em situação de solidariedade mais uma vez contextualizada. Naquele momento, fazia sentido se juntarem a mim porque eu tinha o biscoito. Numa outra situação, eu poderia até ter sido olhada como uma estudante hippie, que não combinava naquele ambiente. Na época eu estudava antropologia e andava com colares de sementes da Amazônia nada glamoroso. Risos

Mas a necessidade transforma hierarquias. E assim acontece com quem vai viver em um país estrangeiro. Favelados e migrantes têm muito em comum: integram o grupo de populações vulneráveis, das minorias. Assim como os moradores de comunidades pobres, os migrantes, sejam de classe alta ou baixa, bem empregados ou não, geralmente não se sentem abraçados, inseridos. São estrangeiros. Assim como os favelados, os estrangeiros não são prioridade para receber a melhor parte do bolo. Por isso, nesses grupos, faz mais sentido focar no social; o dinheiro deixa de ser moeda nesses casos.

swissinfo.ch: Como assim? Você poderia exemplificar?

H.Y.: Imagine que para uma pessoa que more longe da família, assim como para uma que viva em uma favela, as relações sociais de favores e agradecimentos valha muito mais que a relação comercial. É a cultura da "mão que lava a outra". Nesse tipo de grupo, a economia surge inclusive pelas relações sociais, depois entra a moeda.

Em uma favela, por exemplo, o que é mais importante? A relação estabelecida entre vizinhos ou um liquidificador, por exemplo? A coisa, ou seja, o produto, é só um produto. Mas na hora em que você realmente precisar, quem vai te salvar é o vizinho, e não a coisa. Eu quero dizer com isso que esse tipo de relação revive a economia antiga, na forma de compartilhamento, na qual todos têm que contribuir. Então, se o seu vizinho não tem um liquidificador, você empresta o seu a ele quando necessário, porque as relações estão no topo dos interesses.

Se o vizinho te devolve o e eletrodoméstico queimado, você tenta resolver, se não chegarem a um acordo, podem até passar um tempo chateado, mas depois, na hora da precisão, na hora do socorro, é justamente essa relação que vai te garantir a solidariedade.

Pessoas que são ou se sentem excluídas, porque não fazem parte de uma sociedade de alguma maneira, devem compartilhar, se ajudar. Eu acredito que se vocês, que vivem em outro país, criarem força e se unirem, vão ganhar um poder enorme: o poder das relações sociais.

Duas mulheres na frente de uma geladeira

Hilaine Yaccoub com uma moradora da comunidade onde viveu quatro anos. 

(swissinfo.ch)

swissinfo.ch: Então essa seria a Lição da Favela que todos os estrangeiros deveriam seguir?

H.Y.: Sim, com certeza. Ser estrangeiro em outro país significa viver na vulnerabilidade. E quem está nessa situação precisa entender que o coletivo deve se sobrepor ao indivíduo. É preciso valorizar a conexão com os seus semelhantes. O grupo de pessoas de uma mesma nacionalidade pode até ter diferenças, mas divide as mesmas necessidades e desafios.

Quem emigra, sofre um desenraizamento, um verdadeiro descolamento da própria cultura. Passa pela aculturação, que é uma espécie de perda da própria cultura e se transforma em algo híbrido, não é nem uma coisa nem outra. Fica assim inserido num vácuo cultural. É uma situação difícil, porque o tempo todo tem que avaliar o que é certo e errado. Então, meu conselho é que aceitem que estão todos no mesmo barco e se unam.

swissinfo.ch: Você teria outros exemplos de como os moradores de comunidade fazem para se unir e o que poderia ser copiado?

H.Y.: Eu diria que os estrangeiros precisam ter leveza com os seus semelhantes. Também diria que é primordial entender o sentido da empatia e colocá-la em prática. Eu, que há pouco me mudei do Rio para São Paulo, presenteio o meu porteiro com uma garrafa de refrigerante de vez em quando. Ofereci ao grupo de porteiros do meu prédio a senha do meu Wi-Fi. Não é porque sou boazinha, mas porque acredito que eles não tenham tanto dinheiro para gastar com um pacote de dados melhor. Exercito a empatia para criar a minha rede de contatos também.

Então, quem mora fora do seu país, geralmente não tem família próxima. Por isso, precisa reforçar a sua rede e fortalecê-la constantemente, com pequenos atos, não é só em dia de festa ou dia de dor, é no cotidiano, é perceber e antecipar necessidades, se mostrar disponível, se abrir para as relações de reciprocidade. Eu sugiro que você doe roupas dos seus filhos que não caibam mais, se ofereça para cuidar das crianças dos outros quando possível, emprestar ferramentas, ou ajudar a virar uma laje como se diz na favela quando se faz o teto de uma casa. Estabeleça uma troca de favores. Se o seu filho faz o mesmo curso que uma criança que mora próximo, dê carona.

Se mora sozinha e sente falta de companhia, ofereça um pedaço de bolo ao vizinho, ou um jantar com comida da sua cidade ou país. O importante é distribuir afeto. As pessoas não estão mais acostumadas com gentilezas genuínas, mas esse pode ser o seu diferencial. Dar, receber, retribuir: esse é o lema da nova vida moderna.

01 de março de 2018Febre amarela precisa ser levada em conta por quem visita o Brasil

Como a doença não é um problema de saúde pública no Norte Europeu, pode ter a real necessidade de imunização mascarada.

Criança chorando durante vacinação

Um menino chora ao receber a vacina contra a febre amarela em Kisenso, distrito de Kinshasa, no Congo, em 21 de julho de 2016.

(Keystone)

Os assustadores números de vítimas feitos pela febre amarela nos últimos meses no Brasil têm efeito nulo sobre a Suíça. Como a doença não passa de um indivíduo para o outro, como a gripe, e as condições climáticas não são as melhores para a proliferação da doença, o assunto passa discretamente entre os órgãos oficiais. Embora a imprensa local não veicule notícias a respeito-as últimas datam do começo de 2017, quando a situação ainda não era nem de perto parecida com a atual - não pense que você está impune.

Se vai ao Brasil de férias, há risco. O último balançoLink externo do Ministério da Saúde sobre a situação da febre amarelaLink externo no país, datado de 17 de fevereiro, informa: as mortes chegaram a 154 e os casos confirmados somaram 464. Além desses, há ainda 487 notificações em investigação.

Embora a epidemia não seja também comentada abertamente pelos órgãos oficiais, o Departamento Federal de Saúde (BAG, na sigla em alemão) informou que está ciente do problemaLink externo, cumprindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Comitê de Peritos em Medicina de Viagem e da Embaixada Suíça no Brasil. A recomendação é a de que os viajantes ao Brasil sejam vacinados até dez dias antes do embarque. De acordo com o Departamento, ainda não foi notificado nenhum caso da doença no país.

Enquete feita por swissinfo.ch em janeiro indica que boa parte da comunidade na Suíça já tomou a vacina, coincidentemente devido a viagens a outros países endêmicos, onde é obrigatória. A enquete, realizada com 30 brasileiros que vivem na Suíça, descobriu que 19 já foram imunizados, nove ainda não tomaram vacina e dois nem sabem se já receberam um dia. Dos nove que não tinham se imunizado por ocasião da pesquisa, três tiveram que correr com a medida por terem deixado para a última hora. Com viagem marcada para o Brasil, levaram susto com os números ou foram expressamente aconselhados por médicos suíços ou familiares. "Meus pais me disseram: nem pense em vir para cá sem antes tomar a vacina!", conta uma das entrevistadas.

Um dos cariocas que não quis se identificar disse que o médico recomendou incisivamente que a família inteira (o casal e o filho de três anos) fosse vacinada pelo menos dez dias antes do embarque. Com viagem marcada para o dia 16 de março, o brasileiro procurou uma clínica especializada e espera o dia da consulta.

A enquete revelou também que ainda existem muitas dúvidas e até preconceito contra a vacinação.  Assim como quem mora no Brasil, os brasileiros que vivem na Suíça que ainda não tomaram têm dúvidas quanto a real necessidade. Alguns já tomaram, mas não sabem se precisam repetir a dose, outros nunca nem pensaram no assunto e um alega não gostar de vacinas; descobriu que são elaboradas a partir do vírus da doença.

Brasileiros que trabalham em empresas multinacionais relataram terem lido em boletins corporativos avisos sobre a necessidade de vacinação caso necessitem viajar ao país.

Questionado pela swissinfo.ch, o BAG informa que recomenda basicamente apenas uma dose da vacina, seguindo orientações da OMS. "Em casos especiais, no entanto, uma dose adicional pode ser indicada. Isso deve ser esclarecido individualmente com um especialista em viagens e medicina tropical. As condições de entrada específicas do país devem ser levadas em consideração. Portanto, é importante investigar em tempo útil antes de uma viagem planejada de acordo com um médico de viagem", informa o órgão, por meio de sua assessoria de comunicação.

Embora os noticiários tenham relatado confusão e fila para obter a vacina em várias cidades brasileiras, aqui na Suíça a oferta é ampla e tranquila. Basta marcar uma consulta no médico autorizado, pagar o valor de 47,40 CH mais 50 até 80 CH por cinco minutos de consulta, de acordo com o site Tropenarzt.ch, que pode ser reembolsado de acordo com o seguro saúde individual. (Veja lista de médicos autorizados)

O brasileiro e a febre amarela na Suíça

O fato de a doença não ser comentada no país não significa que o brasileiro deva ignorar a necessidade de se precaver. A dica para você é que não deixe o risco ser mascarado por uma aparente calmaria: se você tem viagem marcada para o Brasil, procure seu médico. 

As autoridades suíças e mundiais repetem a informação em sites especializados. A precaução contra a doença só pode ser feita por meio de vacinação. A revista Beobachter, em julho do ano passado, publicou artigo lembrando aos cidadãos suíços sobre alguns "perigos"Link externo que podem enfrentar ao viajarem para áreas mais quentes do sul. A matéria diz que eles empacotam malas mais de 20 milhões de vezes ao ano para descobrir o mundo e alerta para que não deixem que essas aventuras tenham lembranças ruins, como no caso de trazer uma doença tropical na mala.

De acordo com a pediatra e imunologista Erika Tinoco, no caso dos brasileiros que vivem fora do país, a situação apresenta uma nuance mais complexa: "quem mora no exterior e visita a família nas férias, mas ignora os avisos de vacina, em tese, terá que arcar com a responsabilidade de uma possível doença quando retornar à Suíça. Eu quero dizer com isso é que, como o país não é área de risco e não se fala sobre o problema, há o perigo de um diagnóstico mais tardio, podendo complicar a situação do paciente. Se existe uma vacina segura, com oferta abundante, por que não fazê-la?", questiona a médica.

A saúde das crianças - Para os pais que temem pela saúde do filho, a médica explica que se bem indicada, faz toda a diferença porque leva a uma proteção muito eficiente. O consenso entre os especialistas é de que o risco médio de complicações causadas pela vacina seja de três a cada 1 milhão de doses aplicadas, ou então 0,3 a cada 100 mil. Para as pessoas às quais a vacina é indicada, não existem chances relevantes de gerar problemas e ela pode ser considerada completamente segura. A febre amarela, entretanto, mata em até 50% dos casos.

Como é feita com base no vírus vivo, tem algumas restrições. Bebês, idosos, pessoas em uso de medicações como corticosteroides, em tratamento com quimioterapia ou imunodeficientes têm restrição em se vacinar. Além disso, como o vírus da vacina é cultivado em ovo, quem tem alergia a ele também precisa ficar atento.

Os bebês alérgicos ao ovo na sua maioria serão vacinados, mas antes precisam passar por avaliação de um alergista pediátrico. Se a reação for considerada leve, a vacina deve ser feita sob supervisão. Se a reação for grave, é preciso rever a necessidade da vacinação e realizar teste de contato antes da aplicação.

Para todas as crianças e, principalmente, para as quais a vacinação está contraindicada, continua valendo a proteção contra a picada do mosquito que transmite o vírus. Nessa idade, e na dose habitual, não será necessária nenhuma outra dose na vida, segundo a recomendação atual das autoridades sanitárias.

Antes dos nove meses, se a mãe for vacinada e amamentar, está tudo certo: o bebê está protegido pelos anticorpos maternos. Se não há essa situação de proteção indireta por meio da mãe, admite-se a vacinação mais precoce - aos seis meses. De acordo com a médica, essa antecipação é recomendada apenas em áreas de risco. "É que nessa idade, aos seis meses, a vacina perde eficiência, sendo menos capaz de conferir proteção. Pode também ser mais perigosa, gerando reações vacinais mais frequentes e graves", explica. Mesmo que viva na Suíça, para a febre amarela, vale a máxima da precaução.

15 de fevereiro de 2018O bem que o migrante pode fazer a si mesmo e ao próximo

Trabalho voluntário é uma ferramenta poderosa para quem quer conhecer pessoas, entrar no mercado de trabalho e ainda melhorar a sensação de bem-estar.

Grupo de mulheres tricotando

O trabalho voluntário de Ana Amelia Pace é ensinar crochê a refugiadas na cidade de Suhr.

(swissinfo.ch)

Imagina que você tenha saído do seu país de origem e desembarcado em outro lugar do mundo. Ainda não conhece muita gente, tem como objetivo aprender a língua e depois procurar um trabalho ou estudar algo relativo à sua profissão. Há os que se sintam sozinhos e sem rumo, com dúvidas sobre o que exatamente fazer. E eis que entra nesse roteiro grupos de pessoas e instituições que necessitam de gente para ajudar, os chamados trabalhos voluntários. Esse tipo de atividade não envolve pagamento, o que importa é a reunião de cidadãos com disposição e uma mútua vontade de contribuir para uma determinada causa. Portanto, ideal para quem está se aclimatando em uma nova comunidade, quem dispõe de tempo livre ou quer conhecer gente.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O perfil dos grupos é muito amplo: há desde projetos de apoio a grupos vulneráveis, como a famosa Cruz Vermelha, ou simplesmente pessoas que se organizam para ler para idosos em asilos. Há também as que montam seus próprios projetos. O fato é que o trabalho voluntário pode ser um ótimo caminho para o estrangeiro que busca integração, conhecer pessoas, melhorar a proficiência do idioma local e ao mesmo tempo dar uma turbinada no currículo no novo país de moradia.

São duas pontas que se interconectam por necessidades diferentes e complementares: o migrante precisa se integrar, aprender, ocupar a mente e às vezes preencher o tempo; o outro grupo necessita de ajuda, atenção.

A paulista de Jacareí, Imara Assef Andere aproveitou o tempo livre entre os cursos de alemão, inglês e pós-graduação em economia empresarial, para ajudar no Projeto Contact, programa de acolhimento de refugiados no vilarejo de Nussbaumen, na Suíça alemã.

"Após quatro anos me dedicando ao voluntariado, concluo que recebo infinitamente mais do que me propus a doar. Esse trabalho definitivamente me proporciona mais que uma visão humanitária da sociedade, mas uma ruptura de julgamentos e preconceitos. Com a atividade, conquistei amigos, me sinto parte da comunidade suíça e aumentei significantemente minha rede de contatos. O desenvolvimento do meu aprendizado da língua alemã teve uma melhora significativa e foi por meio dele que recebi referências para o mercado de trabalho suíço e para ser aceita no curso de pós-graduação", explica Imara Assef.

Criando seu próprio projeto

Já a paulistana Ana Amélia Coelho Pace decidiu criar seu próprio projeto. Como ama fazer crochê, atividade que aprendeu com sua avó quando ainda criança, decidiu oferecer cursos para migrantes da sua comunidade, em Suhr, no cantão de Argóvia. Ana Amélia enviou a ideia em forma de projeto ao Departamento de Imigração Cantonal e obteve sinal verde. Conseguiu um local para a realização dos cursos, uma pessoa para tomar conta dos filhos das participantes, e verba para compra do material. Surpreendentemente, Ana Amélia viu que, além de ensinar, ela contribuía para um grupo muito especial, o de mulheres refugiadas. “Elas mal falam o alemão, ficam em casa sem interagir muito com a sociedade. Muitas delas esperam ansiosamente pelas aulas de crochê, quando podem fazer algo de útil para elas”, explica Ana Amélia, que também é contadora de estórias em português do programa "Schenk mir eine Geschichte" (n.r.: me presenteie uma história), projeto do Instituto Suíço de Mídia para Crianças e Jovens, que apoia os pais imigrantes no desenvolvimento linguístico e literário de seus filhos.

É fato: trabalho voluntário agrega valor ao currículo

O simples fato de uma pessoa dedicar parte do seu tempo a uma causa que acredita já diz bastante sobre ela. Significa que consegue ver além dos seus próprios objetivos e realidade e que está disposto a trabalhar por algo, desde que acredite em seu propósito. Além disso, demonstra senso de responsabilidade e dever – porque geralmente é isso que leva as pessoas a darem o primeiro passo. Indica ainda que essa pessoa consegue organizar o seu tempo para que possa se dedicar ao voluntariado – e mais importante, consegue usar o tempo livre de forma produtiva.

De acordo com a aconselhadora de Transição de Carreira e de Mercado de Trabalho, Christine Groell, o trabalho voluntário ajuda a aumentar a rede de contatos e é muito bem visto pelas empresas na Suíça. Francesa, Christine atende a vários clientes na região de Basel, e fala com autoridade sobre o assunto: “se você é uma pessoa em transição de carreira, e isso pode ser facilmente aplicável aos migrantes, a atividade voluntária pode perfeitamente ajudar a expandir a rede de conhecidos e a se estabelecer em um país. Com esse tipo de trabalho, consegue-se usar as competências aprendidas e desenvolver novas. Para os empregadores, o candidato mostra que se interessa pelo outro, que é apto a se adaptar a novos desafios e que não ficou em casa acomodado”, explica a aconselhadora de carreiras.

Empresas suíças apoiam

Reportagem do jornal suíço NZZ confirma a imagem positiva do engajamento em trabalho voluntário no currículo e vai mais além: a matéria, escrita em de agosto de 2016, traz o estudo do professor de psicologia ocupacional e organizacional da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH), Theo Wehner, que mostra que uma em cada cinco empresas na Suíça - especialmente as maiores - permite que os funcionários façam trabalho voluntário. Promovido pelas empresas, tem uma longa tradição em países anglo saxões. Entretanto, também se tornou bem visto entre as grandes companhias suíças e integra a estratégia de responsabilidade corporativa.

Mulher tricotando

Ana Barros Pace: "Após quatro anos me dedicando ao voluntariado, concluo que recebo infinitamente mais do que me propus a doar."

(swissinfo.ch)

A reportagem conta exemplos de companhias do porte da Novartis, Swisscom e Allianz Suisse. Na Swisscom, cerca de 1400 dias de trabalho voluntário são feitos todos os anos na Suíça. Cerca de 8% da força de trabalho aproveita as ofertas.

Se ainda não se convenceu de que vale a pena se engajar, preste atenção na revelação do Volunteer Monitor de 2016 e na pesquisa publicada na Revista Psychological Science. O voluntário típico tem uma alta educação e está localizado no segmento de meia idade. É uma pessoa ativa, sociável e amigável. De acordo com estudo de Patrick Turiano, publicado na revista Psychological Science, em 2014, com 7 mil adultos norte-americanos entre 20 e 70 anos, demonstrou que ter um propósito na vida reduziu o risco de morte em 12% no período de 14 anos, independentemente da idade. Quanto mais jovem você decidir sua missão no mundo, mais tempo de vida você ganha. A regra é pensar nos outros.

Por que o engajamento social ajuda? 

Quando Ana Amélia “vendeu” seu projeto ao cantão da Argóvia, ela precisou de várias competências: organização, autonomia, capacidade de convencimento, criatividade, objetividade na apresentação, talento para montar um bom projeto e muitas outras. A Associação Internacional de Estudantes em Ciências Econômicas e Comerciais, sigla em francês da AIESEC, preparou em sua página no Brasil uma lista das habilidades que o trabalho voluntário pode ajudar a desenvolver e que fazem toda a diferença no mercado de trabalho: 

• Proativo -  O trabalho voluntário ensina a agir de forma proativa, ou seja, antecipar as necessidades e tomar a iniciativa por conta própria, sem que outros precisem pedir

• Gestão de tempo e recursos. As organizações que aceitam voluntários muitas vezes têm uma demanda maior de atividades do que os seus recursos humanos e financeiros comportam. A pessoa aprende, então, a trabalhar com o que tem nas mãos e fazer disso o melhor possível

• Liderança - Com o trabalho voluntário, aprende-se a tomar a frente de projetos e responsabilidades que vão exigir liderança – mesmo que das próprias ações

• Gestão de talentos – Aprende-se que em uma equipe, existem talentos e habilidades dos mais diversos. E você aprende que, para gerar resultados, é preciso saber aproveitar os pontos fortes de cada membro do time (e contornar os pontos fracos)

• Trabalho em equipe - aprende a importância do trabalho em grupo e o que motiva cada um a trabalhar.  Essas características são essenciais em uma empresa que busca crescer

• Riqueza cultural - Pode ajudar a lidar melhor com a diversidade cultural e de opiniões

• Networking – ajuda a criar uma ótima rede de contatos

• Maior felicidade, autoestima e satisfação - vários estudos mostram que o trabalho voluntário deixa as pessoas mais felizes e realizadas. O sentimento de ajudar o próximo, de trabalhar para o bem comum, aumentam os níveis dos hormônios da felicidade, como a endorfina. Estudos também mostram que uma pessoa mais feliz e saudável rende melhor no trabalho

Benevol: trabalho voluntário na SuíçaLink externo

Voluntário global: programa de voluntariado da AIESECLink externo

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1º de fevereiro de 2018O bilinguismo é uma herança de extremo valor

Como fazer para que crianças crescidas no exterior não percam a referência da língua portuguesa?

Crianças encenando uma peça de teatro

Peça de teatro do grupo da ABEC de Wettingen: crianças brasileiras nascidas na Suíça encenam "Pluft, o Fantasminha".

(swissinfo.ch)

A paulistana Miriam Müller Vizentini ensina português a brasileirinhos da Suíça há 21 anos. Seu trabalho é considerado uma missão: ela tem prazer em ajudar as crianças a expandirem seu vocabulário, e contribuir para que respeitem e admirem a cultura dos pais.

Psicóloga e coordenadora Pedagógica da Associação Brasileira de Educação e Cultura (ABECLink externo), Miriam faz muito mais do é esperado para que o português seja de fato uma herança, e não uma língua desconhecida. Ela adapta literatura em peça de teatro, cria os cenários com os pais nos fins de semana, trabalha mensagens de valorização da cultura e das diferenças.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Ajudou a organizar esse ano o III Simpósio Europeu do ensino de Português como Língua de Herança (SEPOLHLink externo). A ABEC foi premiada pela associação Brasil em Mente (BEM), de Nova York, no ano passado como Iniciativa do ano. “Quero que as crianças entendam o que os pais dizem quando demonstram o mais genuíno dos afetos e se possível, na língua do país de origem”.

swissinfo.ch: O que você aconselharia aos pais que desejam que os filhos falem português, mesmo que criados no exterior?

MM: Depende de muitas atitudes. Eu diria que o sucesso dependerá de uma política linguística familiar. Se a mãe, por exemplo, é brasileira ou portuguesa, e quer que o seu filho fale a sua língua, ela precisa ser consistente. Se essa é a decisão, que se cumpra. Eu quero dizer com isso que, após essa resolução, se faz necessário dizer tudo em português. E não se trata somente de linguagem de bebê, mas qualquer palavra, desde explicações mais complexas até a expressão da afetividade.

Eu segui isso ao pé da letra com meus dois filhos e agora repito com a minha neta, de três anos. Quando tinha um ano, prendeu o dedinho e sentiu dor. Na hora, ela pareceu querer comunicar que necessitava de ajuda e disse “dedo”. Ela percebeu que, falando, a mãe entenderia que ela estava em apuros. Minha filha foi além da palavra dedo: Ah, você prendeu seu dedo? Vou ajudar você, etc. É muito importante estender a conversa e não se ater só a palavras soltas. Apesar de o pai ser suíço e a mãe, minha filha, brasileira de segunda geração, ela tem um vocabulário muito rico para a idade.

A consistência funciona no sentido de a criança estabelecer uma relação com a pessoa naquela língua específica. Com os meus filhos, por exemplo, eu dizia: da porta de casa para dentro é Brasil. Nada de alemão. E assim a referência deles de família era o português.

swissinfo.ch: E para aqueles pais que ainda não estão convencidos da importância do bilinguismo, o que você diria?

MM: Crescer bilíngue é um presente. Nossas crianças vivem nesse mundo múltiplo e complexo, que é o de ter sua origem também em outro país. Se ela aprende a se comunicar bem nos dois idiomas é um ganho, primeiro porque têm mais oportunidades de estudo, viagens e trabalho. Atualmente, pesquisas da neurociência mostram que o falante de dois ou mais idiomas só tem a ganhar, por desenvolver competências de pensamento lógico que geralmente resultam em notas mais altas, entre outras coisas... ih, o tema é amplo.

Há muitos falantes de português aqui na Suíça, ponto muito favorável para os que ainda não se encorajaram a tomar esse caminho. No SEPOLH, eu escutei de estudiosos que o português é a segunda língua estrangeira mais falada nesse país, perdendo somente para o inglês. Fica mais fácil de manter, então. A criança ouve o idioma de um dos pais em outras situações na rua e fica estimulada a aprender. Trata-se de uma referência positiva, uma confirmação de que a língua é viva. Em outros países essa realidade não é a mesma. Temos que aproveitar essa vantagem.

swissinfo.ch: O que deve ser feito, na prática, para estimular o bilinguismo?

MM: Ser consequente, como já disse, e lançar mão de algumas ferramentas. Fazer uso da literatura brasileira ou portuguesa infantil, contar historinhas. Mas não pode ser um monólogo, os pais devem estimular a criança a se expressar, falar o que ela entende da história. Música é essencial nesse processo. Ritmo ajuda muito e leva à repetição. Então, cante junto com seus filhos. Lembre-se, o processo de comunicação é bilateral.

Como professora de português e coordenadora pedagógica, defendo incondicionalmente os cursos complementares oferecidos pela ABEC aqui na Suíça (de língua alemã). Mesmo que o idioma seja falado em casa pelos pais, a criança não consegue expandir tanto o vocabulário se não houver ajuda especializada. Na sala de aula, os professores trabalham a língua de forma contextualizada, com textos de apoio e informações integradas ao plano de aula. Nós desenvolvemos o nosso material didático, porque não podemos trazer livros das escolas do Brasil, onde as aulas de português são diárias e a exposição das crianças à língua em tempo integral e aplicar em crianças que vivem uma realidade totalmente diferentes.

Trata-se de um trabalho adaptado a cada grupo. Trabalhamos com pedagogia de projeto, que escolhe o tema e atividades combinadas previamente com os alunos.

A criança não vai aprender em casa a falar que o cachorrinho é um animal quadrúpede, mamífero, etc., por exemplo. Mas na escola, isso é possível. Dessa forma, os alunos aprendem não só a língua quanto a cultura do país de origem. Na ABEC, nós fazemos questão de trabalhar as lendas brasileiras, textos de Monteiro Lobato, Maria Clara Machado, e tantos outros autores importantes que os pais admiram e conhecem. Ainda acaba por aproximar os filhos dos pais, já que os escritores são geralmente referência da infância deles.

swissinfo.ch: Já ouvi alguns pais dizerem que seus filhos não falam português porque não querem ou não gostam. Qual seria a estratégia a ser utilizada com essas crianças?

MM: Antes de responder à pergunta, eu preciso dizer que, em primeiro lugar, eu preciso questionar o porquê de essa criança não gostar. Será que a cultura de um dos pais está sendo respeitada dentro dessa família? É importante que as culturas sejam tratadas sempre de uma fora igualitária, nunca se desfazer de nenhum grupo social. Trabalho muito esse tema com meus alunos. Além disso, é muito importante valorizar a cultura de um dos pais, para que a criança sempre se sinta bem e desenvolva uma identidade positiva com suas culturas.

É possível que uma criança crie uma aversão à língua por exemplos negativos que já tenha experimentado. Meus filhos quando eram pequenos, por exemplo, viram um grupo de pessoas falando português muito alto no zoológico. Ficaram com vergonha e me pediram para nunca falar com eles naquela língua quando estivessem fora de casa. Eu tive que desconstruir essa imagem, dizendo que existem pessoas que falam mais alto e mais baixo, sem criticar a cultura de ninguém.

Suíça dos idiomas Rapper ganha prêmio de bilinguismo

O rapper suíço Greis recebeu o prêmio deste ano de multilinguismo. Nascido na Suíça francófona, mas residente da Berna de língua alemã, Grégoire ...

De qualquer maneira, caso alguém passe por isso, eu aconselharia a procurar coisas interessantes ligadas à cultura do país de origem, que só existam em Portugal ou no Brasil. Valorizar o que é seu, pertencente às suas raízes é uma boa estratégia. Eu não aconselho aos pais dizerem: “você tem que gostar de português”. Procure, ao contrário, algo que os estimule a gostar.

Eu conheço o caso de uma criança, criada no Japão, que se recusava a falar português com a mãe. Esta criou um fantoche de uma capivara (que é um animal tipicamente brasileiro). O animal, claro, só falava português. A criança, que adorava o bicho, interagia sem problemas com o boneco.

Minha experiência de professora me mostra que teatro é uma excelente ferramenta. Os alunos querem aprender mais. Outra característica muito interessante é o envolvimento dos pais no processo teatral, já que eles ajudam a montar o cenário, dão opinião nos ensaios. A presença da família é primordial, já que os pais são os principais mantenedores do idioma.

swissinfo.ch: Você diria então que é um processo mais difícil?

MM: Eu diria que se os pais iniciam o procedimento desde bebê, torna-se mais fácil. Acho muito interessante usar todas as oportunidades para conversar com seu filho na sua língua, aproveitando para demonstrar afeto no seu idioma. Nós, pais, se fizermos a nossa parte, o idioma sobrevive. Mas como já disse, é uma decisão de cada família.

15 de janeiro de 2018O quebra-cabeça do mercado de trabalho suíço

A aconselhadora do RAV, Susanna Baldari, explica como driblar as dificuldades e entrar no disputado mundo profissional. 

Posto de atendimento do Serviço de Desemprego (RAV)

Desempregada sendo atendida em um posto de atendimento do Serviço de Desemprego (RAV) na Suíça.

(sda-ats)

"Não subestime o poder da rede de contatos. Muitas vagas são preenchidas na Suíça sem passarem pelo processo convencional de postagem". Essa é uma das principais dicas de Susanna Baldari, que trabalha como aconselhadora no Regional Arbeitsvermittlungszentren de Wohlen (RAV), o Centro Regional de Emprego suíço, que acompanha e orienta quem perdeu emprego no país. Há oito anos no órgão, ela lida com as três esferas do mercado de trabalho: candidatos, entre eles muitos estrangeiros; a iniciativa privada, que recorre ao órgão para encontrar postulantes, e o Governo cantonal.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Com experiência no exterior - Baldari viveu um tempo na África – a pedagoga tem a sensibilidade de entender as dificuldades dos estrangeiros. Com a visão das empresas e dos interesses governamentais cantonais, ela consegue montar o quebra-cabeças da busca de empregos, no qual nem todas as peças conseguem encaixe perfeito.

swissinfo.ch: A Senhora acredita que alguns grupos de pessoas, como os estrangeiros, por exemplo, enfrentem mais dificuldade para encontrar trabalho na Suíça?

SB: Alguns grupos, com certeza, podem ter mais problemas. Não somente porque são estrangeiros, mas também pela idade, gênero, tipo de profissão. Por exemplo, mulheres (suíças ou não) entre 25 e 40 anos poderão ter mais dificuldade. Os empregadores consideram que há um risco iminente de gravidez. O próprio fato de você ouvir numa entrevista "a Senhora pretende ter filhos?", o que acontece às vezes, pode ser uma demonstração de que existe a preocupação. Isso acontece pela mentalidade conservadora do mercado.

Mas a barreira se eleva para os estrangeiros quando eles têm baixa qualificação, quando não falam nem a língua do cantão onde vivem e nem o inglês. Não dominar o idioma do país é um problema, porque até mesmo quando essa pessoa já trabalhou, mas foi mandada embora e precisa interagir com o RAV, ela terá dificuldades. A maioria dos conselheiros do órgão irá se comunicar na língua do país, por uma questão de regra do órgão.

Não vou negar que o preconceito contra o estrangeiro existe. O importante, então, é focar naquelas empresas que sejam mais abertas à diversidade, naquelas que tenham negócios exterior e até mesmo no seu país de origem. Faça uma busca na internet.

swissinfo.ch: Quais são as áreas que mais recrutam, que mais necessitam de mão de obra?

SB: A Suíça necessita muito de profissionais nas áreas de Tecnologia da Informação e de engenharia. É um país voltado para a matemática, para a física, ou seja, as ciências exatas e também para as ciências naturais e área médica. É sabido que há mais vagas que profissionais nessas áreas.

swissinfo.ch: É sabido que os estrangeiros que só falam inglês têm desvantagem na busca de um trabalho, mesmo que foquem nas empresas internacionais. Como a Senhora vê isso?

SB: Sim, concordo. Muitas pessoas ao redor do mundo querem trabalhar na Suíça. O paradoxo é eu afirmar sobre a importância de os candidatos estrangeiros focarem nas empresas internacionais, que são mais abertas à diversidade cultural, mas que ao mesmo tempo irão receber currículos do mundo inteiro.

O país, no entanto, é formado de médias e pequenas empresas, que geralmente são menos internacionais. Portanto, exigem a proficiência do idioma local. Resumindo, quem foca nas companhias internacionais irá enfrentar a concorrência mundial e quem pretende trabalhar nas locais terá que aprender muito bem o idioma do cantão onde está localizada o empregador.

swissinfo.ch: Sabemos que o networking, ou seja, a rede de contatos, é primordial para quem busca emprego. Pois essa é justamente uma das maiores dificuldades de quem é estrangeiro, já que muitas vezes o recém-chegado, ou mesmo quem já viva no local há um tempo, dificilmente irá conhecer tanta gente quanto no país de origem. O que a Senhora aconselharia a essas pessoas?

SB: Não posso oferecer uma receita pronta, mas sempre digo que entrar para uma Verein ou um clube na Suíça abre muitas portas. Acho uma boa opção porque é um grupo que cultiva os mesmos gostos. Você pode optar por um de esportes, de corpo de bombeiros voluntário, de culinária, por exemplo. Até mesmo a integração à Associação dos Pais ou a um grupo do seu vilarejo são uma possibilidade. Existem também grupos de estudo do idioma local, muitas vezes oferecidos pelas Associações, a custos baixos. Ali também pode-se aumentar a rede de contatos.

Susanna Baldari

Susanna Baldari

(swissinfo.ch)

Outra dica que dou é a leitura dos jornais e revistas locais, além de assistir programas de TV suíça. Em primeiro lugar, trata-se de uma maneira barata de melhorar a fluência do idioma. Além disso, coloca o estrangeiro em contato com as questões locais. Quem sabe debater os temas específicos de uma comunidade tem assunto garantido, mostra interesse e ganha credibilidade.

Outra fonte interessante para se conectar com diferentes pessoas são os Business Clubs. Há também opções de grupos para profissionais de recursos humanos ou de expatriados.

swissinfo.ch: A sociedade suíça cultiva valores diferentes dos da brasileira e da portuguesa. Quais seriam as virtudes mais apreciadas pelas empresas helvéticas?

SB: Esse é um ponto crucial. Muitos estrangeiros não percebem que o mundo corporativo suíço preza pela pontualidade, precisão, honestidade e confiança.

swissinfo.ch: E como fazer para demonstrar esses valores em uma entrevista de emprego, por exemplo, quando os entrevistadores não têm muito tempo e se baseiam nas primeiras impressões?

SB: Em primeiro lugar, chegue sempre dez minutos antes do compromisso. Dessa maneira demonstra-se pontualidade. Confiabilidade se mostra cumprindo com as promessas. Se disse que irá enviar um e-mail com um material, faça no prazo estabelecido. Essa característica também pode ser demonstrada pelas cartas de referências, tão valorizadas nessa sociedade. Também tenha uma lista de pessoas com as quais você trabalhou e que podem ser contatadas em caso de uma entrevista.

Outro ponto que chama a atenção dos recrutadores é a sua vontade em aprender. Isso significa estar sempre se reciclando, fazendo cursos. Um diploma universitário de 20 anos sem reciclagem tem menos valor.

Como é uma sociedade que preza pela precisão, valoriza, portanto, a especialização profissional. As últimas décadas foram marcadas por uma tendência à especialização. Isso pode implicar numa dificuldade maior aos currículos mais generalistas.

swissinfo.ch: Quais são suas dicas para os estrangeiros que buscam por uma posição profissional nesse momento?

SB: A quem não fala a língua e tem uma entrevista de emprego na parte alemã, por exemplo, eu aconselharia a pelo menos saber as saudações no idioma local. Mas principalmente mostrar que quer e planeja aprender a língua. Demonstrar interesse pela cultura do outro é sempre de bom tom.

É importante manter o seu perfil do Linkedin (rede social voltada para a vida profissional) sempre atualizado. Nunca é demais dizer que empresas e headhunters recrutam cada vez mais pelas redes sociais. Hoje em dia é preciso ter palavras chave no seu currículo, que indiquem suas competências e que chamem a atenção dos recrutadores.

Se você tem um visto B, pode ser que encontre mais dificuldades para obter uma vaga de trabalho. O tipo C já elimina vários questionamentos.

E por último eu diria para não desistirem, sempre se abre uma vaga que pode ter o seu perfil. Mantenha a positividade, sempre há oportunidades. É difícil manter o otimismo, mas está aí o maior desafio. É esse sentimento que poderá definir o sucesso e influenciar no resultado da busca.

1º de janeiro de 20182018: tempo de apostar na sua vida na Suíça

Ano novo, sinônimo de renovação. Parece lugar comum mas pode se tornar um aliado ao autodesenvolvimento quando as promessas do dia primeiro são levadas à sério. Em vez de emagrecimento e academia, proponho a você, migrante de língua portuguesa, que invista na sua vida no país estrangeiro.

Amizades são importantes para viver no exterior: a autora no piquenique de brasileiras em Elfenau, Berna

Amizades são importantes para viver no exterior: a autora no piquenique de brasileiras em Elfenau, Berna

(swissinfo.ch)

Aconselho um basta ao sofrimento, à saudade fora de hora, às reclamações sobre a cultura do outro. Indico, ao contrário, uma ode à oportunidade e ao momento presente. Integração é isso, ficar bem aqui e do outro lado do mundo, foco no hoje e apreço ao passado, cada um em seu tempo e lugar.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Pílulas do imigrante - Para lutar contra a fuga da realidade, que inunda o repertório dos que tentam se adaptar, mas não sabem como, indico ação. Inércia e medo levam a doenças psicossomáticas, tema já tratado no blog pela médica natural Patricia Quito Oliveira no dia 1 de janeiro de 2016. Contra a saudade, tão comum no imigrante, receito novos amigos, bate papos alegres. Mas esses só vêm quando há abertura para o novo e desprendimento do passado. O assunto, também já tratado pela coluna, segue como um grande obstáculo a uma existência mais plena no exterior. A expansão da rede de contatos ajuda inclusive, conforme já foi dito, na obtenção de um emprego.

Conversa alegre também é remédio contra o rosário de reclamações e de comparações cheias de preconceito contra a cultura alheia. Então não vale procurar novas amizades para isso. Tente diferente, aceite as dessemelhanças e foque no positivo, nas situações divertidas, nos aprendizados. Seria muito chato se fôssemos todos iguais.

Melhorar o idioma - Sempre é tempo para desenferrujar a língua estrangeira, seja ela qual for. Coragem, paciência. É difícil, mas não impossível. A brasileira Sonia Jordi, há 35 anos na Suíça, que do alto de sua experiência como genitora e como treinadora de cursos de integração na cidade de Zurique para migrantes de língua portuguesa, reforça o aprendizado do idioma e o respeito às duas culturas como pontos fundamentais na felicidade do imigrante, na sua integração na nova sociedade e como importante ferramenta de educação das crianças, que crescem entre esses dois mundos.

Em entrevista para a coluna, Sonia diz que procura passar para as famílias a importância de se dominar a língua estrangeira. "Se os pais não falam o alemão, por exemplo, não irão conseguir conversar com os amigos dos filhos, não entenderão se as crianças utilizam vocabulário apropriado, se usam palavras de baixo calão, se seguem as regras de educação", diz. Só esse já seria motivo suficiente para a matrícula no curso de línguas. Mas a questão engloba muito mais: a falta da proficiência reduz a participação do emigrante na sociedade, aliena, exclui, enfraquece a auto estima.

O inverno rigoroso de janeiro ajuda pouco, pode trazer um pouco de desânimo. Quem nunca se sentiu meio deprimido em meio aos consecutivos dias gélidos e cinzas? Se não dá para tirar férias nessa época, o jeito é aproveitar, seja para ler um livro, encontrar amigos ou visitar museus. A velha máxima da vovó; tudo a seu tempo. Um desafio e tanto, principalmente para os brasileiros que nunca tiveram as quatro estações do ano.

Acredito que a melhoria do processo de adaptação esteja na leveza com que os temas vão sendo tratados. Abertura e flexibilidade trazem a graça da coisa, reduzem o fantasma chamado Suíça. Outro dia, em uma conversa informal, ouvi de uma amiga que relatava o segredo de um recém conhecido. “Quando no exterior, ele disse que pouco fala sobre si. Pergunta muito e ouve. Assim, demonstrando interesse pelo outro, ele disse que consegue fazer amizades com locais”. Essa serviu para mim, que após mestrado e tese, e outras dezenas de entrevistas, ainda tenho dificuldades de fazer amizades com suíços, apesar e ter alguns ótimos amigos locais. Preciso ultrapassar essa barreira, vou tentar agora em 2018.

Aos recém-chegados, diria para buscarem informação: leiam sobre a cultura estrangeira, sobre a história, façam cursos de integração. Existem psicólogos brasileiros e portugueses no país. Há coaches também. Ou procure ajuda no país de origem por Skype. Mas não se isole, procura ajuda se for necessário. Aos que já vivem no exterior há tempos, se não se informaram, sempre é tempo. Enfrente os desafios, fale com estranhos, julgue menos. Se não funcionar, tente outras alternativas, de novo e mais um pouco. Leia os blogs das brasileiras na Suíça. São inúmeros, todos com visão positiva do país e oportunidade para conhecer mais pessoas na mesma vibração. Aproveitem a paisagem, a qualidade de vida, a organização.

A receita é vasta, a busca incessante. A melhoria, entretanto, é processo contínuo, assim como a adaptação em terras estrangeiras. Todo dia um pouco melhor. Devagar e sempre. Então, para vocês leitores, eu desejo um lindo 2018, seja aqui na Suíça ou em qualquer lugar do nosso mundo sem fronteiras.

15 de dezembro de 2017Especialista explica que mães migrantes têm mais tendência ao estresse e à depressão

Experimente juntar mudanças hormonais com inseguranças, saudades, dor, cansaço, solidão, incompreensão, diferenças culturais, língua estrangeira... Esses são alguns dos ingredientes que compõe o coquetel bebido pela maioria das estrangeiras que se tornam mães ou que engravidam longe de seu país de origem.

Uma mulher grávida na varanda de um prédio moderno

Gravidez é um momento importante na vida de uma mulher, mas não é fácil quando a família está distante.

(swissinfo.ch)

Muitas vezes, dores que podem tirar o brilho da maternidade tão esperada. Para a assessora de Lactação e coach Claudia Rodrigues, portuguesa que vive na Suíça desde 2014, a solução passa por uma maior humanização dos serviços ligados a essa fase e, principalmente, pela recriação das tribos, onde no passado os integrantes se auto ajudavam. Formada em Ciências Sociais, com foco em psicologia, Claudia diz que: “As mulheres das sociedades ocidentais estão extremamente sozinhas, a ponto de perderem a sabedoria feminina que era passada de mãe para filha”.  Em entrevista à Swissinfo.ch, a profissional explica em detalhes o que pode ser feito para suavizar esse momento tão especial de toda mulher.  

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Como a Senhora vê os desafios da maternidade fora do país de origem?

C.R.: A maternidade é interpretada de forma diferente dependendo da cultura. É um fato no qual os médicos e profissionais têm que atentar. Mesmo entre Brasil e Portugal existem dissemelhanças. Aliado a isso, acrescente nesse caldeirão o contexto da imigração, que vem acompanhado de outras adversidades, sentimentos e situações culturais desiguais. A mãe ou grávida no exterior sofre de dupla vulnerabilidade: se sente excluída seja pelo idioma ou pela cultura, e ainda vive uma realidade ambígua, já que não reside no seu país de origem e não se identifica com alguns conselhos do local de acolhida.

A dificuldade com o idioma, por exemplo, aumenta o sentimento de distância. Entender e até explicar em outra língua os embaraços psicológicos pelos quais muitas mulheres vivenciam nessa fase vivem é muito complicado. Vamos supor que eu me sinta, por exemplo, triste e oprimida na gravidez, ou que o meu bebê já tenha nascido e eu esteja muito cansada, com privação do sono, e saudades do meu país. Como eu vou dizer isso ao médico? Eu posso não encontrar as palavras, por ser uma língua estrangeira; mas existe também a probabilidade de que eu não consiga sensibilizar o profissional, caso seja de uma outra realidade cultural.

Por isso é uma mistura de barreiras culturais temperada por explosão hormonal.

swissinfo.ch: Então a Senhora diria que é mais difícil ser mãe no exterior?

C.R.: Eu diria que o desafio é com certeza maior. Infelizmente muitas migrantes estão expostas a uma posição inferior na sociedade estrangeira. Essa vulnerabilidade acaba por colocá-la em submissão, muitas vezes obrigada a aceitar tudo que dizem a ela.

Como já mencionei anteriormente, a cultura tem um papel muito importante na maternidade, qualquer que seja o estrato social. Conselhos que vêm de realidades muito distintas podem aumentar o conflito que as migrantes já vivem com elas mesmas. Como as formas de cuidados com os bebês são diversas, baseadas no que vimos nossas mães e tias fazerem, cria-se essa dualidade. É importante que profissionais como médicos e até mesmo as parteiras tenham em mente que as raízes culturais são muito fortes e prevalecem no momento de ter e cuidar de um bebê. Por exemplo, Juliana Pereira, brasileira e terapeuta da Fala, que vive em Portugal, relatou que uma experiência negativa durante o parto a levou, após o nascimento de seu bebê, ao isolamento para não ter que ouvir coisas que não tinham nada a ver com a sua cultura. E reconhece que isso lhe fez mal e que, agora grávida novamente, sabe que não pode voltar fazer o mesmo.

Já foi comprovado que mães migrantes têm mais tendência ao estresse e à depressão. De acordo com estudos, 85% das mulheres experimentam algum tipo de distúrbio do humor. Na maioria dos casos: sintomas ligeiros e de curta-duração; 10 a 15% das mulheres desenvolvem sintomas mais significativos de depressão ou ansiedade. Portanto, é imprescindível paciência e compreensão. O fato de a mãe se encontrar emigrada é um fator de risco relevante para o desenvolvimento de patologia psiquiátrica associada à maternidade.

swissinfo.ch: Então a condição de migrante funcionaria como um catalizador da já complicada fase da gravidez ou da recém maternidade?

C.R.: Exatamente. É uma etapa trabalhosa e complexa, experimentada por mulheres que estão longe de seus familiares, em um ambiente cultural totalmente diverso, onde se é falado um idioma diferente. Parir é um período conturbado, é uma transformação na vida, uma explosão de hormônios. Depois do nascimento, todas as mães têm privação do sono por causa do cuidado ao bebê. Têm um ser totalmente dependente dos seus cuidados. Algumas mães têm problemas com a amamentação ou têm um neném que chora muito com ou sem razão aparente, como com as cólicas. É preciso prestar atenção, algumas desenvolvem depressão e até algumas psicoses.

Nesse contexto de migração, as mulheres geralmente relatam mais dificuldades. A falta de uma rede de contatos ou até mesmo a ausência da família tornam o período mais difícil. As estrangeiras geralmente perdem os conselhos das mulheres da família, das vizinhas. As recém-chegadas, dessa maneira, são as que mais estão em desvantagem. Não podem contar com a ajuda de uma outra mulher para levar uma comida, por exemplo. Os rituais, como o chá de bebê, por exemplo, se perdem quando se vive no exterior. A não ser que a grávida já tenha formada uma rede de conhecidas no país de acolhida.

Claudia Rodrigues

(swissinfo.ch)

Sabendo das inconveniências desse período da vida, eu aconselho às mulheres a transformarem o chá de bebê convencional, por exemplo, em um encontro de bênção por um bom parto. Os rituais são importantes, mas melhores ainda se bem utilizados. Um exemplo: em vez de fazerem visitas para conhecerem o bebê, seria muito mais interessante se as amigas visitassem para ajudar na limpeza, para levar uma comida para aquela mãe que está sem tempo até de comer, ou até mesmo olhassem o bebê para que ela pudesse tomar um banho. É importante a recriação dos círculos de ajuda mútua.

swissinfo.ch: E como a Senhora vê a situação da maternidade aqui na Suíça?

C.R.: Há um ranking da Economist Intelligence Unit, de 2013, que diz que a Suíça seria o melhor país para nascer. Infelizmente não posso dizer o mesmo para o quesito mãe. A começar pelas leis de licença maternidade e paternidade. A lei federal dá 14 semanas para a mãe e um a dois dias para o pai. Levando-se em consideração que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida completo, existe aí uma brecha. A legislação garante o direito de a mãe de dispor de 90 minutos diários ao longo do dia para extração do leite ou amamentar o bebé no local de trabalho. Entretanto, se a mulher trabalhar em uma loja pequena, seria inviabilizado.

É preciso que as empresas entendam que a amamentação é um investimento no futuro, já que criança que recebe leite materno fica menos doente. Além disso, a ausência paterna nas primeiras semanas atrapalha na integração da família e pode também influenciar negativamente a amamentação. Sozinha e sem apoio, ela pode sentir nervosismo e estresse, produzindo adrenalina que inibe o efeito da oxitocina, que é o hormônio que auxilia no processo. E pode ainda piorar o estado psicológico da mulher, com a frustração e tristeza de não ter conseguido amamentar.

swissinfo.ch: O que a Senhora aconselharia às mães e às grávidas de língua portuguesa aqui na Suíça?

C.R.: Que busquem apoio, se possível na língua que se sentirem melhor. Não se isolem, falem dos seus sentimentos, medos e angústias. Vocês não estão sozinhas. Eu mesma tive problemas para amamentar meu filho, hoje com dois anos. Também procurei ajuda, que inclusive me inspirou a me tornar Assessora de Lactação.

Recriem a aldeia que tivemos nos séculos passados. Caso não haja a possibilidade de frequentar pessoalmente de um grupo de mães, participe de um virtual. Existem várias associações que promovem esse tipo de encontro. Aqui na Suíça há muitas enfermeiras, psicólogos e profissionais de saúde que falam português.

Eu, por exemplo, vou à casa de minhas clientes e tento ajudar da melhor maneira, sempre respeitando a cultura e desejos de cada família. Eu permaneço até três horas com a mãe e o bebê para auxiliar na amamentação e desmistificar algumas questões referentes por exemplo ao sono, dar colo a mais e outros cuidados com o bebê. Acima de tudo ouvir a mãe e o pai, as suas preocupações, receios e desabafos e propor estratégias para que eles possam decidir se são boas para eles como família. E, se for preciso, até ajudo em pequenas tarefas domésticas que aliviem a pressão daquela família.

É muito importante que as outras mulheres olhem para as mães migrantes com compaixão e amor. Infelizmente a experiência do parto e da amamentação sofreram muito com a modernidade. As mulheres, que assistiam os partos nos primórdios, deram lugar aos hospitais. Não faço uma crítica à medicina e à tecnologia, mas um alerta à necessidade de voltarmos a trocar experiência e a cooperarmos umas com as outras. Como já dizia um provérbio africano muito bonito: para criar uma criança, é preciso uma aldeia inteira.

Experiência de Claudia Rodrigues com amamentaçãoLink externo

Ch.Amamenta.netLink externo

1° de dezembro de 2017Estrangeiras com alta qualificação penam no mercado de trabalho suíço

A publicitária carioca achou que conseguiria facilmente um emprego. A especialista em Relações Internacionais paulistana, fluente em inglês, também. A jornalista curitibana, responsável pela edição de reconhecidas revistas no Brasil, bebeu da mesma ilusão.

Prédio do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich)

O Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich) está entre as dez melhores universidades do mundo.

(Keystone)

As três não se conhecem mas têm um histórico em comum: vieram para o país depois de se casar, tentam há anos se recolocar no mercado de trabalho e se sentem desvalorizadas. Apesar de enviarem diversos currículos todos os meses, até agora não tiveram êxito.

Embora especialistas destaquem a importância dos trabalhadores migrantes para a economia suíça, a realidade se mostra um pouco diferente. Para as mulheres latino americanas, a situação é desfavorável, principalmente quando as analisadas apresentam alta qualificação profissional, com nível universitário ou mestrado e até doutorado. A dificuldade de reintegração ao mercado de trabalho torna o processo de imigração ainda mais dificultoso, tornando as mulheres mais vulneráveis.

A professora Yvonne Riaño, professora da Universidade Berna e de Neuchâtel, mapeou em alguns estudos, a problemática desse grupo social em relação à acessibilidade do mercado de trabalho no território suíço. A professora é uma ativa estudiosa do assunto, atuando como uma das líderes do Centro Suíço de Competência em Pesquisa em migração, denominado On the move - The Migration-Mobility Nexus. 

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Diplomas desvalorizados - De acordo com o trabalho, o capital cultural dos emigrantes é desvalorizado: os certificados do país de origem não são reconhecidos; experiências profissionais e certificados de fora da Europa são menos valorizados devido à falta de informação e ao preconceito cultural. "As diretivas do reconhecimento desses documentos não são claras e mal coordenadas, tornando o acesso ao mercado laboral ainda mais complicado", alerta o estudo.  Preconceitos sobre estereótipos de origem e gênero relacionados a competências técnicas podem possibilitar o acesso a empregos no mercado de engenharia e construção. Para piorar, existe pouca informação sobre treinamentos e mercado de trabalho acessível, tornando o processo de integração mais difícil.

- Tem dias que eu choro, me sinto um lixo. Depois me recomponho, busco forças nem sei onde, e volto a buscar trabalho de novo. Meu marido me apoia muito. A cobrança vem de mim mesma, porque sempre trabalhei e não consigo me imaginar como dona de casa por muito tempo – desabafa a especialista em Relações Internacionais, que tem sete anos de experiência no Brasil e um ano de residência no cantão de Argóvia.

Retorno às universidades – Entre algumas das descobertas dos estudos da Dra. Riaño, sabe-se que é difícil adquirir capital social e uma cultura suíça: refazer a universidade tem importantes consequências financeiras e inclui uma forte carga psíquica; os migrantes não conseguem conciliar família, estudos e profissionais devido à falta de estrutura da creche para as crianças e também pelo tempo das escolas e do trabalho. Representa um desafio particular para os migrantes que não possuem uma rede social.

Além disso, não existe um projeto de integração que corrija a desvalorização do capital social e cultural dos migrantes qualificados. Outro agravante é o de que recursos familiares são investidos normalmente na formação e carreira do marido.

Para mães é mais difícil - A nordestina Sueli Furtado* nunca conseguiu voltar aos bancos de estudo desde que chegou ao país, há oito anos. "Eu tenho muita vontade de iniciar um curso de extensão em enfermagem, já que finalizei o curso universitário nessa área no Brasil. Mas com minha filha pequena, não encontro tempo. Não dá para pagar creche e educação ao mesmo tempo. Fico muito frustrada com essa situação", desabafa Sueli.

Além de precisarem ficar em casa devido à família, aliado à dificuldade com o idioma, essas mulheres não têm acesso à tão valorizada rede de contatos.

Dialetos complicam - O idioma funciona como critério de exclusão: um conhecimento perfeito da língua alemã tem muito mais pontos do que as experiências profissionais e as competências sociais. Os dialetos tornam a vida dos migrantes ainda mais difícil.

Entrevistada pela swissinfo.ch, a brasileira Madalena Sampaio* passa por alguns dos problemas descritos pelo estudo desde que chegou ao país, há 15 anos. "Não adianta. Nós não temos as mesmas chances profissionais porque nunca seremos suíças. Mesmo que você tenha capacidade, dificilmente será considerada. As dificuldades começam pela validação do diploma, que é trabalhosa, mas no final das contas, não ajudará a conseguir uma vaga que tenha um suíço se candidatando"

Preconceito - De acordo com o trabalho da Dra. Riaño, os migrantes têm uma grande desvantagem no mercado devido à origem, religião e gênero. A origem, em combinação com o gênero, pode ter uma influência negativa. A percepção europeia de que estrangeiros fora da Europa são simplesmente menos competentes existe. Muitas são vistas somente como donas de casa, reduzindo o acesso às vagas de trabalho mais qualificados.

*Os nomes dos entrevistados foram modificados para preservar as identidades

A engenheira baiana é um exemplo de que dá para vencer os obstáculos

Fabiana da Silveira Cavalcante ocupa hoje o cargo de líder de vendas para a Suíça de uma multinacional da área de energia. Ela é um exemplo motivacional por alguns importantes motivos: é mulher em um setor dominantemente masculino, brasileira e de origem humilde. Oriunda do interior da Bahia, venceu as barreiras da falta de condições financeiras na juventude e se superou até na Europa. Fabiana vem driblando com muito estudo e simpatia baiana o árido dia a dia de comandar homens na Suíça.

Fabiana Cavalcante

(swissinfo.ch)

Ela fez doutorado em Eletrônica de Potência na ETH, universidade referência mundial na área técnica em Zurique. A especialidade, como o próprio nome diz, está relacionada com a eletricidade de alta potência, que é usada em equipamentos de grande porte como de uma hidroelétrica, sistemas ferroviários ou energia eólica.

swissinfo.ch: Como você conseguiu vaga para o doutorado na ETH em Zurique?

FSC: Sempre fui muito estudiosa e tive a sorte de ser aluna de um professor que era uma lenda na área de Eletrônica de Potência, o professor Ivo Barbi, da Universidade Federal de Santa Catarina, onde me graduei e fiz meu mestrado. Ele me adorava e fez uma carta de recomendação para a ETH. Tenho certeza de que ele abriu as portas da Suíça para mim. Claro que também tive a sorte de escolher uma área que é carente de profissionais.

swissinfo.ch: Como você dribla o fato de ser mulher e estrangeira em um mercado tão masculino?

F.S.C.: O título de doutora pela ETH me dá credibilidade. Quando eu chego a uma reunião, geralmente com muitos homens europeus, sei que é importante já entregar o meu cartão. A primeira reação deles é a surpresa de não ser um homem ali.

Eu preciso também ser muito competente, mais que eles. Como mulher e estrangeira, eu não posso estar na média quando o assunto é entrega de resultados. Tenho que produzir mais, porque corro o risco de ser substituída por um homem. Eu preciso provar constantemente que mereço estar ali. Uma vez, fui elogiada por um cliente, que disse ao meu chefe que eu aguentava pressão e sabia me comportar como um homem.

swissinfo.ch: E o fato de ser brasileira não dificulta?

F.S.C.: No meu caso, a questão do gênero joga mais contra. Pela minha profissão, eu passaria por esse tipo de dificuldade no Brasil também. Eu tenho que ser dura, exigente comigo e com meu time para mostrar produtividade. Mas um fator que me traz sucesso é o fato de eu não ter medo de tomar decisões.

Eu trago a minha brasilidade para o lado da vantagem. Nós temos de sobra uma habilidade que o suíço não dispõe: a competência social, um misto de saber ser firme com o cliente mas envolver ao mesmo tempo. Enquanto eles fazem curso de como lidar com pessoas, a gente já tem doutorado em gente. Mas obviamente tive que aprender a controlar o hábito de tocar nas pessoas, costumes que temos no Brasil, mas que podem nos comprometer aqui na Europa.

Outro fator que dificulta é a má fama que o brasileiro carrega de profissional medíocre. No caso da engenharia, que é a área que eu conheço, isso é totalmente infundado e fruto de puro preconceito. Temos excelentes universidades de engenharia no Brasil. Se não fosse assim, não estaríamos exportando aviões, por exemplo.

swissinfo.ch: E o que você diria para uma brasileira que quer vencer no exterior?

F.S.C.: Faça o melhor que você pode e o que você ama, seja qual for o seu trabalho. Se você quer ser cabeleireira, seja a top. Tem muita gente mais ou menos nesse mundo, mostre que você é boa naquilo que faz. E para quem mora na Suíça alemã, aprenda o alemão. É difícil mas vale a pena.

15 de novembro de 2017O atuante espiritismo de Allan Kardec na Suíça

Apesar de ter no Brasil sua maior comunidade, há cada vez mais adeptos do espiritismo na Suíça. Seus fiéis organizaram em setembro o primeiro congresso no país, no qual participaram mais de 500 pessoas. 

A sala estava repleta no primeiro congresso de espíritas da Suiça.

A sala estava repleta no primeiro congresso de espíritas da Suiça.

(swissinfo.ch)

Os dois pontos altos do evento foram a palestra do médium convidado Divaldo Franco, que veio da Bahia para o Congresso, e a apresentação de abertura, que teve a participação de grupo de corneta dos Alpes, reunindo as duas culturas em um dia de celebração da espiritualidade. O clima de emoção era tão forte que levou às lágrimas alguns dos participantes. 

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Nos últimos anos duas organizações dos espiritas foram abertas no país: a Federação Espírita Suíça (Fesuisse), criada há um ano e meio e, desde 1998, a União dos Centros de Estudos Espíritas na Suíça (Ucess). No total são 18 centros, duas editoras que publicam livros sobre a doutrina e cerca de 500 seguidores cativos, além dos inúmeros simpatizantes, impossibilitados de serem contabilizados por falta de frequência assídua. A conta, entretanto, pode dar a dimensão do público: se cada centro tem pelo menos uma sessão por semana, isso significa que acontecem no mínimo 72 palestras públicas mensais, onde são feitas as leituras de textos, isso sem contar as sessões de passe e as reuniões mediúnicas fechadas.

Congresso espírita

O evento, organizado pela Fesuisse, contou com a participação de 528 pessoas, 62 colaboradores e seis palestrantes: os brasileiros Divaldo Pereira Franco, Jorge Godinho Nery, Alberto Almeida, Sandra Borba e Raul Teixeira, e o francês Charles Kempf. Cerca de 80 fiéis vieram do Brasil exclusivamente para o acontecimento. O público era internacional e contou com a tradução simultânea em francês, alemão e inglês. As palestras foram transmitidas ao vivo pela Rádio da Federação Espírita Brasileira (FEB) e pela Rádio Fraternidade, alcançando um número de cerca de 16 mil pessoas pelo mundo. Durante o congresso, foram lançados três livros em alemão sobre o tema: dois do palestrante convidado, Divaldo Franco, e um do médium Chico Xavier - o maior líder da religião no Brasil.

Como surgiu a religião

O Espiritismo surgiu na França no século XIX por Hippolyte Léon Denisard Rivail, que viveu entre 1804 a 1869. Tudo começou por um encontro casual com um amigo, que lhe relatou uma série de eventos extraordinários, supostamente provocados pela ação direta de espíritos. Curioso, mas descrente, começou a frequentar reuniões e a estudar os fenômenos, quando ouviu de um médium que ele teria sido um celta chamado Allan Kardec. Como tal, deveria reunir os muitos ensinamentos e conclusões dos últimos séculos numa doutrina que propagasse os ideais de Cristo e trouxesse alívio para os corações dos homens. O Espiritismo é uma doutrina baseada em ensinamentos científicos, filosóficos e religiosos.

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O tema principal foi a Transição Planetária. De acordo com a presidente da Fesuisse e organizadora do evento, Gorete Newton, o tópico abordava as dificuldades que a humanidade vem enfrentando nos últimos tempos: o sofrimento coletivo do planeta e a necessidade de passar pela transição com mais amor e tolerância entre os povos. "Crises, diferenças entre pessoas, culturas e religiões são conflitos que integram o amadurecimento da humanidade. Todos os palestrantes abordaram, com focos diferenciados, a necessidade de mudança individual para um mundo de mais amor. Falamos sobretudo da necessidade de uma educação para a paz e perdão, que levam ao caminho do bem. O projeto de Jesus para a Terra é que ela se transforme em um mundo melhor. E isso acontecerá após essa grande transição", explicou Gorete.

Levados por elas: depoimento da repórter

Fui ao evento no sábado pela manhã, logo no primeiro dia. Assisti a palestra de abertura do convidado Divaldo Franco, aguardada ansiosamente por muitos. O clima era amistoso e o encontro muito bem organizado, todos os participantes usando crachás nominais, tradutores simultâneos separados por cabines; tudo bem profissional. Para quem pensa que nesse tipo de evento há passes e outras manifestações espirituais, eu já digo logo: não. Se não houvesse uma placa, poderia ser confundido com uma aula magna na universidade ou com um congresso médico profissional. O objetivo ali era o aprofundamento da crença e troca de informações por meio de palestras. 

O evento foi realizado no Centro de Conferências de Kloten, local bem localizado, próxima à auto estrada e com farta oferta de estacionamento. Na antessala do evento, várias mesas com diversos livros sobre assunto expostos para venda, em vários idiomas e para públicos infantil e adulto. 
Aproveitei o intervalo para me direcionar ao cômodo, com o intuito de entrevistar e olhar o material. Mais uma vez a mostra de organização, todos se levantaram calmamente, muitos compraram livros, se dirigiram ao primeiro andar para saborear café, bolos e salgadinhos brasileiros. Eu tinha curiosidade em saber quem eram esses estrangeiros, que se interessavam por uma religião tão difundida no Brasil e ainda pouco conhecido por pessoas de outra nacionalidade. Pois foi exatamente nessa observação que descobri algo que me chamou atenção.

O alemão Klaus Schneider, que se tornou espírita depois de uma doença

(swissinfo.ch)

Muitas brasileiras são as responsáveis por introduzirem o espiritismo na vida dos maridos estrangeiros. Seja por curiosidade, companheirismo ou pela necessidade do preenchimento do vazio existencial, o fato é que muitos esposos suíços e alemães, presentes no 1° Congresso Espírita da Suíça, conheceram a doutrina pelas mãos das mulheres. Quando não conseguem levar seus companheiros, fazem questão de comprar os livros de autores brasileiros traduzidos em outros idiomas.  De acordo com Gorete, foram vendidos cerca de mil livros durante o Congresso.

Alívio para dor, doença e solidão – Encontrei logo o alemão Klaus Schneider, que foi abordado por mim quando comprava dois livros que estavam sendo lançados na língua alemã no evento, os dois únicos que ainda não tinha lido. Ele veio de Mannheim, na Alemanha, com a esposa para o Congresso. Casado com uma brasileira há 18 anos, convive com o espiritismo há muito tempo, mas só começou a frequentar os centros e a ler há três anos, após sofrer de uma doença muito grave e se voltar mais para questões ligadas ao espírito.

As brasileiras Rita Schwarten e Marcia Digiacomo também compraram livros na língua germânica para os maridos. As duas, que moram em Berna, também fazem questão de levar uma mensagem mais espiritual aos companheiros, que não foram ao evento por terem ficado com as crianças. "Eles não puderam vir, mas compramos os livros para que eles possam ler depois", explicam. De acordo com Marcia, o marido não se assume como um espírita, mas já leu todos os livros psicografados por Chico Xavier. Rita vai mais além: faz leitura do evangelho em casa para toda a família.

O suíço Ernesto Schöni é outro exemplo de marido engajado. Trabalhava no caixa da lanchonete do Congresso, acompanhando a esposa, Zelia Schöni, que também fazia parte da comissão organizadora. Schöni, que tem contato com a doutrina há 25 anos, diz se interessar muito pelos ensinamentos de Kardec. De origem protestante Luterana, o suíço explica que o espiritismo chamou sua atenção por trazer explicações muito lógicas e racionais aos fatos, ao contrário da religião que herdou de sua família. 

Sejam brasileiros ou estrangeiros, o fato é que as casas espíritas fazem questão de afirmar: estão de portas abertas a todos. Eu, que fui ao evento como jornalista e nunca tive contato com a religião, senti um clima agradável, com pessoas abertas a conversa e sem imposições de pontos de vista. Muitas mulheres se reencontrando, umas saindo para almoçar juntas, outras aproveitando para saborear a culinária brasileira que era vendida no local. E eu, que também tinha forme, aproveitei para comer coxinha de galinha, beber guaraná e rever vários amigos presentes. 

as brasileiras Ruth Schwarten e Marcia Digiacomo comprando livros para os maridos estrangeiros.

as brasileiras Ruth Schwarten e Marcia Digiacomo comprando livros para os maridos estrangeiros. 

(swissinfo.ch)

História da Doutrina na Suíça

O Espiritismo não é novidade por aqui. O jurista e escritor suíço Jakob Georg Sulzer, que nasceu em Winterthur (1844-1929) foi autor de inúmeras obras sobre a filosofia e considerado um dos mais importantes vultos do espiritismo de sua época no país. Entre seus livros, estão o "Informações sobre o Espiritismo, O que é a Verdade?, Minha Visão de Mundo, O Estudo da Doutrina Darwinista sob a ótica do Espiritismo; etc.

De acordo com Gorete Newton, sua memória foi por muito tempo esquecida. O Centro de estudos espíritas Allan Kardec (CEEAK) encontrou, em 2008, em uma biblioteca suíça, uma grande quantidade de obras literárias de sua autoria. "Foi uma surpresa nos depararmos com um acervo de textos de cunho sócio-político, científico e religioso", conta.

Já no fim do século XIX existia na Suíça a Associação Espírita Psiche, que foi fundada em Zurique provavelmente no ano de 1897. Nos estatutos de sua fundação constam a cláusula de que "o objetivo da associação é o estudo de fenômenos espíritas. Já naquela época, contava com folheto informativo, revista mensal, promovia palestras, mantinha biblioteca, além de promover reuniões e conversas no restaurante da estação Schützengarten.

A religião não enfrenta problemas com a vizinhança na Suíça. Como as reuniões são silenciosas e discretas, mais voltadas ao estudo de livros, não incomoda. Mas como a sociedade suíça é mais resistente a religiões, o espiritismo também enfrenta preconceito. Um dos participantes suíços presentes no evento pediu para não ser identificado ao dar entrevista por temer ser malvisto por colegas. Ele diz que quando menciona que pratica os ensinamentos de Kardec é julgado e, portanto, prefere omitir sua opção religiosa.

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1º de novembro 2017A informação que abre portas

O blog A Suíça de Portas AbertasLink externo faz seu primeiro aniversário - dia 1º de novembro de 2016 tinha início um novo projeto no site em português da plataforma swissinfo.ch. A data configura o fechamento de um ciclo, símbolo que requer avaliação de percurso, ajuste na rota e um brinde comemorativo.

Duas crianças se abraçando em uma rua

Diferentes origens e o mesmo caminho: as crianças superam mais facilmente as barreiras da integração.

(swissinfo.ch)

Motivo para celebração é o que não falta: pelo alto índice de leitura e visualizações, pelo espaço que ganhamos na Rádio Lora de ZuriqueLink externo, que veicula as matérias todas as terças feiras no programa Pausa CaféLink externo, pelas carinhosas mensagens recebidas dos leitores, que agradecem pelo esclarecimento, pelos temas que sugerem e tantos outros. É muito bom saber que ajudamos outras pessoas a conquistarem uma maior qualidade de vida no exterior.

Temas humanizados - Nesses doze meses, foram publicadas 25 matérias, sempre voltadas a temas ligados à integração e migração de pessoas de língua portuguesa no país. A coluna falou sobre assuntos como dificuldade no aprendizado do alemão, de casamentos binacionais, sobre como lidar com a saudade, da importância do português como língua de herança, da valorização da própria cultura. O objetivo foi sempre o de esclarecer sobre questões que interferem na vida do migrante e possibilitar a autoconsciência e reflexão sobre as consequências da escolha de viver longe do país de origem.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Para o próximo ano, o blog trará análises ligadas à maternidade no estrangeiro, sobre o mercado de trabalho suíço e dicas sobre como ingressar nele, além de questões práticas ligadas à integração, escola, saúde, dando sempre espaço para entrevistados brasileiros e portugueses que queiram falar sobre as suas experiências na Suíça.

O escopo de assuntos é vasto, assim como a influência da migração em nossas vidas. Engloba fatores sociológicos, psicológicos, antropológicos, econômicos e linguísticos. Inúmeros tópicos que vão desde dificuldades no trato com o diferente a questões internas de identidade. Dilemas que acometem quem um dia foi ou está estrangeiro. Há sempre muito o que falar.

Falta de informação como barreira - Pois foi exatamente essa vasta palheta de temas e efeitos que levou à ideia de criar a coluna. Ao escrever minha tese de mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade de LuganoLink externo no ano passado, que pesquisou as barreiras interculturais enfrentadas por mulheres brasileiras na Suíça alemã, me deparei com a causadora dos mais altos paredões entre essas duas culturas: a falta de informação sobre questões migratórias, algo que separa em vez de integrar. As entrevistas mostraram que a carência de esclarecimento gerava frustrações com a diáspora, falsas expectativas, ruídos de comunicação, brigas, infelicidade e desajuste, nos seus mais variados graus e formas.

As três mais fortes barreiras identificadas no estudo - aprendizado do idioma, preconceito com o estrangeiro e comportamento fechado do suíço - poderiam ser atenuadas caso houvesse mais informação sobre o que significa deixar o país de origem e viver em uma sociedade tão diferente. Como a migração brasileira na Suíça é basicamente feminina, vê-se claramente que a desinformação ataca o grupo de mulheres, tornando-o ainda mais vulnerável aos efeitos de ser um cidadão estranho, que vem de fora – o estrangeiro.

Ir embora sem consciência - Repetindo o sonho do príncipe encantado, muitas dessas mulheres dão adeus à família sem muito refletir sobre o tamanho do passo que estão prestes a dar ou que deram. São basicamente emigradas do coração, que acreditaram no sonho bucólico do país de primeiro mundo como pano de fundo para um grande romance. Mesmo quem vem casada repete o típico comportamento dos colonizados pobres: se muda antes de se informar, acreditando que a vida sempre pode ser mais bonita num chalé nos Alpes. Perfeito, o ser humano gosta e quer sonhar. Mas ao se depararem com as tais barreiras culturais, se veem surpresas e sem referência a quem perguntar se o que sentem e vivem é realmente normal.

Não é culpa dos imigrantes, há pouco tempo se fala em psicologia intercultural, ajuda psicológica a quem deixou o país. A globalização tomou uma proporção que não há mais como ignorar as consequências de se ter 244 milhões de pessoas vivendo fora de seus países, segundo estatística de 2016 das Nações Unidas.

Emigrar é coisa séria - Para começo de conversa, alguém disse que quando vamos embora temos que nos reconstruir? E sobre vulnerabilidades, formas diferentes de comunicação, que vão muito além da língua? Alguém te contou? A mim não, e nem a nenhuma das minhas entrevistadas. A partir dessa brecha enorme, então, e baseada na minha experiência pessoal de estrangeira e de jornalista, surgiu a vontade de levar a mensagem aos quatro cantos.  A emigração não pode ser subestimada. Como toda mudança brusca, interfere nas questões mais profundas de cada indivíduo, ligadas até mesmo ao luto da perda. Se mal preparada, pode dar errado. Mas que se bem-feita, com informação devida e respeito às diferentes fases, é um presente - oportunidade única de ver a vida e o mundo sob um ângulo totalmente distinto.

Quem bebe dessa fonte inesgotável de riqueza geralmente se vicia; se torna cidadão do mundo. Mas até chegar nessa fase do jogo, passa por muitas privações, ajustes, até a restruturação do próprio eu. A tão clamada adaptação não chega sem balançar estruturas. Morar fora tem seu preço, mas também seus lucros. A escolha sobre como vai se encarar é sua. Informar-se, entretanto, é imprescindível.

Abrindo as portas da Suíça - Me despeço aqui agradecendo a delicadeza e atenção dos leitores, que me escrevem nas redes sociais, elogiam e curtem os textos. Estou aberta a sugestões e cheia de disposição para esse segundo ciclo que se inicia. Desejo a todos uma caminhada de muitas barreiras depostas, de muitas pontes que conectam e uma Suíça de portas abertas. 

15 de outubro de 2017Os imigrantes ignorados pelo mercado de trabalho suíço

Ao lado dos bem sucedidos expatriados, estão as esposas ou maridos que entram no país como acompanhantes e encontram dificuldades em achar emprego.

homem lendo o jornal
(swissinfo.ch)

Apesar da Suíça apresentar índices baixíssimos de desemprego, em torno dos 3,3% em 2016 (dados da Secretaria Suíça de Economia, Staatssekretariat für Wirtschaft – SECO), os estrangeiros que vêm ao país sem colocação profissional são os que mais encontram dificuldades para entrar ou se reintegrar ao mercado de trabalho. De acordo com artigo do jornal Tages AnzeigerLink externo, de 2014, a probabilidade de permanecer desempregado para um não suíço é relativamente maior, até três vezes superior. As razões são diversas e passam por características como culturais, educacionais e dificuldade com um dos idiomas falados no país.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Os dados são intrigantes. A Suíça é um dos países mais estáveis economicamente do mundo, mas esconde algumas idiossincrasias. O jornal do grupo varejista Coop trouxe, na edição de 21 de março deste ano, reportagem mostrando que 60% dos suíços não enviaram qualquer currículo nos últimos cinco anos. Isso significa que esse grupo já estava empregado e não necessitava procurar uma vaga de trabalho. Cerca de 14% enviaram até dois currículos e 13% entre três a dez. A pesquisa não fala quantas pessoas foram entrevistadas. Mesmo com índices dos sonhos, os suíços carregam o peso do medo de perder o posto de trabalho. De acordo com o Barômetro do Humor, realizado pelo Instituto de Pesquisa gfs Bern, de Berna, 46% responderam que temem ficar desempregados.

Os números se chocam com a realidade dos migrantes que nunca conseguiram entrar no mercado e, dessa forma, parecem não ser contabilizados. Estudos realizados em conjunto por Rosita Fibbi, Mathias Lerch e Philippe Wanner, das Universidades de Lausanne, do Forum Suíço para Migração e Estudos da População e da Universidade de Genebra, informa que os estrangeiros também correm maior risco de desemprego na Suíça. "As taxas são muito menores para os cidadãos suíços em geral. Parece ser mais difícil para os estrangeiros encontrar um emprego", diz Becker.
 
Entre os resultados do trabalho, está o fato de que jovens com antecedentes de migração são menos bem sucedidos quando se trata de candidatar-se a empregos. Um dos estudos, feito em 2006, envolveu o envio de currículos fictícios de pessoas igualmente qualificadas de diferentes origens étnicas em resposta a anúncios de emprego. Enquanto os portugueses na Suíça francófona sofreu um baixo nível de discriminação, os iugoslavos de língua albanesa foram discriminados em 59 por cento dos casos na parte alemã da Suíça.

Ignorados pelas estatísticas, já que nunca trabalharam e dessa forma não constam na lista dos desempregados, muitos estrangeiros de diferentes partes do mundo enviam até 300 cartas de motivação e currículos por ano e nem assim tem sucesso na busca. Esse público é formado por cidadãos do mundo inteiro, inclusive Europa, e tem como característica principal o fato de serem acompanhantes de expatriados, além dos imigrantes que chegam à Suíça por meio de uma união estável ou matrimônio. Como 49% dos casamentos no país suíços são bi nacionais, a consequência é um grande número de imigrantes na busca de uma colocação profissional. A situação torna-se delicada especialmente para mulheres com alta qualificação.

A inglesa Myriam Lewis*, que é professora de inglês, formada em Germanística e com experiência internacional, já tentou mais de 70 vagas de trabalho somente esse ano. Casada com um suíço, Myriam já trabalhou inclusive no Brasil, mas não consegue ensinar inglês na Suíça, chegando a perder nas candidaturas até mesmo para competidores que não têm o idioma como língua materna. A médica Neurologista inglesa Ann Carter* tampouco consegue trabalhar em sua profissão. Embora o país necessite de médicos especialistas, os entrevistadores alegam que seu domínio da língua alemã não é suficiente e que ela teria que fazer um curso de mais dois anos para validar um diploma que foi tirado com mérito na Grã-Bretanha.

Casos como os das duas inglesas acontecem muito frequentemente na comunidade de língua portuguesa. São advogadas, vendedoras, dentistas, uma infinidade de profissionais que não conseguem se reposicionar desde que chegam ao país.

Segundo as duas aconselhadoras de Transição de Carreira e de Mercado de Trabalho Angela Weinberger e Christine Groell, com experiência em recolocação profissional de expatriados na Suíça, existem algumas razões para que estrangeiros sofram maiores dificuldades para conquistar o emprego dos sonhos:

Alta expectativa – Muitos acreditam que vão encontrar facilmente uma vaga devido ao baixo índice de desemprego do país. Só que acabam por esbarrar na barreira do idioma.

Domínio da língua – Como a Suíça tem um considerável mercado internacional, esse grupo acha que pode facilmente trabalhar em inglês. A crença não é infundada, mas como as vagas para língua inglesa são limitadas, a concorrência aumenta. De acordo com Christine Groell, o país é formado por empresas pequenas e de médio porte, onde o pré-requisito é o idioma local. As grandes multinacionais, onde o inglês é a língua corporativa, são apenas uma pequena parte das companhias que empregam no país. Além disso, não só os estrangeiros da Suíça buscam uma colocação nessas empresas, mas pessoas do mundo inteiro que se encantam com a prosperidade do país.

Experts – O mercado espera profissionais que sejam profundos conhecedores em suas áreas. As escolas Norte e Sul Americanas têm uma formação mais generalista. As de linha germânica - as suíças estão nessa categoria – são mais dirigidas à especialização profissional. Ao contrário das sociedades brasileira e americana, não são voltadas para a universidade, mas para os cursos profissionalizantes e específicos de cada profissão. De acordo com o engenheiro alemão Rudolf Schwarz*, especializado em distribuição de energia, no Brasil, contrata-se primeiro e depois adapta-se o funcionário ao cargo. “Na Suíça, espera-se um profissional pronto e muito especializado”, explica Schwarz, que já trabalhou no México, Brasil e Estados Unidos.

Diplomas – A começar pelo sistema de ensino, que é diferente, o recrutador suíço tem dúvidas quanto à autenticidade de um diploma advindo de países em desenvolvimento ou de lugares nos quais os currículos sejam complicados de entender. Algumas profissões precisam validar diplomas.

Mulheres – Muitas esposas de expatriados se veem surpresas com a falta de creches e serviços de babás onde possam colocar seus filhos enquanto trabalham. Como não encontram, desistem do sonho da recolocação profissional.

Ferramentas de busca – Muitos candidatos que procuram emprego não estão cientes das especificidades do mercado suíço, como funciona a maneira diferente de elaborar um currículo, como se faz uma carta de motivação ou até mesmo sobre como driblar os robôs que fazem a primeira triagem dos currículos em um grande sistema de dados. Uma boa ideia é contar com a ajuda de um profissional, como o coach ou aconselhador de carreiras, por exemplo, ou o aconselhamento profissional suíço.

Natureza da profissão – Profissões técnicas têm mais aceitação que as da área de humanas e de línguas. De acordo com Christine Groell, professores em geral por exemplo, provavelmente só conseguirão uma vaga na Suíça se falarem um alemão de níveis C1 ou C2, mais um diploma local. Profissionais da área de comunicação, mesmo que com experiência em outro país, provavelmente terão dificuldades, já que nesse tipo de profissão, é necessário ter um conhecimento profundo da cultura suíça. “Vai além da proficiência no idioma, é necessário decifrar os códigos, os sinais e linguagem corporal”, explica.

Necessidade do mercado – A Suíça necessita de trabalhadores ditos braçais, como para a área de limpeza, ou técnicos como eletricistas ou mecânicos, além de engenheiros, profissionais de Tecnologia da Informação.

Dicas – Invista no aprendizado da língua local e no networking. Tenha sempre seu cartão de visitas em mãos e comente sempre com sua rede de relacionamentos que está buscando uma posição. Além disso, vá em frente e não desista de buscar uma colocação profissional. “E mais que tudo, acredite em você”, finaliza Groell.

*Nomes em asterisco foram modificados para preservar a identidade dos entrevistados

1 de outubro de 2017O serviço no Brasil na visão do estrangeiro

Os autores chamam a atenção para atitudes carinhosas, como tapinha nas costas, que podem ser interpretadas como ofensa.

Bar em Zurique

A qualidade dos serviços pode diferir de país ao outro. 

(swissinfo.ch)

O setor de serviços de turismo e hotelaria nacional é exemplo de que nem sempre boa vontade é sinal de êxito. No Brasil desde 1998, o interculturalista alemão Sven Dinklage notou uma significante carência de sensibilidade intercultural no ramo. Isso significa que trabalhadores são muito motivados, bem-intencionados e sempre prontos a oferecer um generoso sorriso aos turistas, mas a falta de conhecimento sobre alguns aspectos na recepção de clientes internacionais e no relacionamento com diferenças culturais podem causar mal-entendidos, com a possibilidade de acarretar diminuição de lucro.

Como vem da indústria hoteleira internacional, onde atuou quando viveu na Inglaterra, Sven traçou um panorama de falhas praticadas pelo ramo. Curioso sobre o tema, se debruçou em estudos, entrevistou hóspedes e transformou o resultado da pesquisa no livro "A importância de conhecer hábitos e peculiaridades dos visitantes estrangeirosLink externo". Publicado pela Editora Pontes, o material é resultado de mais de 20 anos de observação e experiência com pessoas das mais diversas culturas, incluindo a alemã, a chinesa, francesa, americana, japonesa, árabe, italiana e russa. 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Nada melhor que alguém de fora do país para analisar com imparcialidade e criticismo. Embora o livro tenha sido escrito no Brasil, examina as práticas pouco globalizadas no atendimento ao público internacional. Escrito a seis mãos por Sven Dinklage e pela alemã Nicola Maria Peuntner e a brasileira Juçara Ribeiro de Sá Cofiño, funciona como um importante aliado do empresário que queira lidar com clientes estrangeiros e fundamenta que nem tudo que é apreciado em uma cultura será estimado em outra.

Monoglota e monocultural - De acordo com o interculturalista, as proporções continentais do Brasil e o uso de uma única língua levam o país a um certo isolamento cultural, o que acarreta em miopia para olhar o mundo com outros olhos. "Com todas essas características, o país ainda sofre de problemas econômicos, que impossibilitam que os brasileiros viajem e tenham contato com outras realidades culturais. A falta de exposição a outras sociedades acaba por causar alguns mal-entendidos, anulando a boa vontade de quem erra pensando que acerta", explica Sven.

Gafes comportamentais - E quais seriam os erros de comportamento? Sven conta que, em termos gerais, embora movido pela melhor da boa vontade, o brasileiro já começa a se atrapalhar quando demonstra a sua mais genuína gentileza. Tocar no outro, dar o famoso "tapinha" nas costas para demonstrar apreciação e ganho de intimidade entra na categoria das gafes mais praticadas. O problema é que o gesto é visto como sinal de desrespeito e até ofensa por outros povos. Passar a mão na cabeça de filhos dos hóspedes ou clientes de restaurantes foi outro tema que apareceu nas entrevistas. Garçons querem agradar as crianças e acabam por ultrapassar uma barreira invisível sem saber.

Inglês continua uma barreira - Outro desafio enfrentado é a baixa proficiência na língua inglesa, que prejudica não só um diálogo em inglês, mas na simples pronúncia de um nome da língua estrangeira. "Os brasileiros tendem a pronunciar palavras inglesas como se estivessem falando português, até mesmo quando falam com estrangeiros. Obviamente muitos deles não entendem o que eles querem dizer. A pronúncia de palavras básicas ("internet", "Big Mac", "Kung Fu", "WhatsApp" por exemplo, foi tão ajustada ao português brasileiro que se tornaram quase irreconhecíveis", explica.

Sven Dinklage

(swissinfo.ch)

De acordo com Sven, é importante lembrar aos atendentes que aprendam, pelo menos, a pronúncia correta destas poucas palavras básicas. Se houver dificuldades em relação a esses aspectos, uma boa alternativa será escrever a palavra em uma folha de papel (ou já ter uma lista impressa pronta).

Cardápio adaptado ao público internacional - Particularmente na gastronomia, os erros de interpretação são variados. Como muitos dos funcionários desconhecem as diferenças culturais, muitos se limitam a oferecer café, em vez de chá, muito mais apreciado em culturas orientais ou na inglesa. Como os brasileiros não bebem água gasosa, alguns restaurantes simplesmente não disponibilizam no seu cardápio. Como o produto é muito consumido em alguns países europeus, deixam de fazer negócio.

Algumas dicas interessantes do livro:

Café ou chá? - A preferência por tomar café ou chá é outra coisa que parece dividir o mundo. Enquanto os EUA, Japão e Alemanha estão entre os maiores mercados para ambos café e chá, alguns povos (os brasileiros, italianos e franceses) optam pelo café. Já os chineses, indianos, russos e árabes preferem o chá. Mas, evidentemente, muitos indivíduos e povos tomam os dois. Isso sugere, portanto, a necessidade de se investigarem as preferências pessoais do visitante.

Origem do cliente - Saiba exatamente de onde (país, nacionalidade, região, religião) é o seu hóspede. Não se pode confundir, por exemplo, um chinês com um japonês ou um coreano, um austríaco com um alemão ou um iraquiano com um iraniano (afinal, os brasileiros também não gostam de serem confundidos com os argentinos, certo?). Se tiver dúvida, pergunte.

Os alemães - Já que o livro não aborda diretamente os suíços, é interessante prestar atenção em alguns hábitos dos alemães, que muitas vezes são similares aos da maior parte da Suíça. Eles geralmente tomam o café da manhã com chá, ou café com leite em xícaras grandes. Eles preferem suco de laranja e água com gás. Eles adoram uma seleção de pãezinhos como multigrãos, integral. A questão da pontualidade é muito importante – se o café da manhã está anunciado como "a partir das 06:00 horas da manhã", eles não vão entender porque o café ainda não está pronto às 06 horas em ponto.

Mulheres árabes – Se o hotel tiver piscina, as mulheres árabes não podem usá-la junto com outras pessoas, especialmente homens. Por isso, seria ótimo se o hotel puder oferecer horários da piscina reservados exclusivamente para elas. Em termos de traje de banho, as árabes geralmente irão nadar com camiseta e calça leggins.

Muçulmanos – No buffet os frios devem ter identificação de qual tipo de carne são feitos, porque os árabes muçulmanos não podem comer carne de porco e seus derivados. Eles consumirão apenas alimentos halal (para animais que tenham sangue, como boi, carneiro, peru, coelho e frango) no cardápio.

Chineses - Na cultura chinesa, a superstição é algo um tanto recorrente, o que vale para o uso de determinados números. O número 4, por exemplo, é o número de má sorte, porque a palavra "quatro", quando falado em mandarim, é parecida com a palavra "morte". Esse número do azar é parecido com o número 13 em outros países (EUA, alguns lugares na Europa), mas talvez tenha até um peso maior. Por isso, os hóspedes chineses não devem ser hospedados em quartos no 4° andar ou com números como 4, 44 ou 444. Por outro lado, os chineses associam o número 8 com prosperidade e fartura, o número 9 com boa ventura e permanência.

Japão - os casais japoneses, ao contrário de outras culturas, talvez prefiram camas individuais separadas, no mesmo quarto.

18 de setembro de 2017Quando o retorno desperta o sentimento de luto

De repente o espírito é tomado por uma escuridão que dói a alma. A pessoa se sente deslocada onde quer que esteja: no exterior, ou no país de origem, para onde volta por achar que pode se reencontrar.

A psicóloga Gabriela Broll Ribeiro.

A psicóloga Gabriela Broll Ribeiro estuda a adaptação de migrantes na sociedade suíça.

(swissinfo.ch)

Pois é ali mesmo, cercada de antigos amigos e familiares, que se dá o inesperado: a percepção de que algo se perdeu enquanto ficou longe e que nada mais faz sentido, de que as coisas e as pessoas mudaram. Segundo a psicóloga Gabriela Ribeiro Broll, a esse sentimento dá-se o nome de síndrome do retorno. Acostumada a lidar com migrantes que sofrem com o problema há 11 anos, Gabriela fala à swissinfo.ch sobre o desafio de lidar com a readaptação ao país de origem e das dores que o migrante terá que enfrentar.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: O que é a síndrome do retorno?

G.R.B.: Eu diria que se trata do verdadeiro estrangeiro global, não se reconhece em nenhuma cultura e sofre com uma crise de identidade, esteja na rua onde cresceu ou a milhares de quilômetros de casa. É pego de surpresa quando retorna ao seu país, já que voltou para se sentir em casa; mas é tomado pelo susto de não conseguir se aclimatar.

A readaptação pode ser um período que desafia o viajante por meio de um conjunto de respostas emocionais e comportamentais que muitas vezes são inesperadas e geram sofrimento. A Síndrome do Retorno ou Regresso é a forma de vivenciar essa tentativa de ambientação, que pode vir acompanhada de dor, sensação de desajuste e de muito esforço desprendido para sentir-se bem em um local que um dia foi seu lar, lugar de referência. Isolamento, confusão em relação a identidade, sentimentos como raiva e tristeza podem mostrar que a adaptação na volta pode ser mais difícil que a da ida.

swissinfo.ch: E quem recebe o migrante de volta, como se sente?

G.R.B.: Na maioria das vezes, as pessoas que convivem com a vítima da síndrome também padecem, porque não têm o verdadeiro alcance do que acontece. Quem ficou no país não compreende as experiências vividas no exterior e não pode entender o distanciamento e sofrimento de quem chega. Interpreta como arrogância, desinteresse, obsessão pelo que passou e até mesmo falta de consideração com quem ficou.

swissinfo.ch: Poderia explicar como acontece o processo da síndrome do retorno? 

G.R.B.: Uma boa forma de entender esse momento, que pode durar de seis meses a dois anos, é saber que se trata de um período em que o migrante enfrenta muitos lutos. Quando há uma perda significativa, há luto. Ter a oportunidade de migrar e viver as maravilhas de estar em contato com outras culturas traz muitos ganhos que vêm acompanhados de perdas. Migrar é vivenciar a dor da morte na ida e na volta.

Na ida, todas as referências precisam ser deixadas para trás. O cérebro e a atenção precisam deixar de lado o velho para abrir espaço para o novo: idioma, comida, amizades. Isso dispende muito esforço cognitivo e emocional. Essas conquistas geram novos gostos, ampliam os horizontes e possibilidades se abrem, novas competências e habilidades se desenvolvem. E assim, da superação do luto do que era conhecido e do aprender uma nova forma de viver, um novo sujeito nasce dessa experiência.

Na volta, tudo de novo. No entanto, o luto no retorno pode ser mais dolorido, pois é assustador se deparar com a sensação de perder o controle e o carinho com aquilo que um dia foi tão conhecido. Certo grau de confusão e culpa é esperado, pois geralmente há expectativas positivas e ânimo ao embarcar de volta rumo ao seu lugar de origem, às pessoas amadas, a tudo aquilo que um dia foi aconchego. No entanto, pode ser muito desconfortável chegar nesse contexto e perceber que parte da intimidade foi perdida. Às vezes, o sentimento é de que a própria identidade da pessoa está sendo ameaçada.

swissinfo.ch: Como se dá evolução do problema e como se desencadeia o sentimento de luto?

G.R.B.: Uma boa forma de lidar com a dificuldade é entender o luto. Se o migrante o compreende pode entender seus sentimentos e criar estratégias. A dor da morte pode ser dividida em cinco fases, de acordo com a psicóloga suíça Elisabeth Kubler-Ross.

A primeira é a negação, mecanismo de defesa que possibilita que a pessoa negue a questão e, de alguma forma, se engane, achando que não está vivendo o problema. O principal motivo é a dificuldade de entender e aceitar o que está acontecendo. Os motivos de retorno ao próprio país são muitos: acabou o intercâmbio, o contrato de trabalho na empresa, o relacionamento terminou, o visto acabou, entre tantos outros. Mas se a pessoa não escolheu e nem gostaria de voltar, o problema pode ser agravado.

Também nessa fase há uma supervalorização do que ficou para trás, negando as dificuldades que também se faziam presente no exterior. Às vezes a pessoa cria uma rotina parecida com a que tinha no outro país, trazendo mais frustração já que os resultados não serão os mesmos. É comum chegar no mercado e procurar pelos itens que costumava comprar ou querer fazer os mesmos programas sociais.

A Raiva também faz parte. Acontece quando a pessoa sabe que a realidade não vai mudar; não haverá retorno. Nesse momento, é comum achar uma injustiça ou ainda direcionar o sentimento a outras pessoas e situações.

A Negociação é outra fase. Geralmente faz promessas para si mesma ou pensa que se tivesse agido diferentemente poderia ter ficado lá. São algumas fantasias que criam um cenário ilusório em mente: “Tenho certeza que viverei lá novamente”, “Vou ficar por aqui um tempo e me reorganizar para voltar”, “Vou frequentar lugares que falam inglês para me sentir mais perto”.

Há infelizmente a fase da depressão. Nesse momento, a tristeza fica mais intensa, o migrante se isola e se vê como impotente em relação ao que sente. É o estágio mais intenso do luto, quando se dá conta de que a realidade externa não vai mudar. É uma fase específica e transitória, mas pode trazer a necessidade de um acompanhamento médico e medicamentoso. Cansaços, desânimos, solidão a alteração do sono e apetite são esperados. O migrante precisa de muito apoio de seus amigos e familiares, que precisam entender que toda essa complexidade de sentimentos não é pessoal.

E por fim, a Aceitação, etapa que acontece quando a pessoa consegue se relacionar com a realidade. É quando aceita que mudou e consegue equilibrar os aspectos locais com os conquistados no exterior, integrando-os dentro de si.

swissinfo.ch: É necessariamente obrigatório vivenciar todas as fases do luto?

G.R.B.: É fundamental esclarecer que o migrante pode vivenciar uma, duas ou todas as fases; mas o luto só é superado quando há aceitação. Não tem uma regra específica, é possível revisitar uma etapa mais de uma vez, ou ficar estagnado em alguma. A estagnação, entretanto, invalida a reintegração. Um dos papéis do psicólogo intercultural é justamente ajudar a pessoa a entender e identificar em que etapa se encontra, permitir que o luto aconteça e criar estratégias para superar.

swissinfo.ch: Todas as pessoas que retornarem ao seu país de origem irão sofrer igualmente?

G.R.B.: As variáveis que determinam porque algumas pessoas sofrem mais que outras são muitas, desde a estrutura psíquica e emocional, capacidade de lidar com mudanças e perdas, se a pessoa teve escolha na decisão de voltar e apoio da comunidade que a recebe. A qualidade da migração também tem seu papel, pois quanto mais plena e consciente foi a experiência, menos arrependimentos e fantasias atrapalham a readaptação.

swissinfo.ch: A pergunta que não pode deixar de ser feita: como lidar com o problema? É possível curar essa dor?

G.R.B.: Apesar desse fenômeno ser angustiante, pode ser superado. O importante é ter paciência e força para enfrentar. Luto não vivido é sentimento não superado. Aceitar que é natural sentir-se assim é importante. Ainda bem que a maioria das pessoas supera e extrai a beleza de cada etapa, vivendo muito bem no país de origem, com gratidão pelo que viveu lá fora, cheia de experiências significativas.

Um psicólogo intercultural como eu, por exemplo, apoia pessoas a viverem situações de migração e encontros interculturais. É um serviço especializado em ajudar o migrante a se adaptar e ser feliz em terras e culturas estrangeiras.  Ou, por exemplo, a se readaptar no país de origem, superando a inesperada Síndrome do retorno. O importante é ficar atento aos sentimentos e procurar ajuda quando necessário.

As cinco fases do luto

Negação - mecanismo de defesa que possibilita que a pessoa negue a questão e, de alguma forma, se engane. Para minimizar a dor, o migrante racionaliza o que está passando, se convencendo, por exemplo, de que “voltou na hora certa” ou que “já estava cansada da vida lá fora.

Raiva – Culpar e criticar são as palavras de ordem aqui: por que ninguém me entende? São válvula de escape. Frases como por exemplo, “Eu odeio o jeito dos brasileiros trabalharem” fazem parte do script.

Negociação -  A pessoa pode se sentir aliviada porque é uma tentativa de fazer a vida de antes voltar, mas ainda se mantém com os pensamentos e coração no exterior, o que a impede de criar estratégias concretas de adaptação aonde está.

Depressão – fase marcada por tristeza intensa e até isolamento. É uma fase específica e transitória, mas pode trazer a necessidade de um acompanhamento médico.

Aceitação - quando a pessoa consegue se relacionar com a realidade. Pode haver saudade, mas também tem prazer nas atividades sociais no país de origem.

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Para entrar em contato com Gabriela Broll Ribeiro: http://www.interculturando.com.brLink externo​​​​​​​

1° de setembro de 2017Identidade e os conflitos internos na migração

A aconselhadora psicológica Graziela Birrer explica como sua tese e trabalho podem ajudar migrantes

Foto de Graziela Birrer

Graziela Birrer ao ser entrevistada pela swissinfo.ch

(swissinfo.ch)

A paulistana Graziela Birrer ajuda imigrantes na Suíça a superar crises existenciais. Formada em aconselhamento psicológico pelo Instituto de Psicoterapia Centrada no Corpo (IKPLink externo) de Zurique, ela considera que seus estudos a levaram a uma reinvenção profissional, necessária após emigrar e se deparar com tantas diferenças. Graduada em comunicação social, propaganda e marketing, a alteração de rumo propiciou à Graziela o resgate de uma paixão antiga: trabalhar com o ser humano. A profissional lança mão das técnicas psicológicas do Instituto com o aprendizado adquirido com a tese de conclusão de curso sobre identidade do imigrante, e sua vivência de 12 anos como estrangeira na Suíça.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Quem são os seus clientes?

Graziela Birrer: Por causa do idioma, atendo, na maioria dos casos, brasileiros e portugueses, uma vez que é muito melhor se expressar no seu idioma, principalmente quando se trata de temas tão profundos. Mas trabalho também em alemão e inglês. Trabalho muito com questões migratórias na Suíça, mas não exclusivamente. São problemas relacionados à crise no trabalho, de identidade e relacionamento. Recebo alguns casais também, que vêm por problemas na união. Alguns, posteriormente, se tornam clientes individuais.

swissinfo.ch: Como você integra o método de trabalho psicológico do IKP às necessidades dos imigrantes?

G.B.: A minha tese de conclusão do curso foi baseada na identidade do estrangeiro. A linha seguida pelo IKP é a da psicologia humanista, com forte influência da Terapia de Gestalt (talvez seja melhor usar “Gestalt-terapia”. Eu quis unir essa orientação ao tema migração, que também tem a ver comigo. O método IKP se baseia na busca do equilíbrio de seis dimensões: a corporal, psicológica, social, temporal, espacial e espiritual. Acredita-se que a saúde e o bem-estar dependem do balanço desses seis valores.

O processo parte do princípio de que todos temos o potencial de cura dentro de nós mesmos. Obviamente não estou dizendo para ninguém não ir ao médico ou deixar de tomar remédio. O que eu afirmo é que até mesmo o medicamento pode ser visto como um recurso, assim como qualquer procedimento benéfico que possa ser usado para alivio de qualquer incômodo. Mas isso significa que o indivíduo, mesmo utilizando diferentes ferramentas, é o ativo da própria cura.

Explicado isso, é importante mencionar que a migração afeta cada uma dessas dimensões. Dessa forma, consigo atrelar a minha tese ao meu dia a dia no consultório.

swissinfo.ch: Poderia explicar como a migração interfere nas seis dimensões?

G.B.: Quando a pessoa sai do seu país, uma série de mudanças acontece na vida dela, interferindo principalmente na identidade, que está em contínuo processo de mutação. Ela é baseada nas nossas características, experiências e meio ambiente. Dessa forma, de acordo com as fases da vida, vai sofrer alteração. Obviamente que sair do país e mudar-se para outro vai modificar profundamente uma estrutura, já que significa uma ruptura com vários aspectos de uma vida pregressa.

A própria imagem do corpo é uma das que sofre modificação. O físico será mais visto ou mais escondido, caso a migração se dê para um país mais frio ou quente. Os padrões de beleza daquela sociedade com relação ao corpo, a alimentação; até o fato de se começar a comer por ansiedade pelo fato de estar na fase de adaptação influencia essa dimensão. Além disso, o corpo manifesta de diferentes formas problemas psicológicos e estresse, por exemplo.

A dimensão psicológica está relacionada à nossa visão do mundo e sobre nós mesmos; como eu me vejo, me valorizo e me sinto. Muitas vezes, a percepção que se tem de si mesmo é baseada na opinião do outro. Na vida do imigrante, isso é muito comum. Como quem deixa o país de origem perde suas referências. Essa dimensão também está muito ligada ao que ficou para trás ao ir embora; como era a relação com a família e como a pessoa reage ao novo ambiente e seus sentimentos, por exemplo.

A social, entretanto, é uma parte bem ampla dessa análise. Está relacionada à forte percepção de distância e proximidade entre as pessoas, com o espaço físico entre elas. Nesse sentido, é importante mencionar que ir embora do seu país de origem não significa somente mudar de lugar, mas alterar o centro de vida e a referência social, que deverá ser reconstruída em outro país.

swissinfo.ch: Curiosamente, muitos recursos externos encontram-se na parte social. O médico, a família, o amigo, a comunicação, o idioma. E não são exatamente esses que perdemos quando saímos do nosso país?

A dimensão tempo, na migração, tem relação com o ritmo de vida e com a velocidade. Outro fator que influencia muito essa conexão é em qual momento a pessoa vai focar. Alguns ficam muito presos ao passado, principalmente os que mais sofrem de saudade. Essa prática se faz muito evidente em êxodos. O importante é focar na integração do presente, mas existe uma dificuldade muito grande em viver o aqui e o agora.

A explicação sobre a categoria espaço precisa incluir alguns conceitos: além da mudança de país, falamos aqui de ambiente novo e de diferenças no espaço pessoal com relação a outras pessoas. Em países como a Suíça, fala-se mais distante do outro, dois corpos não se aproximam tanto em conversas. Como o privado é muito valorizado pela sociedade suíça, o estrangeiro precisará redefinir qual o espaço que ele necessita, por exemplo. Entender, se casada com um estrangeiro, os limites de invasão de privacidade tolerado pelo parceiro também se fazem importantes. Entender onde a pessoa se sente “em casa”.

Para finalizar, a espiritualidade é entendida nesse processo como um recurso importante para driblar dificuldades. Não estamos falando de religião, mas tampouco negamos que possa ser utilizada como ferramenta para driblar as dificuldades do dia a dia. A espiritualidade tem um significado diferente para cada pessoa, mas pode ser entendida como conexão consigo e com uma “força maior”, podendo ser trabalhada de diversas formas, como através do contato com a natureza, ioga, meditação, a frequência a um culto. Cada pessoa pode encontrar seu caminho para desenvolver essa dimensão.

swissinfo.ch: Poderia explicar como se dá o tratamento na prática?

G.B.: Como parte da metodologia do IKP, além de diálogo posso lançar mão de outras intervenções, utilizando por exemplo objetos que ajudem o cliente a expressar um sentimento. Então, uso bonequinhos ou figuras de madeira, trabalho com desenhos, almofadas. Esses artefatos são importantes para materializar alguns sentimentos muito profundos. Para quem sofre de medo, por exemplo, podemos usar a figura de uma cadeira, trabalhando a transferência do sentimento para um objetivo inanimado, externo a quem sente. Isso ajuda muito as pessoas entenderem melhor o que se passa com elas quanto nutrem aquele pensamento.

A saudade, muito recorrente em quem vai embora, também é um tema interessante a ser investigado. Alguns não conseguem se livrar do sentimento. Nesse momento, posso auxiliar o cliente a intervir na dinâmica da despedida, no deixar para trás o que ficou e focar no presente.  Não é cortar laços, mas sentir falta sem deixar de se concentrar no agora, preencher de sentido a nova caminhada e parar de atrapalhar os novos rumos. Procuro também localizar a saudade dentro do corpo do cliente e trabalhar com essa sensação, através, por exemplo, de exercícios de respiração. O corpo tem um papel de destaque no método que utilizo.

swissinfo.ch: O que a Senhora diria ao estrangeiro que vive na Suíça e que sente que algo não vai bem?

G.B.: Cada um vivencia a experiência migratória de um jeito. É tudo muito complexo. Como cada um irá experimentar essa novidade tem relação com a idade de quem emigrou, da história pregressa e de outros inúmeros fatores. Quem vai embora muito jovem, por exemplo, pode ter menos problemas, já que o jovem tende a se adaptar mais facilmente. Se já trabalhava em um cargo mais alto, a probabilidade é que a pessoa tenha expectativas de empregos melhores na Suíça, o que pode não acontecer. Dessa maneira, é importante ficar atento às expectativas, que podem atrapalhar a adaptação em terra estrangeira. Em muitos casos, é necessário haver uma mudança de rota profissional. Mas para isso, é preciso aceitar a nova fase da vida, lançar um olhar mais doce sobre a situação e sobre você, para evitar a rejeição da realidade. E o mais importante de tudo: trabalhar no seu fortalecimento e na ativação de seus recursos internos e externos.

15 de agosto de 2017Pensar fora da caixa significa ir além das fronteiras de um país

Ana Cristina Kolb tem como uma das missões de vida levar aos quatro cantos a mensagem do pensamento global, seja na Suíça ou em universidades europeias, onde leciona em Escolas de Hotelaria e de Management.

Hotel Bären em Kiental, nos Alpes bernenses.

Até pequenos hotéis como o Hotel Bären, em Kiental, nos Alpes bernenses, prezam pela qualidade de serviços.

(sda-ats)

Ou no Brasil, onde coordena grupos de empresários e de líderes voltados para a globalização, como o Brazilian International Business Group, o Go Global Brazil e o Pense Global, Aja Local. Dona e fundadora da CEW Marketing Services, a mineira de Belo Horizonte é especializada em Marketing e tem no currículo experiência em algumas grandes multinacionais na Alemanha, sempre com foco no mercado internacional. Casada com um alemão, ela mora em Montreux há nove anos e há 27 fora do Brasil. 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: A Senhora atua em várias frentes assessorando empresários brasileiros e de outros países a se tornarem globais. Quais seriam os maiores desafios dos nossos conterrâneos quando empreendem no exterior?

A.K: O brasileiro traz em sua bagagem características culturais ótimas para empreender, como coragem, criatividade e simpatia; mas alguns pecam por se aterem somente a essas qualidades quando decidem abrir negócio em um mercado tão profissional como o suíço e o alemão, por exemplo.

A maioria dos povos europeus, e os suíços estão incluídos, estuda o setor profundamente, destrincha os riscos, analisa todas as possibilidades antes de começar algo. Não tem achismo, é tudo baseado em números e fatos. 
Acredito que essa peculiaridade deles venha da época de escola, que segue um sistema mais cartesiano e linear.

O método do Brasil é, ao contrário, mais subjetivo, com leis e regras que valem para uns e não para todos. Digamos que seja mais interpretativo, com margens para entendimentos diferentes. Dessa forma, o empresário brasileiro acha que pode burlar determinadas regras porque não faz sentido agir daquela maneira. Voltando ao ambiente escolar, quem não conhece pais que argumentam com o professor que o filho pode passar de ano, mesmo que a criança não esteja pronta?

Essa particularidade traz ainda um certo narcisismo presente no inconsciente coletivo brasileiro. Esse negócio de passar na frente porque é amigo de alguém não vai funcionar no exterior. Mas volto novamente ao fato de que os pais que invertem os valores e tentam barganhar o sucesso escolar do filho não estariam contribuindo para esses princípios disfuncionais? E assim funciona a escola, o pensamento e a sociedade, que argumenta muito, mas se sente no direito de não cumprir à risca o que é estabelecido. 

swissinfo.ch: Então o sistema educacional atuaria muito profundamente nesses maus hábitos?

A.K: Totalmente. Uma coisa puxa a outra. Num país de alta especialização como a Suíça, onde para ser lixeiro tem que fazer curso e se qualificar, não dá para imaginar que alguém comece uma empresa ou ofereça um serviço sem se adaptar ao público do país, seguir as regras locais ou se profissionalizar. Não basta ser ótima cabeleireira, tem que seguir os procedimentos necessários. Vou dar um exemplo simples, que tenho visto muito por aí. 

Como brasileira e mulher, gosto de fazer minha unha e vou a salões brasileiros pelo mundo. Mas o que vejo são muitos salões de beleza de conterrâneos que funcionam exatamente como se estivessem no interior do Brasil, sem legalização e até cheio de gambiarras. São locais cheios, com várias pessoas que vão como visitantes e não para consumir, com televisão ligada no volume alto. É aquele clima de conversa, de alegria, o que é ótimo para alguns brasileiros; mas não para uma estrangeira que vá querer cortar o cabelo e vai estranhar tanto barulho e entusiasmo. É preciso entender que nem tudo que é valorizado pela nossa cultura é apreciado por outra sociedade. Por isso o primeiro ponto é o da consciência de que não se está no Brasil. 

Se entrar no ponto da pontualidade, do cumprimento de datas e prazos então... Estamos acostumados no Brasil a inventar estórias para explicar o porquê de não conseguirmos finalizar um trabalho no prazo. Aí começa a mania de perseguição, achando que o mundo está contra a gente. Já ouvi reclamações do tipo “por que eles reclamam tanto só porque atrasei uma semana?”

swissinfo.ch: Mas não é normal o brasileiro pensar que empreender no mercado da saudade, que é comprar de produtos e serviços do seu país de origem no exterior, deveria ser parecido com o que se consumia no Brasil?

A.K: Claro, mas até certo ponto. O empresário não precisa limitar o seu negócio somente a esse mercado e a esse público. Ele pode e deve expandir para outros clientes.

Ana Cristina Kolb

(swissinfo.ch)

Eu lidero um grupo voltado para a Hotelaria no Brasil que se chama Pense global, aja local. Tentamos levar a mensagem da importância dos produtos locais, do artesanato, da comida brasileira; mas adaptados a serem mostradas ao mundo, ao público internacional. 

Eu quero contribuir com meus conterrâneos. E essa é a maneira que encontrei para ajuda-los a melhorar a qualidade de vida, e expandirem seus negócios. Eu acredito que podemos escolher o que há de melhor em cada sociedade e unir o suprassumo dos mundos.

O primeiro passo é aceitar que é diferente, criar raízes onde estamos, manter as do país de origem. Isso significa entender essas diferenças e saber o caminho que queremos trilhar. Então, chega o momento de detalhar que no seu país funciona dessa maneira, no outro de uma diferente forma. Junte os melhores, acomode as duas formas e cria uma vantagem mercadológica. 

Voltando ao salão de cabeleireiro: pegue a simpatia e carinho brasileiros, adicione o profissionalismo suíço, siga as regras e trabalhe em conformidade com o mercado. É a receita do sucesso, de sair do lugar comum. 

swissinfo.ch: Qual seria a mensagem de globalização que a Senhora gostaria de passar para os migrantes de língua portuguesa e os que querem empreender na Suíça? 

A.K: Eu acho que uma das maiores riquezas que temos como migrantes é a possibilidade da expansão dos horizontes, o presente que ganhamos em termos de amplificação do conhecimento e da evolução. O problema é quando nos recusamos a mudar e vivemos em gueto. Eu acredito que viver em outro país é um exercício de se interessar pelo outro, como ele me entende, e como você compreende essa outra maneira de se expressar, de pensar. 

É preciso querer melhorar, evoluir. Não é fácil fazer a qualificação profissional no outro país, em outra língua. Mas é possível.

1° de agosto de 2017A fantasia do paraíso deixado para trás

A saudade e o sentimento de exclusão podem transformar a mais dura das realidades em um ilusório conto de fadas.

Mulher olhando através da janela

Olhar a realidade através da janela, mas estar pensando em outro mundo. 

(swissinfo.ch)

Uma das faces perigosas da saudade é a maquiagem da realidade. Em uma tentativa de autodefesa e da manutenção de uma referência positiva, quem saiu de casa esquece os defeitos e problemas do país de origem e cai na armadilha da ilusão. Outros se apegam às adversidades da migração para amenizar a falta. Com isso, não resolvem os inconvenientes, vivem uma existência irreal e ainda abrem a guarda para ser explorado por familiares no país de origem. E o pior de todos os males, não conseguem se desapegar do passado, deixando de desfrutar da nova vida no exterior.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A literatura sobre a relação da família com a fantasia não é muito farta. A ideia para a matéria veio quando a swissinfo.ch entrevistava brasileiras sobre saudade e ouviu espontaneamente algumas respostas do tipo: "já senti muito, mas me cansei de ser solicitada para ajudar financeiramente" ou "tento focar nos defeitos para melhorar a minha existência na Suíça". Admitir ser explorado pela família é um processo que demanda muito tempo, autoconhecimento e experiência; muitas vezes nem acontece. Mas a tendência à ilusão de uma terra ou vida perfeita quando distante existe, é fruto de diversos estudos e inerente ao ser humano.

Cuidado para não desvalorizar a cultura

A psicóloga intercultural Simone Torres Costa, que escreveu tese de mestrado sobre estratégias de adaptação, lembra que é muito importante a valorização e o respeito dos traços culturais do país de origem para que o processo de integração se torne mais consciente e, dessa forma, mais leve. Alguns migrantes, no entanto, preferem focar nas imperfeições para poderem lidar com o fato de terem ido embora.  Outro retorno ouvido, também referente ao não enfrentamento da realidade, é se apegar aos defeitos do Brasil para amenizar a saudade.

De acordo com a psicóloga intercultural Simone Torres Costa, esse tipo de constatação é muito perigosa porque é importante valorizar a memória positiva. É ela que alimenta a identidade do indivíduo e, no caso, ajuda a estimar a cultura do indivíduo. Segundo Simone, fantasiar tem seu lado negativo mas ajuda a manter a imagem positiva do passado. "É preciso dissociar a família do Brasil. O importante é saber que os parentes são apenas uma parte dessa história, mas outras referências devem ser levadas em conta. Se a pessoa tem familiares que exploram financeiramente e coloca o sentimento negativo no país como um todo, acaba por prejudicar a sua adaptação no exterior, já que ela tenderá a negar a sua cultura", diz Simone.

A saudade substituída pela decepção - Quando questionada se sentia falta do Brasil, a brasileira *Lauriana Müller disse que já tinha passado dessa fase. Após 16 anos na Suíça, aprendeu que idealizou uma família que não existia só para aplacar a saudade, mas que na verdade só se lembrava dela quando precisava comprar algo. A resposta de Lauriana é um misto de desabafo, por ter investido quantia proveniente de faxinas para ajudar vários familiares; e de arrependimento, por não ter aproveitado a renda extra para construir uma vida melhor no país de acolhida, o que inclui tanto o lado financeiro quanto o de aproveitar mais as férias para conhecer outros lugares, sem se ater tanto à sua cidade natal, Maceió.

"Eu passei 14 anos limpando casas para enviar dinheiro para minha mãe e irmãos. Canso de receber mensagens dos meus sobrinhos que querem comprar um celular novo. No final das contas, as pessoas acham que estamos ricos só porque estamos fora do país. O que não é verdade. Eu vejo também que muitos deles não querem trabalhar para melhorar de vida, acham mais fácil pedir. É preciso muita coragem para levantar e ir atrás dos nossos objetivos", diz Lauriana.

A psicoterapeuta e psicóloga Telma Witzig.

(swissinfo.ch)

Exploração e culpa

De acordo com a médica baiana *Carina Souza, que saiu de Salvador para trabalhar no Sul do Brasil, a saudade era tanta que ela recriou a imagem de uma mãe que nunca existiu. Depois de passar por várias sessões de terapia, Carina consegue hoje ver com clareza a criação de uma fantasia, porque estava distante de casa, associada ao sentimento de culpa por ter ido embora e ganhar bem. "Um dia, eu estava contando sobre a minha mãe para uma colega do hospital, que se disse impressionada pelo ótimo relacionamento que eu tinha com ela. Foi nesse momento que eu vi a dimensão da minha utopia, já que a nossa relação não era assim", explica a médica.

O blogueiro brasileiro Gustl RosenkranzLink externo postou um texto há três anos sobre o assunto. Intitulado "Brasileiros no exterior, a saudade de casa e a tirania da família no Brasil", Rosenkranz conta casos de brasileiras conhecidas que trabalham na Alemanha e se sentem obrigadas a ajudar a família. "Conheço tantos exemplos de tirania de famílias de emigrantes que poderia passar alguns dias escrevendo. Sei de casos de quem ajudou durante anos, às vezes sem nem mesmo escutar um muito obrigado. Mas quando uma pessoa que vive no exterior, já cansada de trabalhar tanto para ajudar a família, um dia corta essa ajuda, pode acontecer dela ser rejeitada, chamada de egoísta e escutar que ela é uma pessoa tão ruim que, apesar de nadar em dinheiro, nunca ajudara a família, anulando praticamente tudo que fizera até então". A tirania da saudade está sempre à espreita; o importante é agir com consciência.

*Alguns nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

Análise psicológica da realidade fantasiosa

A distância e a saudade colorem o passado e podem trair a visão do que realmente ficou para trás. A culpa também tem um papel importante nessa relação. Essa foi a opinião das três psicólogas brasileiras entrevistadas sobre o tema pela Swissinfo. Segundo a psicóloga Cristina Bandeira, as pessoas apresentam uma tendência a idealizar quando estão distantes ou quando não têm mais acesso a alguma coisa ou pessoa. Muitas vezes esse sentimento utópico é transferido aos parentes e amigos que ficaram no país de origem. "Todo mundo sonha com uma família perfeita. Nessa tentativa, muitos preferem fugir da realidade, que é infelizmente mais dura que a fantasia", explica.

A psicoterapeuta e psicóloga Telma Witzig, do alto da experiência de 15 anos de consultório em Basel, presenciou pacientes brasileiros que têm extrema dificuldade em se libertar das amarras da família, que espera receber ajuda financeira. Quando o patrocínio é cortado, alguns parentes consequentemente rompem as relações. "Esses pacientes querem acabar com a dependência financeira, porque os incomoda. Mas a assistência os libera da culpa, por estarem em uma situação muito melhor que a família no Brasil; e ainda tem um fator mais profundo: compra o amor e a atenção de entes que nem sempre deram valor a essas pessoas".

A aconselhadora psicológica Graziela Birrer explica que a saudade apaga os aspectos negativos e deixa somente a saudade. Sua experiência no atendimento a brasileiros em consultório em Luzerna e em Zurique mostra que a culpa por estar bem é outro peso carregado por esses estrangeiros, principalmente por quem tem família mais carente no Brasil. "Além do remorso, essas pessoas carregam uma sensação de dívida eterna", explica.

Análise intercultural da interdependência familiar

As categorias culturais coletivismo e individualismo são vistas por alguns treinadores interculturais como as maiores responsáveis pelo implícito sentimento de solidariedade esperado por alguns integrantes da família que ficou no país de origem. Segundo a Teoria de Dimensões Culturais de Hofstede, que analisa sociedades sob essa ótica, nos grupos mais individualistas, as crianças aprendem a tomar o caminho do outro; opiniões pessoais não contam muito. A lealdade ao grupo é extremamente valorizada e isso se estende à esperada divisão de bens.

Em seu livro Culturas e Organizações: o software da mente (em inglês Cultures and Organizations: software of the mind, de 2010), Hofstede explica que, nesse tipo de cultura, se um integrante da família tem um emprego remunerado, é esperado que esse componente ajude. Na escala de dimensão cultural, o Brasil ocupa o 38° lugar na categoria e os Estados Unidos a posição 91°, a mais alta do ranking.

A psicóloga intercultural Simone Torres Costa, no entanto, alerta para o fato de não generalizar e estereotipar o país. Autora do livro Desconstruindo o Brasil: entre carnaval, futebol e garotas em pequenos biquínis, Simone acredita que a dimensão de Hofstede não consegue explicar exatamente o Brasil, que é um país muito complexo. Ela atribui à problemática da interdependência a questão social e a região, já que esse tipo de dinâmica é menos esperado por famílias mais abastadas ou moradoras das maiores cidades. 

17 de julho de 2017Estratégias para lidar com a emoção e transformá-la em aliada

Se tem um sentimento que todo migrante vai ter ou já experimentou é a saudade. Pode ser de casa, de um cheiro, da família, de um som, não importa. 

Saudades: um sentimento que bate sempre nas horas que o migrantes menos espera.

Saudades: um sentimento que bate sempre nas horas que o migrante menos espera.

(swissinfo.ch)

A emoção se faz democrática, não escolhe raça, cor, credo ou condição social. Traiçoeira, pode desencadear doenças nos mais suscetíveis e atrapalhar planos de carreira internacionais ou arruinar casamentos e famílias, separando casais que não vêm da mesma cidade. Vaidosa, quer ser encarada de frente, até mesmo celebrada, mas em nenhuma hipótese ignorada. Ciente dessas nuances e caprichos dessa velha e conhecida senhora, dá para enfrentar o desafio de mudar de país e amenizar o problema.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A melancolia por estar longe de casa é sorrateira; muitas vezes difícil de expressar e às vezes até mesmo de identificar. Estudo de Dieu Hack-Polay, intitulado A saudade e estratégias sobre como lidar com problema entre trabalhadores imigrantes e expatriados, publicado no Jornal Internacional de Psicologia, sugere que o sentimento mal trabalhado pode mudar o apetite, padrões de sono, náusea e até tontura, com capacidade até de desenvolver uma depressão. Em casos extremos, tem o potencial de desencadear ataques de pânico.  Seus sintomas podem vir mascarados como problemas de concentração, desorientação, tristeza e recorrentes mudanças de humor.

Saudade da família ou de você mesmo?

A médica naturalista Patrícia Quito de Oliveira trata em seu consultório, em Zurique, inúmeros imigrantes, de variadas nacionalidades. A experiência nas consultas mostra que a saudade é uma reclamação constante e protagonista de muito sofrimento. Mal gerida alimenta a inércia e a insegurança, provocando um círculo vicioso. Muitas vezes, funciona como uma muleta para não encarar a nova realidade, levando os pensamentos do imigrante para o bem-estar confortável daquela vida antiga e do desconforto com o imprevisível.

"A saudade é também um sentimento nobre, bonito. Não deveria estar ligada somente ao aspecto negativo. Há que ter cuidado para não usar a emoção como subterfúgio de insegurança e desculpa para não agir", enfatiza Patricia. Segundo a médica, os medos e a melancolia podem facilmente se tornar muleta para que o migrante permaneça na zona de conforto. O saudosismo exacerbado está ligado também à instabilidade e à insegurança que a vida em outro país ou em outro ambiente cultural traz.

De acordo com Patrícia, muito do que se chama saudade tem a ver com medo de encarar o novo, de se desfazer dos laços com o cômodo. "Recomeçar longe de casa e sem o apoio de sua rede de contatos é muito incômodo, difícil mesmo. Eu diria que o segredo é saber aceitar a sua escolha, que te levou a essa diferente caminhada, e se conscientizar das perdas e ganhos dessa opção", explica. A incerteza faz parte da vida de um imigrante, porque deixar o país é reiniciar.

Patricia Quito Oliveira 

(swissinfo.ch)

A vulnerabilidade gerada pelo processo de aculturação ainda tem o poder de maquiar a sensação, nomeando-a de saudade da vida antiga. Mas na verdade, muitos carregam o pesar de ter se perdido após ter emigrando. Na prática, é saudade delas mesmas, do que eram, e da insatisfação com o que ainda não se tornaram. 

A falta do alguém ou de algo também tem um outro mérito. Segundo a médica naturalista, o vazio alerta para o valor das pessoas e até mesmo aproxima os familiares, que muitas vezes se falam com menos frequência quando vivem próximos.

Como amenizar a saudade:

• Converse com amigos, com um psicólogo ou com um coach intercultural sobre como se sente

• Mantenha contato com os que ficaram

• Encoraje a visita de amigos e familiares

• Aceite que sente saudades. É normal; pessoas precisam ter uma rede de contatos que dê suporte

• Seja realista sobre expectativas sobre a nova vida ou fase

• Conheça pessoas por meio de associações ou clubes de esportes

• Valorize os recém-adquiridos amigos e esteja aberto a esses novos conhecimentos

• Dê a si mesmo tempo para se adaptar; não seja tão duro consigo mesmo

• Escreva três novidades ou aspectos dos quais você deveria ser grato todas as noites e três pontos que se esteja esperando com ansiedade ou que queira vivenciar

• Dê-se crédito pelo que está fazendo, pelo que irá almejar ao sair de sua zona de conforto que era a sua casa. Principalmente porque saudade pode afetar a sua autoestima

• Permita-se gostar do novo lugar, mesmo que sinta falta do seu antigo lar

• Visitar a família ou telefonar frequentemente tem dois lados: pode ser bom ou ruim. Experimente para descobrir qual se encaixa melhor no seu perfil

• Cuide do seu bem-estar físico; não se negligencie. Isso significa dormir e comer bem, além de se exercitar

• Prepare-se antes de sair do país para os desafios que ser um estrangeiro

Fontes: Universidade de Warwick, Universidade de Cambridge

Típicos sintomas emocionais e físicos da saudade:

• Perda de concentração

• Choro e tristeza

• Dificuldades para dormir ou comer

• Ondas de emoção

• Ciclo menstrual interrompido

• Náusea, dores de cabeça ou tontura

• Tremedeira, sensação de calor ou frio

Fontes: Universidade de Warwick

Padrões de pensamento de quem sofre com a saudade:

• Eu sinto muita falta dos meus amigos

• Eu tenho que voltar para casa, ou pelo menos falar ao telefone ao máximo que eu puder

• Eu quero estar com a minha família

• Eu não estou conseguindo cuidar de mim

• Eu não sei quem eu sou aqui

• As pessoas desse lugar não gostam de mim

• Esse local é como uma prisão. Eu não pertenço a esse local

• Eu tenho vontade de chorar, especialmente quando estou só

• Todos parecem legais. Por que eu pareço o estranho fora do ninho?

Fontes: Universidade de Warwick

3 de julho de 2017A saudade que machuca o cidadão globalizado

O sentimento se mostra tão arrebatador que pode comprometer os planos de uma vida plena longe do país de origem.

Mulher olhando o filho em uma fotografia

Saudades: um sentimento que acompanha o migrante em todos os seus momento.

(swissinfo.ch)

Saudade é uma emoção com diversas faces. Segundo especialistas, até um determinado estágio, funciona como sintoma de vida bem vivida. Quando demasiadamente fantasiosa, maquia a realidade e remete a um passado inventivo, mas não necessariamente verdadeiro. Se exagerada e paralisante, pode se transformar em doença ou em uma série de problemas de cunho psicológico. A sensação atinge pessoas de todo mundo e com mais força viajantes menos experientes. De tão traiçoeira, desafia os ideais de uma filosofia cosmopolita que prega um mundo sem fronteiras, onde pessoas deveriam se sentir em casa em qualquer lugar do globo terrestre.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Segundo o dicionário Aurélio, saudade significa lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que alguém se vê privado. Pode ser definida por pesar e mágoa que essa privação causa e boas lembranças ou recordações. De acordo com a página de internet da Universidade inglesa de Warwick, que tem seção dedicada a minorar a dificuldade, o ser humano nasce com necessidade de fazer ligações emocionais com pessoas, coisas e lugares. Gradualmente, essas conexões se acumulam para formar um ambiente confortavelmente estável.

"Quando saímos de casa, experimentamos um real senso de perda, como uma tristeza pela perda da morte de um amigo. O problema é que muitos ficam paralisados ou sentem de forma muito intensa", relata a autora do texto opinativo intitulado O novo globalista sente saudades (em inglês The New Globalist is Homesick), publicado no jornal americano The Times em 2012. A autora do artigo, Susan J. Matt é professora de história da Universidade Estadual de Weber, nos Estados Unidos, e autora do livro Saudades: uma história americana. Ela argumenta que outro obstáculo para quem vive a situação é a tendência ao duro autojulgamento, porque acredita-se que deveria ser capaz de lidar com o transtorno, mas não pode. Ela afirma que saudade não é sinal de fraqueza.

A necessidade de se estabelecer laços - Segundo Susan Matt, a intensa mobilidade dos dias de hoje tem custos psicológicos, mas poucos apresentam coragem de assumir. "As pessoas abraçam a visão cosmopolita que dita que indivíduos podem e devem sentir-se em casa em qualquer parte do mundo e que não há necessidade de se estabelecer laços em nenhum lugar", escreve a autora.

O problema já foi considerado mais comum em crianças ou em jovens que se mudam para estudar em universidades. Com o aumento das migrações e funcionários expatriados, o sentimento está sendo cada vez mais ligada a adultos. De acordo com estudo do psicólogo Terence Hannigan, no livro Aspectos Psicológicos de Mudanças Geográficas (em inglês Psychological Aspects of Geographical Moves), a saudade está mais relacionada à proficiência da língua do país de acolhida e também o quão distante a nova cultura se apresenta em relação à antiga. Dessa forma, conclui-se que brasileiros e portugueses na Suíça, principalmente na parte alemã, devam sofrer com o problema. As duas culturas de origem são muito diferentes; e a língua germânica bem mais difícil de ser aprendida, ao contrário da francesa e italiana.

O desafio dos expatriados – As estatísticas constatam que o mundo moderno estará cada vez mais habitado pelo sentimento. Pesquisa pelo Instituto Gallup em 2012, 1.1 bilhão de adultos no mundo querem se mudar temporariamente para outro país para encontrar um trabalho mais rentável. O Brasil, por exemplo, vive um momento parecido: a crise econômica leva a uma saída recorde de brasileiros: entre 2011 e 2015, houve um aumento de 67% no total de Declarações de Saída Definitiva do País. Muitos, no entanto, gostariam de emigrar, mas não sabem como.

O estudo do acadêmico Hack-Polay realizado em 2012, confirma que mudanças de lar sempre levaram pessoas a sentir saudade. Mais que isso, a pesquisa provou que a questão não é tão simples – em entrevistas feitas em 15 companhias com 30 expatriados demostrou que todos provaram do sentimento em algum momento, até mesmo os que já tinham experiência com a vida no exterior, ou que tinha noções básicas da língua do país ou que contavam com a presença da família.  E o pior, foi tida como causa de problemas psicológicos e rupturas sociais em imigrantes.

Impossível fugir do sentimento - Estatísticas sinalizam que cerca de 70% dos estudantes irão experimentar nostalgia nos mais recentes dias da universidade. Estudo conduzido pela agência de pesquisa voltada para o público jovem, a britânica YouthSight mostra que a sensação atinge pelo menos um terço de todos os universitários britânicos, que se sentiram deprimidos ou com tristeza por estar longe de casa.

A carioca Carolina Peixoto Monteiro veio diretamente da Austrália, onde ficou por dois anos e meio, para Wettingen, na Suíça. Há cinco meses no país, diz que hoje tem saudades do Brasil e da Austrália. Quando estava na Oceania, sentia falta da sua vida no Rio de Janeiro. O sentimento de Carolina ilustra bem o significado do sentimento de estar fora de casa. A gaúcha Flavia Loureiro, que vive na cidade de St. Gallen há um pouco mais de um ano, diz que tem saudades da família e dos amigos, do churrasco, do feijão que sua mãe cozinha e dos lanches que faziam em uma lanchonete especial de sua cidade. Para compensar a falta de tudo que deixou para morar com o marido na Suíça, ela trouxe a sua cachorrinha Mel. "Ela é um presente na minha vida, uma companheira que já me abriu várias portas. Além de nos exercitarmos em longas caminhadas, com ela acabo ainda conhecendo várias pessoas, pois sua beleza e doçura chamam a atenção", explica.

O lado bom da saudade

"Você já parou para pensar que sentir saudades é um dos bens mais preciosos da alma? Se você pretende morar em outro país, prepare-se: ela será uma das primeiras a dar boas-vindas em seu novo lar. Sentir a ausência de casa, de alguém, de momentos, cheiros e gostos ou do nosso canto é, certamente, um indicador de uma vida "bem vivida". Se você sente muito a falta de alguém querido, é sinal de que tem o coração cheio de amor e de que muitas pessoas especiais já passaram pela sua vida deixando marcas. Isso deve ser motivo para sentir muita gratidão.

Um coração vazio, que não chora a ausência de algo especial, que não se reporta a uma memória confortável e ao desejo de ter aquilo perto de novo, me dá a impressão de um coração desatento e preguiçoso para as coisas mais simples e bonitas da vida. É dolorido acordar com aquele desejo, que não pode ser atendido.

Gabriela Broll Ribeiro

(swissinfo.ch)

A saudade faz parte de nossa existência. Mas, claro, todas as sensações que ela traz são potencializadas quando estamos em terras estrangeiras… fisicamente bem longe de tudo aquilo que nos referencia. Do outro lado do oceano, é fácil se pegar com um olhar distante, num buraco profundo, com uma ferida aberta.

Para tornar a saudade mais palatável, é preciso se dar conta de como você pensa sobre ela. Não tenha medo e nem lute contra. O sentimento quer dizer que você dá valor às suas conquistas ao longo da vida: sejam pessoas, espaços e, principalmente, ao significado à sua existência. Portanto, quando a saudade chegar, tente comemorar as lembranças e depois congele em um arquivo na mente, para não se paralisar.

Onde quer que você esteja, é essencial criar estratégias para ter uma rotina agradável e com sentido. O melhor a fazer, pelo seu bem-estar e saúde mental, é deixar as ausências de lado e passar a valorizar mais o que está perto no momento atual.

Quanto mais apreciamos o que está ao redor, maiores são as nossas fontes de alegria e satisfação. Por mais que as pessoas amadas e lugares adorados estejam longe, seu dia a dia terá mais sentido se criar laços no ambiente onde se está. Recomendo alimentar o lado da gratidão pelo acesso ao novo. Mas sabe o que é mais importante? Abrir os olhos e saber que existe gente amada por perto – que eu posso tocar, olhar nos olhos e dar um abraço. Como psicóloga intercultural, tenho o dever de alertar os que estão longe: a adaptação ao novo é proporcional ao se desligar do que ficou para trás. Porque depois, e de qualquer modo, outras e outras ligações e religações serão feitas. O verdadeiro lar é onde nos sentimos bem, e, principalmente, onde fazemos os outros se sentirem bem com nossa presença.

Depoimento de Gabriela Broll Ribeiro, que é psicóloga intercultural, com mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade de Lugano. Ela vive em Londres atende migrantes há 11 anos.

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19 de junho de 2017O Brasil não é só corrupção

Uma psicóloga intercultural fala sobre a importância de não deixar a crise manchar o orgulho nacional, principalmente quando se mora no exterior.

Duas malas e uma bandeira do Brasil

Quando a vontade de retornar à pátria é prejudicada pelas más notícias publicadas na imprensa.

(swissinfo.ch)

Muitos brasileiros estão vendendo tudo, fazendo as malas e indo para o aeroporto só com uma passagem de ida. A maioria dos veículos de comunicação já noticiou o fenômeno, que não para de crescer. A Revista Exame, em artigo publicado em junho deste ano, noticia que pouco mais de 18,5 mil pessoas deixaram o país em definitivo no último ano, mais do que o dobro dos quase 8 mil que foram viver no exterior em 2011, de acordo com dados da Receita Federal. São cidadãos com carreiras consolidadas, alto nível educacional, mas que vão embora desiludidos com o país.

Ruim para o Brasil, que perde cérebros importantes; tampouco ideal para os que deixam a pátria com a sensação de vergonha. Esse desencontro com a própria cultura atrapalha a adaptação no exterior. A crise atravessada nesse momento traz à tona algumas mazelas da cultura, e uma delas é, com certeza, a corrupção. Levando-se em consideração que a valorização da identidade nacional é imprescindível para adaptação em outro ambiente cultural, fica a pergunta: como manter essa boa relação quando tudo conspira contra? 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A psicóloga intercultural Simone Torres Costa defende a manutenção desse brio por uma questão de saúde psicológica. Vivendo no exterior há 18 anos (EUA, Suécia, Polônia e Itália), é especialista no tema: escreveu tese de mestrado sobre o assunto e é autora do livro Deconstructing Brazil beyond Carnaval Soccer and Girls in Small Bikinis – Desconstruindo o Brasil: entre Carnaval, futebol e garotas em pequenos biquínis. Pelo seu currículo, Simone foi convidada pela Swissinfo para falar sobre o desafio ir embora sem perder a dignidade. 

swissinfo.ch: Se a Senhora e outros interculturalistas defendem a valorização da cultura nacional para melhor adaptação em outro país, como um brasileiro, nesse momento de crise moral, pode ainda carregar o orgulho de sua bandeira?

Simone Torres Costa: Em primeiro lugar, temos que diferenciar entre ter orgulho da nossa cultura e saber discordar dos defeitos da sociedade brasileira. Temos que dissociar esse respeito do estágio de desenvolvimento do Brasil. Ter uma relação saudável com a própria cultura implica em ver e aceitar qualidades e defeitos, e também entender o contexto histórico e sócio econômico da nossa sociedade. Ter orgulho da própria cultura, independentemente de crise e indicadores sócio econômicos, quer dizer respeitar o que somos de uma maneira adulta e realista.

Somo um país emergente apenas começando a questionar seriamente as relações coloniais onde a corrupção sempre se fez presente. Estar surpreso e em choque com as notícias da crise brasileira atual demonstra certa ingenuidade e um esquecimento da nossa história, que teve escravidão, ditadura militar e muita corrupção desde o início. Uma coisa é ficar indignado e desapontado com a situação atual do país e a outra é manter sua identidade brasileira psicologicamente saudável.

Encarar os defeitos da nossa sociedade é positivo, mas não necessariamente temos que reprovar nossas qualidades. Existem evidências científicas que comprovam que ter uma identidade saudável e equilibrada da nossa cultura de origem ajudar a nos adaptarmos melhor em outras culturas. Nossa identidade funciona como um pilar invisível, precisamos dele para saber como nos comportar socialmente. A minha pesquisa recente, trabalho da tese de mestrado que escrevi, comprova isso. Eu entrevistei 708 participantes em 69 países, e apresentei na conferência Families in Global Transition (FIGT 2017) - Famílias em Transição Global, em português - em março, na Holanda.

swissinfo.ch: Se a corrupção é uma cultura institucionalizada e embrenhada na sociedade brasileira, como os brasileiros que moram no exterior devem agir para se defender dessa imagem negativa?

S.T.C.: Esta pergunta é muito relevante e foi exatamente por isso que escrevi meu livro Deconstructing Brazil beyond Carnaval Soccer and Girls in Small Bikinis. Depois de 18 anos no exterior ainda luto para manter imagem equilibrada com minha própria identidade. Para isso precisamos conhecer melhor nossa história colonial e reavaliar nossos próprios conceitos sobre quem somos. A identidade brasileira é geralmente distorcida, pois aprendemos desde cedo a negar nossas origens africanas e indígenas e também nosso contexto histórico. Enquanto não valorizarmos e respeitarmos estes dois terços da nossa cultura fica difícil alcançar uma autoconfiança estável. Fora do Brasil somos diariamente confrontados com estereótipos e precisamos ter lucidez para nos desvincular deles.

swissinfo.ch: Lucidez em que sentido?

S.T.C.: Para não tomar somente os pontos negativos da nossa cultura. Todas têm pontos positivos e negativos. Muitas sociedades, hoje no topo do ranking das economias mais avançadas, já tiveram passados sombrios. Eu digo que é importante ter discernimento para saber que a corrupção não integra a prática de toda uma nação e que o Brasil, culturalmente falando, tem aspectos maravilhosos expressados em nossos comportamentos sociais (amigável, caloroso, aberto e carismático) e na capacidade de sobreviver e improvisar (muito comum entre os empresários brasileiros) que faz de nós um país tão apreciado em todo o mundo.

Simone Torres Costa.

(swissinfo.ch)

swissinfo.ch: O que a Senhora diria para um brasileiro que é questionado sobre a situação de seu país? O que ele deveria dizer, sem entrar na questão política e partidária?

S.T.C.: A polarização de opiniões que acontece hoje no Brasil demostra uma imaturidade política típica de sociedades onde as pessoas têm pouco envolvimento político. As pessoas reclamam, mas não sabem ainda como participar mais ativamente de processos decisórios importantes para o país. Existe uma distância grande entre a sociedade civil e a política no que se refere à participação, monitoramento e engajamento. Estamos aprendendo isso agora, precisamos exercitar o pensamento político e saber discutir estas questões sem desrespeito à opinião do outro.

O essencial aqui é focar nas decisões que precisam ser tomadas e não em partidos.  Moro atualmente na Suécia e aprendo muito sobre comportamentos dos jovens na política. É lindo ver o engajamento deles e como uma discussão pode ser acalorada e intensa, mas com respeito. É possível aprender a agir assim, mas precisamos de maturidade. Eu diria a quem sai do país decepcionado que não é necessário amar o Brasil, porque o amor advém naturalmente do respeito e da admiração. Mas há que se preservar a dignidade.


01 de junho de 2017O difícil equilíbrio entre manter a cultura dos pais e a do país de acolhimento

Muitos pais que criam seus filhos fora do país de origem vivem um paradoxo: querem garantir uma identidade brasileira ou portuguesa, mas ao mesmo tempo adaptada ao local onde vivem. 

Família na mesa durante a janta

Muitas famílias preocupam-se em transmitir a cultura materna (ou paterna) às crianças.

(sda-ats)

O medo de criar crianças desconhecidas até deles mesmos passa pela cabeça desses genitores e está longe de ser uma preocupação infundada. O respeito às características da procedência foi um ponto fundamental a ser seguido, mencionado por todos os entrevistados, tanto mães quanto especialistas. É fato: quem não valoriza suas raízes, tem problemas para se integrar em novos ambientes culturais. Mas estima à cultura do país estrangeiro também é imprescindível: por isso a necessidade de os pais se integrarem ao novo lugar, falar a língua e, definitivamente, se sentir bem nessa nova sociedade.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O possível desencontro de gerações - Outro fator complicador nessa relação é a própria diferença entre gerações, conhecido como gap geracional. Filhos e pais são distintos mesmo simplesmente pelo fato de terem nascido em épocas variadas. Em sua tese intitulada Gerações e famílias: Polissemia, mudanças históricas e mobilidade, o professor Parry Scott explica que a migração - uma mobilidade que frequentemente resulta em deslocamentos geográficos e sociais - apresenta um desafio para os estudos sobre família no tempo, já que leva a inserções em novas realidades de interpretações e de relações que precisam ser equacionadas para se entender as transformações e os mecanismos que dão continuidade ao sentimento de pertencimento a grupos familiares e de parentesco em espaços diferenciados. Scott é professor associado do Departamento de Ciências Sociais, Programas de Pós-Graduação em Sociologia e em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco.

A importância da língua portuguesa - O próprio governo suíço está ciente da necessidade da valorização do idioma do país de origem como promotora de integração e até na melhoria do idioma estrangeiro, tanto que criou o projeto Conte-me uma Estória – Family Literacy. O programa nasceu em 2006 na Suíça com o objetivo de apoiar a leitura nas famílias migrantes. O tema foi publicado na coluna Suíça de Portas abertas no dia 2 de maio.  Conte-me um Estória consiste no oferecimento gratuito de sessões de contar de estórias na língua do imigrante para pais e crianças de dois a cinco anos. A proposta é baseada em estudos que mostram que experiências variadas com a escrita e a oralidade, além de domínio da primeira língua, são fatores fundamentais que facilitam a eficiente aprendizagem da segunda língua e, posteriormente, do mecanismo da leitura na escola e desenvolvimento dos bons hábitos de leitura. 

Carmen Dragoni, do Rio de Janeiro, que vive há 33 anos na Suíça e criou dois filhos já adultos, dá o seu recado às mães mais jovens: "Tem que falar português. Não tem jeito. Como você vai se exprimir com a criança em uma língua que não é sua, que não expressa corretamente a sua emoção? E pior, ainda com erros e ensinando errado", explica. Além de falar a língua, a especialista Miriam Müller Vizentini, coordenadora Pedagógica da Associação Brasileira de Educação e Cultura (ABEC), ressalta que é imprescindível demonstrar orgulho em relação ao país de origem. 

Carmen Dragoni complementa: "a sua cultura é você. Se a mãe fala mal do local de onde vem, as crianças criadas na Suíça podem ficar confusas e até desenvolverem vergonha de sua hereditariedade. Já vi meninos que não queriam convidar os amiguinhos para brincar em casa porque os pais falavam mal do seu país de origem", conta Carmen.

Por um outro lado, não se deve criticar os hábitos dos suíços simplesmente para mal dizer. Isso também pode gerar confusão na cabeça dos mais jovens e acaba por criar um sentimento de inadequação nesses cidadãos de segunda e terceira geração.

Carmem Dragoni

(swissinfo.ch)

Íntimo dos filhos ainda que com outra criação – O grande desafio de criar família no exterior é se deparar com uma sociedade de valores muito diferentes dos seus. A interação com o novo ambiente cultural é a chave que vai propiciar a aproximação com esse filho. De acordo com a psicóloga brasileira Raquel Motta, que vive em Dubai há nove anos, se os pais estrangeiros não conseguem se inserir no novo contexto, irão perder esse lado da identidade de suas crianças. Com experiência em liderar movimento voluntário de ajuda a mulheres brasileiras naquele país, Raquel explica que famílias que emigram formam descendentes de identidade híbrida. "O meu filho namora uma jovem da Coréia. Se eu me isolar no meu mundo brasileiro, não vou conseguir entender os dilemas dele, os valores que ele carrega, que são fruto dessa sociedade, o que certamente irá me afastar dessa pessoa que tanto amo", explica. Raquel utiliza o horário do projeto A Hora do Conto de Dubai, quando crianças ouvem estórias em português, para trabalhar a psicologia de migração com mulheres brasileiras naquele país.

A brasileira Sonia Jordi, há 35 anos na Suíça, já criou quatro filhas e agora se delicia com netos. Do alto de sua experiência como genitora e como treinadora de cursos de integração na cidade de Zurique para migrantes de língua portuguesa, ela reforça o aprendizado do alemão e o respeito às duas culturas como pontos fundamentais na felicidade do imigrante, na sua integração na sociedade estrangeira e como importante ferramenta de educação das crianças. De acordo com Sonia, ela procura passar para as famílias a importância de se dominar o idioma estrangeiro. "Se os pais não dominam a língua local, não irão conseguir conversar com os amigos dos filhos, não entenderão se as crianças utilizam vocabulário apropriado, se usam palavras de baixo calão, se seguem as regras de educação. A falta de fluência na língua reduz o papel destinado aos pais, que é o de educar", diz.

Para as famílias que têm medo de terem crianças sem identidade do país de origem, Sonia dá o seguinte recado: "há filhos que vão sempre querer ser brasileiros, outros nem tanto. Uns irão até procurar voltar a sua vida profissional para o Brasil ou Portugal. Mas a escolha será sempre deles. "É um direito individual de cada um escolher o que quer ser ou seguir. Mas permita que cada um goste da sociedade onde habita. É uma escolha mais saudável para todos. No entanto, os costumes da casa serão sempre uma referência. Não tem como ignorar esse fato". Parece que o respeito às diferenças, seja à cultura ou ao seu filho criado no exterior, são a resposta a muitas das inquietações.


15 de maio de 2017Programa de boas-vindas à Suíça

O curso de integração de Zurique é uma porta de entrada para entendimento do país e melhor integração.

Sonia Jordi é uma das instrutoras do curso oferecido pela prefeitura de Zurique.

(swissinfo.ch)

A vida na Suíça funciona de maneira muito diferente da rotina do Brasil ou de Portugal. Além dos incompreensíveis costumes, quem emigra ainda tem dificuldade adicional em entender novos processos e leis por conta da língua. Para reduzir a dificuldade, a Prefeitura de Zurique criou há mais de dez anos o curso de integração denominado Viver em ZuriqueLink externo. O programa, disponível em 15 idiomas, é pioneiro e único no país; outras prefeituras ou cantões oferecem brochuras em PDF com informações práticas em português e em outros idiomas.

Informação de Qualidade - De acordo com a cidade de Zurique, em sua página na internetLink externo, vivem na cidade mais de dez mil pessoas que tem como língua materna o português, sem contar os naturalizados suíços. Ainda que a maioria possa facilmente comunicar-se e informar-se em alemão, a prefeitura considera muito importante que todos estejam bem informados.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O curso é oferecido a mulheres imigrantes de língua portuguesa e aborda lições sobre diversos assuntos que facilitam à integração no país e na cidade, como por exemplo, ensinamentos sobre o sistema de saúde, separação de lixo, história, cultura, datas festivas, política do país, sistema escolar ou organização do lixo. A iniciativa é única no país e parece seguir a boa máxima da integração: promover o empoderamento feminino por meio da informação.

Autoestima e autoconfiança - Durante três meses, toda manhã de quarta-feira, imigrantes aprendem questões práticas, fazem visitas à Câmara de Vereadores de cidade de Zurique, ao de reciclagem de lixo e ainda têm oportunidade de estabelecer contato com outras mulheres que emigraram há pouco e partilham do mesmo interesse: se integrar e aprender sobre a Suíça. De acordo com uma das instrutoras do curso, a paulistana Sonia Jordi, o curso promove um bem muito importante, o da autonomia e consequentemente a autoestima e autoconfiança. "Muitas mulheres deixam as questões do dia a dia por conta dos maridos suíços, já que o alemão é complicado. Mas se esquecem de um detalhe essencial: eles não dominam todos os assuntos e ignoram sobretudo às questões relativas às mulheres migrantes", explica.

Como informação é poder, o curso se torna válido para quem já vive no país há mais tempo, mas continua com dúvidas sobre alguns aspectos ou gostaria de ampliar seus conhecimentos sobre a história ou a política da cidade e país. Segundo Sonia Jordi, imigrantes recém-chegados normalmente vivem por um estresse muito alto devido à adaptação e a necessidade de absorção de tantas informações. Dessa forma, é uma boa ideia também aguardar caso a mulher se sinta sobrecarregada.

Ana Carolina Pires, de Tocantins, frequentou o curso assim que chegou ao país. Na sua opinião, as aulas a ajudaram a entender diversos detalhes da vida em uma cidade tão diferente. "Como meu marido também é brasileiro, nós dois não tínhamos ideia do que nos esperava em termos de regras, rotinas e sistema escolar. Escutamos muitas opiniões e conselhos, mas queríamos começar de forma correta, sem maus entendidos. Compreender sobre a coleta de lixo, por exemplo, foi muito bom, me evitou muitos problemas com vizinhos. Após o treinamento, eu tive a prova da importância da informação correta ao ver pessoas que já moravam aqui há anos e andavam com bilhete errado no bonde por desconhecimento. E o melhor, todas as explicações foram dadas na nossa língua", explica Ana Carolina.

A voz da experiência

Sonia Jordi, instrutora do Curso Viver em Zurique, reside há 35 anos na cidade e divide seus conhecimentos com as brasileiras recém-chegadas há cerca de dez anos. Com formação em jornalismo e uma vida e família já estabelecida, a brasileira tem muito a acrescentar. Sonia se diz muito agraciada pela experiência de mestra devido à oportunidade de aprendizado mútuo. "As minhas alunas não são as únicas que levam informação para casa, eu também ganho muito", explica.

A primeira lição aconteceu ao ter que estudar para ministrar as aulas. Segundo Sonia, ao preparar o conteúdo, aprendeu tanto que sabia mais sobre o país que seu marido suíço. Dessa constatação veio outra importante lição, a de que só porque a família do esposo é local que vai saber questões que interessam à imigrante. "Nem todo suíço sabe como se separa o lixo ou detalhes sobre o sistema de aposentadoria. Então não deixe seus interesses nas mãos de outras pessoas", diz. 

Outro grande ensinamento foi conhecer o Brasil como um continente e ter contato com conterrâneos das mais remotas regiões e diversidade cultural que não se tem contato quando está no país de origem.  A troca de experiências garante, dessa maneira, o aprendizado das duas culturas e de realidades diferentes. E melhor, que se encontram com o mesmo objetivo.

Programa do curso:

O programa do cursoLink externo acontece geralmente duas vezes por ano: de março a junho e de setembro a dezembro, em 15 sessões todas as quartas-feiras, sempre de 8:45 às 11:15 da manhã.

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1° de maio de 2017A literatura além da fronteira

Ler na língua de origem promove identidade cultural e melhora a integração do emigrante e de seus filhos

Filhos de brasileiros encontram literatura em português em muitas bibliotecas na Suíça. 

(swissinfo.ch)

O hábito de ler não deveria ser interrompido na travessia de uma fronteira. Com essa frase, a professora de português Denise Castro chama a atenção para a importância, nem sempre percebida, da literatura em vários aspectos na vida do migrante. De acordo com Denise, se os livros têm o poder de construir e reproduzir a mentalidade de uma época, eles conseguem também resgatar e conceber a memória poética de um povo, reforçar uma identidade cultural e até mesmo ajudar na integração dos filhos de imigrantes.

“Quando vivi em Portugal, eu ouvia muitas brasileiras relatarem que liam os livros comprados naquele país, mas que sentiam falta de algo que elas não sabiam explicar. Refleti muito sobre o tema, porque eu também vivia essa perturbação interna, até que eu descobri o que era: a necessidade de textos que nos trouxessem a nossa memória cultural, estórias que se passassem em ambientes brasileiros e que nos fizessem, pelo menos na imaginação, viajar de volta para casa”, explica Denise, que ensina português como língua de herança para filhos de brasileiros na Associação Linguarte em MuniqueLink externo, na Alemanha. 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A doutora em Linguística, Andreia Moroni e a doutora em Didática e Organização Educativa, Juliana Azevedo Gomes explicam, na Revista de Estudos Brasileiros, que a expressão Língua de Herança (LH) pode ser utilizada para definir uma língua diferente da dominante na sociedade local. Embora seja um idioma vivo no ambiente doméstico, repleto de história e significados para a família, não é o de comunicação oficial e nem o ensinado na escola formal, o que pode acarretar a perda de domínio e de sentido no uso com o passar do tempo. Dessa forma, o português ganha uma missão além da comunicação, torna-se a língua pela qual se transmite um legado cultural de brasilidade. Seus falantes muito provavelmente serão bi- ou multilíngues, e podem ter maior proficiência no idioma do país de residência que no português como língua de herança (PLH).

Memória cultural – Nesse cenário paradoxal de intimidade e distância, a professora Denise fala do valor e da dimensão que a obra literária na língua materna pode ter na vida dos filhos desses emigrantes. Se a leitura interfere no emocional e funciona muitas vezes como um alento para o adulto; para as crianças exerce a função de construtora de uma memória poética e cultural, trazendo a intimidade dos lugares do país de um dos pais, e trabalhando ao mesmo tempo a fluência da língua de herança.

Apaixonada por leitura desde criança, Denise explica que o livro é uma excelente ferramenta para entrar em contato e promover intimidade com costumes locais. A viagem proporcionada por um bom texto, segundo ela, leva até à sensação de cheiros e cores, estando onde for. “É importante que o filho de um brasileiro se sinta também pertencente à cultura dos pais e não tenha sua brasilidade expressa só no passaporte”, explica a professora.

Mas como fazer para consumir literatura brasileira ou portuguesa na Suíça? A forma mais fácil e barata seria frequentar bibliotecas internacionais, que oferecem obras em vários idiomas, inclusive em português. A aquisição de exemplares brasileiros pode ser feita em sites de vendas como Amazon e Fnac, na Europa; e até em lojas virtuais no Brasil, que entregam no continente mediante pagamento de frete. Na Suíça, os brasileiros e portugueses podem frequentar as bibliotecas interculturais, que oferecem livros em outros idiomas, inclusive em português.

Falar a língua de origem com os filhos, entretanto, é uma decisão pessoal de cada imigrante. Denise explica que não há regra nem obrigatoriedade. A professora de português como língua de herança, Miriam Müller Vizentini, diz que a resolução pelo português favorece a integração da própria criança, já que reforça sua autoestima ao mostrar a ela onde estão suas raízes. “Ninguém pode valorizar aquilo que não conhece”, explica Miriam, que tem experiência de 20 anos no ensino da PLH na região de Baden, Suíça.

Contar estórias na língua de origem melhora a proficiência do alemão 

O projeto Conte-me uma Estória – Family Literacy – nasceu em 2006 na Suíça com o objetivo de apoiar a leitura nas famílias de origem migrante. O programa consiste no oferecimento gratuito de sessões de contar estórias na língua do imigrante para pais e crianças de dois a cinco anos. A monitora convida famílias do idioma específico para o encontro, no qual pais e filhos são convidados a cantar, a fazer jogos e trabalhos manuais simples. A proposta é baseada em estudos que mostram que experiências variadas com a escrita e a oralidade, além de domínio da primeira língua, são fatores fundamentais que facilitam a eficiente aprendizagem da língua alemã e, posteriormente, do mecanismo de leitura na escola, ou seja, promove um desenvolvimento dos bons hábitos de leitura. 

Ana Amelia, contadora de estórias em língua portuguesa da Biblioteca de Aarau. 

(cortesia)

O projeto parte do princípio de que os pais são os principais avaliadores e uma referência indispensável da criança no processo de aprendizagem da língua e no seu desenvolvimento. Dessa forma, o programa apoia os pais na promoção do desenvolvimento da linguagem, fomentando o gosto pelos livros e a criação dos hábitos de leitura nas famílias de origem migrante, incentivando-as a cuidar e a valorizar o seu idioma.

O programa foi criado pelo Instituto Suíço de Meios de Comunicação para Crianças e Jovens (SIKJMLink externo, na sigla em alemao). Após dois anos de implantação, ganhou prêmio Alpha da Comissão Suíça da UNESCO para a Luta contra o Analfabetismo e em 2010 foi agraciado com o prêmio Orange da UNICEF para a Promoção do Diálogo Intercultural. O SIKJM para língua portuguesa está presente em 15 cidades, de acordo com uma página da internet. O objetivo, no entanto, é ampliá-lo para todo o país e com o maior número de línguas possível. Dependendo da região, há sessões de leitura em albanês, alemão, árabe, curdo, bósnio, sérvio, espanhol, francês, português, tamil e turco.

A paulistana Ana Amélia Pace participa do programa de língua portuguesa e conta estórias para crianças na biblioteca de Aarau. Além de livros, ela utiliza uma técnica japonesa de narrativa chamada Kamishibai, na qual as figuras ilustrativas são colocadas numa espécie de janela, isto permite que o narrador passe as ilustrações e tenha maior interatividade com o público.

De acordo com Ana Amélia, o projeto a cativou porque tem uma característica muito especial: o fato de as atividades serem feitas entre pais e filhos. “No passado, não se tinha essa ideia, mas hoje sabe-se que, para a integração, é fundamental a participação dos pais”, explica a contadora de estórias, que é professora de português e francês e trabalha voluntariamente no projeto há um ano.

A contadora leva sempre o filho de três anos às sessões. O menino é a prova viva de que leitura ajuda a desenvolver a linguagem. No sábado em que a swissinfo.ch visitou a sessão, o clima entre as crianças era de entusiasmo e entrega, todas muito participativas, falando um português igual a qualquer outro brasileirinho que viva no Brasil. Vale a pena investir no aprendizado do idioma dos pais, mesmo que dê um pouco mais de trabalho.

Mais informações sobre Conte-me uma estória: http://www.sikjm.chLink externo

Bibliotecas Interculturais na Suíça têm à disposição livros em várias línguas: http://www.interbiblio.ch/interbiblio/karte.htmlLink externo

Aulas de português: http://www.abec.chLink externo​​​​​​​

18 de abril de 2017É preciso desmitificar o Brasil para viver em paz em outros países

Ela é brasileira mas escreveu um livro em inglês para contar aos estrangeiros como funciona o Brasil. A ideia surgiu da necessidade de explicar essa complexa sociedade, mas acabou por ajudá-la a fortalecer sua identidade nacional. Simone Torres Costa é mestre em psicologia e coach intercultural e vive no exterior há 17 anos.

Muitas vezes é necessário explicar como funcionam os brasileiros.

(sda-ats)

O livro Deconstructing Brazil: Beyond Carnival, Soccer and Girls in Small BikinisLink externo (em português "Desconstruindo o Brasil: entre carnaval, futebol e garotas em pequenos biquínis"), desmitifica crenças de um país multicultural e reforça a importância de se estabelecer uma relação mais saudável com a história e identidade do país de origem, primordial para driblar melhor o processo de adaptação, ajudar na construção da segurança psicológica e uma consequente vida mais feliz no exterior.  

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Por que a Senhora decidiu escrever um livro sobre o Brasil e em inglês?

Simone Torres Costa: Porque era muito frustrante para mim ver que o Brasil tem uma imagem tão deturpada no exterior. Eu observei que, ao conduzir meus treinamentos interculturais, eu precisava explicar o que é o nosso país e o quão complexo se apresenta para nós mesmos e para os outros povos. E eu realmente não queria apresentar essa sociedade de forma muito superficial, então eu pesquisei história, li antropólogos como Darci Ribeiro e entrevistei outros profissionais. Esse livro, então, foi mais dirigido aos estrangeiros, mas é de importante ajuda nossos conterrâneos também.

Pesquisar sobre o Brasil me ajudou a fortalecer a minha identidade enquanto brasileira migrante. Apesar de psicóloga, também vivencio os desafios de morar fora. E não é fácil para nós brasileiros vivermos ao Norte do mundo, onde a cultura é tão diferente. Emigrar engloba um processo de mudanças internas muito profundas e conhecer e valorizar a nossa cultura devem fazer parte desse fenômeno.

swissinfo.ch: O que mais surpreendeu a Senhora ao tomar conhecimento de fatos históricos antes ignorados?

S.T.C.: Foi primeiramente o nosso desconhecimento, enquanto povo brasileiro, em relação aos indígenas e às influências sofridas por esses predecessores em nossa vida contemporânea e também nosso “esquecimento seletivo” sobre a escravidão e seus impactos na nossa cultura. Não por nossa culpa, mas por terem maqueado tanto a realidade histórica daquela época.

O livro demorou quatro anos para ficar pronto. Nesse processo, conheci o historiador e arqueólogo Edson Gomes, que é um profundo conhecedor dos indígenas. Ele tem um museu particular em Campinas sobre essas culturas, morou na Amazônia e já visitou mais de 200 aldeias no país. E o mais curioso é que o público frequentador desse local são os estrangeiros; os brasileiros praticamente o desconhecem. Nós infelizmente não fomos estimulados a nos interessar pela cultura indígena e a dos negros. Quem nos contou a nossa história foram os colonizadores; nesse processo, muita coisa se perdeu.

Eu comecei a pesquisa para entender de onde vínhamos e acabei por descobrir a riqueza de uma cultural nativa, a enorme influência que esses povos tiveram e têm na nossa vida hoje e que sequer sabemos. Para dar um exemplo do quanto ignoramos isso, pergunto como é formada a etnia dos nossos antepassados? Nós não sabemos. Até onde foi a influência dos povos indígenas na nossa vida? Tão pouco temos certeza devido à borracha que foi passada nesse período, o que é uma lástima para nossa identidade nacional.

swissinfo.ch: O capítulo cinco descreve a herança colonial que formou a nossa sociedade e nos fez sermos hierárquicos, por exemplo. Relacionado a isso, a Senhora explana sobre a utopia de que somos um povo aberto à diversidade cultural. Poderia explicar um pouco mais?

S.T.C.: Vivemos há séculos com a crença de que somos um caldeirão multicultural. Na verdade, pertencemos a uma sociedade que dificilmente se mistura. Basta olhar para a nossa diferenciação de classes, para o racismo, para a negação das nossas origens, tanto indígena quanto africana. Ninguém quer dizer que tem um negro na família, mas o tataravô europeu é comemorado. Não somos dividimos em ricos e pobres simplesmente, mas subdivididos em diversas faixas econômicas e sociais.

Eu mostro no livro a foto de um escravo descalço, que representa exatamente essa diferenciação de status, que já teve início naquela época. A classe mais baixa de escravos era a dos recém chegados, que ainda não falavam o português, depois vinham os que falavam a língua da corte, uma classe acima era a dos nascidos em território nacional e assim sucessivamente.

Com a Abolição, eles se tornaram a classe mais baixa do país como um todo, já que foram morar no que é conhecido como a primeira favela brasileira. Ao ignorarmos essa forte característica da nossa sociedade, nos enganamos e estranhamos o fato de que em outros países as pessoas não funcionam dessa maneira. Em pensar que a nossa primeira constituição de 1924 não ter mencionado a escravidão já mostra o quanto a nossa história foi contada de maneira diferente da realidade.

swissinfo.ch: Então a Senhora acredita que essa visão errônea da nossa história pode nos atrapalhar no processo de aculturação em outro país?

S.T.C.: Eu respondo essa pergunta baseada na minha dissertação de mestrado em psicologia pela Universidade de Lund que concluí. Estudos demonstram que, quando o imigrante mantém e valoriza a sua cultura, ele se adapta melhor psicologicamente. Esse é, inclusive, o grande dilema da adaptação: para eu poder melhor me adaptar naquele país, preciso negociar comigo até que ponto estou preparada para incorporar a nova cultura e manter a minha própria. Obviamente esse é um processo muitas vezes inconsciente.

Torna-se saudável, nesse caso, manter o equilíbrio entre manter nossa identidade nacional e, ao mesmo tempo, que assimilar novas culturas. Este equilíbrio é essencial e se faz necessário cuidar para que este dilema não se converta em algo conturbado, doído. Esse tipo de desajuste pode trazer até doenças como depressão. 

Simone Torres Costa.

(swissinfo.ch)

O processo de aculturação, que é quando imigramos e somos “convidados” a incorporar alguns pontos da cultura do país estrangeiro, não é fácil. Com ele, vem o dilema de manutenção do seu antigo mais o novo que precisa entrar. E então fica a pergunta interna: o quanto eu mantenho da minha cultura de origem e o quanto eu assimilo a cultura nova? Por uma questão de “espaço interno”, a pessoa começa a negociar consigo mesma como será essa redistribuição. Tem gente que se sai bem, incorporando um pouco da nova e mantendo suas raízes. Outras não. E uma coisa é certa, quanto mais o imigrante renega as suas origens, mais conflitos de identidade terá nessa fase.

A negação da nossa história prejudica, já que a falta de reflexão sobre quem somos interfere na nossa identidade e nos atrapalha no momento da aculturação. Pois eu então aconselho: tenha convicção de quem você é sem vergonha, aliás com muito orgulho. Se eu venho de um país pobre e vou para um mais desenvolvido, vou levar isso na minha bagagem. Mas algumas pessoas, de uma forma inconsciente, fazem um tremendo esforço para ficar igual ao outro. Isso atrapalha a performance dessa pessoa, porque ela não é igual a outra, ela é única. Dessa maneira, muitos imigrantes tornam-se inseguros quando chegam próximos a um europeu, por exemplo. O resultado é que se colocam em dúvida, com a identidade nacional colocada à prova também. Eu mesma já vi clientes brasileiros, com currículos valorizados no mercado internacional, se sentirem muito inseguros quando trabalham fora do Brasil.

swissinfo.ch: Quais seriam os maiores ensinamentos que desse livro para um brasileiro?

S.T.C.: Com certeza seria a importância da consciência cultural e das reflexões necessárias a esse respeito. É importante se questionar sobre qual a verdadeira imagem que temos de nós mesmos e qual estamos engolindo só porque interessa a um determinado grupo. Repensar a nossa história enquanto nação e repensar alguns pontos obscuros e paradoxais em relação à nossa identidade são essenciais. Por exemplo, será que eu tenho mesmo que esticar os meus cabelos só para negar uma possível associação com escravos, e ao mesmo tempo sair espalhando aos quatro cantos que somos uma nação que aceita a diversidade?

Isso atrapalha a nossa autoimagem. Mas conhecer a nossa história e aceitar nossa identidade, pelo contrário, ajuda a nos reconhecermos na nossa sociedade ou fora dela. Porque a identidade é o nosso pilar psicológico e guia o nosso comportamento. Se eu acho que minha cultura é feia, por que eu falaria português com meus filhos, por exemplo, se estivesse morando no exterior? 

3 de abril de 2017A solidão que ronda o brasileiro no exterior

A Suíça, por ser uma sociedade individualista e focada na administração do tempo, pode aumentar a sensação de falta de contato interpessoal

Solidão é um sentimento que atinge não só idosos. 

(Keystone/V. Schulz)

No vilarejo de Dielsdorf, no cantão de Zurique, existe uma casinha de estilo boneca, com cortinas de renda e corações, onde funciona o Café Mit Hertz. Mais que um restaurante, é um local onde pessoas se encontram para trocar ideias e conversar. Ali, rodeadas por uma lareira, artesanato, bebida quente, waffles e bolinhos, elas são estimuladas a dividir a mesa e a interagir. E o melhor, pagam o quanto acham que devem. Não há preço fixo, somente contribuições.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O lugar, idealizado por Lidia Vitkovsky, faz parte de uma associação chamada Ein Herz für Mitmenschen e tem como objetivo a promoção do contato interpessoal. No local, só trabalham voluntários. O dinheiro vem das contribuições à associação, dos artesanatos produzidos por donas de casa e pessoas que também frequentam o café para fazer amizades. De acordo com Lídia, após passar por uma crise de estresse, o chamado burnout, percebeu a carência de aproximação humana que acomete as pessoas na Suíça. Após se recuperar, ela teve a ideia de abrir um espaço onde as pessoas pudessem se aproximar sem ter que pagar, o que não funcionaria em um café normal, onde cada um se senta em sua mesa individual. "A gente só percebe a falta de diálogo quando tem um problema. Quando falamos sobre nossas dificuldades, nos damos conta de que existem outras pessoas carentes, ávidas por dividir seus medos, mas que muitas vezes não têm coragem de mostrar suas fragilidades", explica.

A teoria de Lídia se confirmou na apuração dessa matéria: assim que o tema solidão foi levantado e jogado em um grupo de discussão, inúmeras mensagens de brasileiras residentes na Suíça surgiram, a maioria relatando que já se sentiram sozinhas desde que vieram morar no país. A sondagem qualitativa perguntava se elas já haviam vivenciado solidão e em que situação eram mais fortemente confrontadas com o problema. Das 15 respondentes, três disseram não ter a sensação; mas 12 relataram que a percepção de isolamento ronda suas vidas em várias situações. A segunda confirmação veio por meio dos agradecimentos: elas relataram satisfação em poder dividir seus medos e inseguranças no grupo e em saber que haviam outras com as mesmas questões.

Doença e pouco bate-papo

Falta de apoio emocional em diversas situações e dificuldades com amizade foram as campeãs da pesquisa, com dez e oito pontos respectivamente; logo atrás veio o quesito Festas e Comemorações, que de certa forma também estaria ligada à distância da família (seis entrevistadas); a falta de identidade cultural e as condições climáticas – no caso inverno longo e rigoroso (duas respostas cada) e, por último, com apenas um ponto, a mudança hormonal. A ocupação profissional foi dita por duas entrevistadas como razões para não se sentirem sós; uma disse que a religião e o contato com a comunidade da igreja ajudam a lidar com a questão.

A situação na Suíça

Diante dos depoimentos, estudos e diferenças culturais calcadas maior ou em menor proporção nas relações interpessoais, não há como negar que o isolamento ronda a vida do estrangeiro. Na Suíça, entretanto, a situação é especial e, algumas evidências mostram que até mesmo os locais gostariam de ter mais contato humano. Não fosse assim, a criação de um espaço dedicado à formação de amizades não teria sido necessária.

Lidia Vitkovsky frente ao Café Mit Hertz.

(swissinfo.ch)

Mais que isso, o país é considerado, de fato, difícil para os estrangeiros, apesar de apresentar altos níveis de qualidade de vida e segurança, além de salários competitivos. Relatório do Observatório de Saúde da Suíça (ObsanLink externo, na sigla em alemão), atesta que cerca de um terço dos suíços se sentem sozinhos, em uma escala que vai de esporadicamente até praticamente todos os dias.

De acordo com o levantamento com expatriados feito pelo grupo HSBC em 45 países do mundo, o Expat Explorer SurveyLink externo, a Suíça ocupa o quinto lugar no ranking. A pesquisa, realizada pelo nono ano, tem o objetivo averiguar as melhores nações para vivência internacional.  As categorias avaliadas são divididas em Economia, Experiência e Família. Entretanto, quando julgados alguns critérios referentes à Experiência, que integra a análise das esferas Integração e Possibilidade de se fazer amigos, a nota cai e a Suíça passa a ocupar 42° lugar.  Exatamente nesses quesitos as avaliações do Brasil sobem consideravelmente, o que mostra a discrepância e as evidentes diferenças entre as duas culturas.

A carioca Camila Brum, entrevistada pela enquete qualitativa feita pela swissinfo.ch, achava que por ser muito sociável e comunicativa, faria amigos facilmente. Moradora de Berna, ela diz que a expectativa se mostrou um ledo engano. "Os círculos de amizade são muito fechados. Quantos domingos passei sentindo falta de mais contato humano. Eu ligava para casa e a família estava toda reunida. Melhorou muito depois que minhas filhas nasceram", diz.

De acordo com a advogada *Paula Soares, também residente em Berna, ela se sente só quando enfrenta um problema particular e não consegue dividir suas inquietações. "As pessoas são muito individualistas. Ninguém tem tempo de te ouvir, a não ser que seja para negócios ou trabalho", lamenta. Lídia, a fundadora do Café Mit Herz, teve a inspiração baseada justamente nessa sensação. "Quem não conhece o sentimento de ir a uma loja e se perguntar o que eu fiz à vendedora que não fala um oi?  Parece que há um medo de trocar experiência", diz Lídia, que nasceu no país, mas tem ascendência espanhola.

A brasileira Priscila Wolf reclama que se sente sozinha em várias situações do dia a dia: nas duas vezes em que engravidou, quando voltou para casa com os filhos após o nascimento deles, quando está doente ou até feliz, em tomadas de decisões, quando gostaria de mais cabeças culturais parecidas para trocar ideias. "Mas no momento, a minha solidão se chama inverno", explica Priscila, que deu essa entrevista em um dia muito frio.

Imigração e desintegração dos relacionamentos

De acordo com o estudo Imigração: destruição e reconstrução do eu, do psicólogo Renu Narchal, a migração, que é uma viagem do conhecido para o desconhecido, provoca uma mudança no espaço pessoal, ancestral e cultural. Uma das consequências é a desintegração dos relacionamentos construídos ao longo da vida, que é extremamente dolorosa e gera um sentido de tristeza quando interrompido. As narrativas do estudo, que investigaram como estudantes imigrantes sentiam solidão na Austrália, mostram que, com adultos, a angústia é experimentada diante de uma separação inexplicável e no sofrimento com a perda de uma base segura. A imigração é acompanhada, em muitos casos, também por sentimento de supressão da língua nativa e da própria identidade.

O livro holandês Aspectos Psicológicos de Mudanças Geográficas, de Miranda Van Tilburg e Ad Vingerhoets, uma compilação de 14 artigos científicos sobre o assunto, sugere que o suporte social está diretamente relacionado ao aumento de velocidade e qualidade da adaptação, ajudando a desconectar o processo do estresse e doenças. Dessa maneira, todos os tipos de amparo (emocional, financeiro e informativo) têm uma importância crucial nesse processo e no sentimento de bem-estar do imigrante, já que ele perde exatamente isso quando sai do seu país.

Abra as portas do novo mundo e saia do seu isolamento

O psicólogo brasileiro Vivaldo de Oliveira Júnior explica que é preciso diferenciar solidão de depressão, em primeiro lugar. Depressão é uma patologia e dura tempo, acometendo a pessoa de tristeza e outros sintomas por semanas seguidas. Solidão é um momento passageiro e pode acontecer com qualquer estrangeiro, principalmente quando se vem do Brasil. Em uma cultura como a brasileira, a pessoa está acostumada a ter mais contato com o outro, a comer um bolo na casa do vizinho, por exemplo, sempre de forma espontânea, situação mais rara aqui na Suíça.

Para driblar a solidão, no entanto, Vivaldo diz que é essencial abrir as portas, conhecer gente nova, ou seja, tentar criar uma nova rede de contatos. "Sentir-se sozinho ou não está em suas mãos. É você quem vai quebrar essa barreira e recriar o que você tinha no antes no seu país de origem. Se você se mudasse de cidade, seja no Brasil ou em Portugal, também não teria que fazer isso?", explica o psicólogo, que cita Freud para explicar que é necessário se desapegar do que ficou para começar uma nova fase.

De acordo com Vivaldo, isso não significa que seja necessário esquecer do passado ou das amizades anteriores. Pelo contrário, é preciso acrescentar ao que já existia. "Muitas vezes temos medo de incomodar e telefonar para um amigo ou conhecido. Mas devemos tentar sair da zona de conforto mesmo", diz. Outra lição de Vivaldo para lidar com a imigração é lembrar-se sempre de que somos como as borboletas, seres em transmutação, em desenvolvimento e que, às vezes, precisamos encarar um estágio de solidão para crescermos enquanto seres humanos.

*Alguns nomes foram modificados a pedido das entrevistadas.

Os maiores causadores do sentimento de solidão

 

 

Falta de apoio

Em casos de doença

Tomadas de decisão

Pessoas muito ocupadas e sem tempo de ouvir

Gravidez e nascimento dos filhos

Distância da família

 

 

11 entrevistadas

 

 

 

Amizade

Falta das amigas da infância para falar e rir

Vontade de conversar com quem conhece há anos

Dificuldade de fazer amizade na Suíça

Poucas mentalidades culturais similares

 

 

 

10 entrevistadas

Celebrações de festas e comemorações

A falta da família em épocas especiais

 

6 entrevistadas

Condições climáticas

Inverno longo e rigoroso

2 entrevistadas

 

Identificação cultural

Falta de identidade com cultura local, que aumenta a sensação de ser estrangeira

Não entendimento de brincadeiras, piadas

 

 

2 entrevistadas

 

Mudança hormonal

Os ciclos interferem no humor e consequentemente na sensação de solidão

 

1 entrevistada

 


16 de março de 2017Imigrantes viram empresários para driblar o fechado mercado suíço

Se as empresas não me aceitam, eu crio a necessidade lançando o meu produto. Esse pensamento resume um perfil de pessoas que busca uma colocação profissional na Suíça: a de pessoas que emigraram.

Capacity Zurich auxilia estrangeiros que queiram começar um negócio ou estabelecer uma iniciativa cultural e social no país. 

(swissinfo.ch)

Com permissão para trabalhar e muitas vezes qualificados, ficam presos no bloqueio do fechado mercado suíço. Abrir o próprio negócio pode ser a única opção para muitos deles diante dos inúmeros obstáculos que impedem a inserção no mundo corporativo. O empreendedorismo, dessa forma, apesar de ser uma chance de inserção ao mesmo tempo muito instigante e promissora, pode se tornar uma alternativa mais arriscada, por ser tocada por estrangeiros em terras parcialmente desconhecidas.

Na última década foram criadas cerca de 400 mil empresas na Suíça (algumas estatísticasLink externo). Cerca de 70 por cento desses negócios pertencem a suíços e 30% a estrangeiros, oriundos de diferentes países. De acordo com estudoLink externo preparado pela Crif para o jornal suíço Tages-Anzeiger, publicada em outubro de 2016, a estatística sugere que os estrangeiros teriam um perfil mais arrojado do que o povo local, o que não é surpresa, já que imigração denota risco e coragem para enfrentar novidade.

Empreendedorismo de mãos dadas com imigração - A pesquisa realizada em 2013 pelo Serviço de Informações Econômicas da Consultoria Bisnode D&B diz que 40% das empresas e 75% das startups de alta tecnologia na Suíça são fundadas por pessoas de outros países, número ainda maior que o estudo da Crif. O estudo confirma que os estrangeiros mostram uma grande abertura para fundar suas próprias empresas.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Infelizmente não é exclusividade da Suíça o fato de os cidadãos de outras nacionalidades serem ignorados quanto ao reconhecimento da importância na geração de renda. Basta acompanhar a polêmica do presidente Donald Trump e demonstrações pela Europa sobre a contribuição dos imigrantes para com a prosperidade mundial, com a criação de postos de trabalho e com diversidade de ideias para países que precisam de novidades.

De acordo com Peter Drucker, autor do livro Inovação e Espírito Empreendedor (1987), esse perfil de pessoas sempre inova e a renovação constitui-se em instrumento especifico desse espírito, que tem a nova capacidade de criar riquezas. E existe algo mais ligado à reinvenção que a emigração?

Os pontos fortes em se abrir o próprio negócio são óbvios para qualquer um: geração de renda, de emprego para o indivíduo e para o meio onde vive, além da realização pessoal. Os pontos sensíveis estariam em detalhes como visão enviesada do mercado, enxergado com olhos da antiga cultura; no desconhecimento da língua, na falta de apoio e aconselhamento técnico e na reduzida rede de contatos. Dessa forma, vale a pena o preparo, porque há um enorme mercado esperando por novas ideias.

Visão cultural ampliada

Desconhecimento do mercado e visão enviesada da realidade cultural do país de acolhida devem ser evitados a todo custo. A treinadora intercultural e especialista em recolocação executiva internacional Anne Claude Lambelet explica que esse é um ponto suscetível importante, principalmente no caso de pessoas de outras nações. De acordo com Lambelet, muitos imigrantes avaliam o país de acolhida sob a ótica que trazem de suas nações. A consultora tem experiência de mais de 25 anos em ajudar estrangeiros a buscar emprego ou montar negócio, tem sua própria empresa da ACL consultoriaLink externo e é presidente da Sociedade para Educação, Treinamento e Pesquisa Intercultural – SIETAR/Suíça, sigla em inglês para Society for Intercultural Education, Training and Research.

A consultora conta a experiência de uma cliente, que queria importar dos Estados Unidos para Genebra lâmpadas e decoração de natal que ela achava que não havia na Suíça. "Tentei convencê-la de que apesar de funcionar maravilhosamente na América, isso não iria vingar aqui. As pessoas iriam reclamar dos custos da decoração, repassados aos cidadãos em forma de imposto. A proposta não era ecológica, já que usava muita energia elétrica, um recurso limitado. Além disso, a cidade compraria uma vez, mas não renovaria a decoração anualmente, já que o consumismo não é um fator preponderante na Suíça", explica Anne-Claude, ao falar da perspectiva baseada somente na cultura de origem e a necessidade de ter o olhar de peixe, que é a capacidade de ver em 360 graus, sob todos os ângulos.

Anne-Claude Lambelet alerta para os riscos de visão limitada sobre a cultura do país de acolhida.

(swissinfo.ch)

Dessa maneira, a especialista aconselha: contrate um coach, um especialista que possa guiar e ajudar na tomada de importantes decisões, faça um estudo detalhado do mercado, uma investigação dos concorrentes, dos hábitos de consumo, das oportunidades reais de nicho e, sobretudo, um plano de negócios, o conhecido "business plan". 

Quando o dinheiro é curto mas o projeto interessante

Apoio técnico e aconselhamento custam caro. Mas não é por isso que o estrangeiro precisa desistir. Se a ideia é boa e viável, existem organizações sem fins lucrativos que têm como objetivo a inserção de pessoas com experiência de imigração e asilo, com visto de trabalho no mercado suíço. A Capacity Zurich, localizada em Zurique, é um exemplo e foca nesse público específico. Com o slogan "Apoiando o potencial humano", a organização auxilia estrangeiros que queiram começar um negócio ou estabelecer uma iniciativa cultural e social no país.

Oportunidade - Com o apoio de parceiros como UBS, Cantão de Zurique e Impact HUB, a Capacity Zurich abre as inscrições para o segundo ano do programa de mentoring, que vai de maio a novembro de 2017. Durante esse período, um time de especialistas irá guiar os futuros empresários, seja em encontros individualizados ou sessões de trabalho regulares. Além disso, esses imigrantes terão a oportunidade de participar de workshops conduzidos por especialistas de companhias suíças e eventos para expandir redes de contato.

A Capacity Zurich ofereceu atendimento a 11 imigrantes no ano de 2016. Desse total, três conseguiram abrir suas empresas. A história de sucesso da Organização, no entanto, não deve ser medida somente pelo êxito financeiro dos participantes. De acordo com a idealizadora da Organização, a britânica Emily Adams, muitas pessoas disseram que só o fato de terem ganhado a experiência e conhecimento com o programa já foi uma vitória considerável em suas vidas.

A ideia de iniciar o programa surgiu, há quase dois anos, após conversar com uma amiga psiquiatra que trabalha com imigrantes vítimas de tortura e guerra. Além disso, Emily, que é bióloga e tem doutorado em Geografia Humana, também carregava a frustração de saber que seu diploma e profissão não eram aceitos na Suíça.

"Se quisermos viver uma sociedade aberta a novas coisas, onde cada indivíduo possa alcançar seu potencial, e onde a diversidade seja vista como uma força, é preciso apoiarmos o encontro entre pessoas de diversas origens. O mais interessante no Capacity Zurich é que os suíços participam desse processo como treinadores", explica a fundadora. O objetivo da Organização é apoiar pessoas como refugiados e migrantes para que desenvolvam novos modelos de cooperação e interação, para que alcancem seu pleno potencial na sociedade suíça.

08 de março de 2017swissinfo.ch agora na Rádio Lora de Zurique

O programa "Pausa Café", da Rádio Lora, passou a transmitir a partir de 7 de março matérias da coluna Suíça de Portas Abertas. 

A autora do blog, Liliana Tinoco Baeckert (esq.) e a jornalista Thaís Aguiar.

(swissinfo.ch)

Dirigido à comunidade de língua portuguesa em Zurique, o programa é veiculado toda terça feira, de oito às nove da manhã. Idealizado e apresentado pela jornalista Thaís Aguiar e pelo documentarista Marcio Jeronimo, o Pausa CaféLink externo traz entrevistas em forma de bate papo, música, notícias, reflexão e cultura brasileira, tudo isso numa pausa para um café.

A Rádio LoraLink externo de Zurique é mais antiga emissora alternativa da Suíça e funciona desde 1983. Cerca de 300 pessoas trabalham no espaço, que é voltado para comunidades de imigrantes de vários países produzirem programas e levar a comunicação às suas comunidades específicas. Transmite em 23 idiomas e dá suporte sobretudo a questões de direitos humanos dividas em três pilares: o do não ao racismo, ao sexismo e ao comercial.

O convite de veicular a coluna Suíça de Portas AbertasLink externo na Rádio Lora partiu de Thaís Aguiar, após entrevistar a jornalista Liliana Tinoco Bäckert sobre questões de migratórias e sobre as matérias escritas para a coluna. Como os artigos da Suíça de Portas Abertas são publicados todo dia primeiro e décimo quinto de cada mês pela swissinfo.ch, o Pausa Café trará dois novos assuntos a cada 30 dias. A Rádio Lora pode ser encontrada no 97,5 MHz ou pela internet.

01 de março de 2017Uma boa rede de contatos vale ouro na Suíça

A perda da rede de contatos é uma das principais desvantagens da imigração. Por um motivo óbvio, quem deixa seu círculo de conhecidos vai precisar começar tudo de novo, assim como acontece quando se muda de escola na infância.

Construir uma rede de contatos é importante, considera Angela Weinberger. 

(cortesia)

Trazendo a situação para a Suíça, dois fatores dificultam ainda mais o processo: a língua alemã e a reserva do povo, considerado difícil de se enturmar até para os vizinhos alemães que dominam o idioma. O problema é que, na condição de humanos, todos nós precisamos estabelecer contato para arrumar emprego, tocar um projeto ou até mesmo conseguir o telefone de um médico no novo país.

Pesquisa realizada recentemente pela empresa de contratação Catho Online – portal de soluções em Recursos Humanos da América Latina - mostra que 44% dos profissionais conseguem emprego graças à indicação de conhecidos.

Investir na rede de contatos consiste na prática de desenvolver e explorar a sua rede de relacionamentos, conhecida pela palavra inglesa network. São aquelas pessoas conhecidas: amigos, colegas de escola e faculdade, colegas de trabalho, ex-empregadores, clientes, fornecedores e até mesmo parentes. Além da rede já existente, é imprescindível fazer novos contatos, que podem informar sobre vagas de trabalho interessantes ainda desconhecidas pelo público. 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O uso do networking como ferramenta de recrutamento tem se intensificado. Hoje é bastante comum encontrar empresas que premiam funcionários que ajudam a preencher vagas abertas indicando amigos e conhecidos. Se antes o fator “QI” (quem indica) tinha um caráter negativo, pois geralmente se aplicava àquela contratação de um amigo ou parente do chefe, hoje ele é bem visto e considerado em todas as esferas do mundo corporativo.

Dá para aprender

O comportamento do suíço, no entanto, complica a prática. Eles são conhecidos por serem mais fechados e menos reativos à tentativa de contatos com estranhos. Diante da importância das conexões, o desafio então é saber como transpor essa barreira e conseguir ganhar a confiança deles. De acordo com a treinadora e coach Intercultural em Carreiras Angela Weinberger, ao contrário do que se pensa, é difícil fazer amizade com suíços. Mesmo os expatriados, que se mudam com emprego garantido, sentem falta de uma boa conexão. “Externamente, a Suíça parece muito aberta. Afinal de contas, é um país onde se fala quatro idiomas, com uma grande comunidade internacional e sede de várias organizações mundiais, mas a realidade não se mostra dessa maneira”, explica Angela.

Os suíços são fechados

Alemã, ela fala com experiência de viver em Zurique e em outros países. Angela promove cursos de como formar uma rede de contatos profissionais na Suíça. De acordo com a consultora, o histórico do país explica em parte a cultura e o jeito como a população local lida com estranhos. A forma como a Suíça foi criada, por exemplo, com a combinação de três cantões para se protegerem dos inimigos explica o porquê de considerarem estranhos como quase inimigos.

“Mesmo assim, vale a pena tentar. É preciso construir confiança para criar um círculo nesse país. A questão é como, já que a conquista da credibilidade se dá de diferentes formas dependendo da cultura”, explicou Angela, durante palestra no Clube Americano de Mulheres (American Women’s Club of Zürich), para cerca de 30 mulheres estrangeiras interessadas em aprender como se faz contatos no novo país.

A americana e responsável por eventos Hollyn Keller diz que decidiu trazer o tema por demanda própria e das integrantes do grupo. Mesmo casada com um suíço e no país há quatro anos, relata que sente dificuldade em conhecer pessoas em Zurique. Na platéia, mulheres de várias partes do mundo atentas aos ensinamentos da especialista. Em comum, o interesse em aprender a ganhar a confiança dos locais. Sumathi V Selvaretnam vem de Singapura e está de mudança para a Suíça com seu marido alemão. Jornalista, deixou seu emprego de editora de uma revista de negócios, e agora quer iniciar uma nova rede de contatos e conseguir um emprego.

Hollyn Keller, responsável pelos eventos profissonais no Clube Americano de Mulheres (American Women’s Club of Zürich).

(cortesia)

Entre cocos e pêssegos

A primeira lição ensinada por Angela Weinberger para entrar no coração de um suíço é aceitar que ele é coco, e não pêssego.  A categoria cultural de analogia às frutas foi criada para explicar a forma com que culturas lidam com comunicação e distância interpessoal. A brasileira, de fácil acesso, é pêssego. Isso inclui comportamento como sorrir para estranhos e engajamento em conversas informais. Mas o interior se mostra mais duro como uma semente de pêssego, tornando dificuldade para se fazer amizade mais sólida.

Já o suíço, assim como o povo alemão, é coco. De casca muito dura, a fruta tem difícil acesso e corte, o que significa a dificuldade de quebrar a primeira barreira, mas assim que se consegue, conte com amizade para a vida toda. Estereótipos à parte, a correlação ajuda a entender um comportamento generalizado.

Altruísmo é chave 

Outra lição muito importante é praticar o altruísmo. Além de ser realmente positivo para a sociedade, ajuda a criar uma relação de confiança. De acordo com a especialista, a receita é simples: conheceu alguém em um evento, acha que esse contato vale a pena, ajude essa pessoa se for o caso. “Auxiliar, nesse caso, significa descobrir os interesses do outro e, quem sabe, conectá-lo com alguem que o interesse. Pode ser também simplesmente com o envio de uma reportagem interessante. Atitudes simples, mas que façam diferença e acabam por criar uma relação de longo prazo e de mais confiança”, explica Angela Weinberger.

A treinadora ensina também os quatro P’s da rede de contatos: Propósito, Preparação, Presença e Promessa. O primeiro P, de propósito, significa pensar na razão de se interessar por aquele contato. A Preparação serve para lembrar da necessidade de ler sobre o outro, de informar e de deixar muito claro o porquê do encontro, mais propício para um encontro que seja propositado. A Presença, entretanto, refere-se à importância de se estar presente no diálogo, de ouvir o que o outro diz. Já a Promessa remete ao cumprimento do que foi dito durante o primeiro encontro.

“A verdadeira presença na conversa vai te dar um motivo para entrar em contato novamente, criando uma relação. Mas a promessa irá manter esse contato. Se você conheceu alguém interessante e prometeu enviar uma informação, faça. Eu encorajo sempre a redefinir o seu conceito de construção de rede contatos”, ensina Angela Weinberger.  

Como melhorar sua rede de contatos profissional:

- Suíços são cocos, têm casca dura. Não tome a sisudez como algo pessoal.

- Procure organizações, Vereins, grupos de mulheres, sejam profissionais ou ligados a esportes, música, qualquer coisa que seja do seu interesse. É importante conhecer pessoas.

- Vá a eventos, coquetéis (conhecidos como aperos na Suíça).

- Converse com pessoas das mais variadas origens e mencione que você busca um emprego.

- Troque número de telefones.

- Cartões pessoais não estão fora de moda, use.

- Não dê seu cartão imediatamente, faça somente no final da conversa.

- Exerça o altruísmo: ajude os outros com informaçães interessantes, apresente seus contatos a outros que façam sentido. Essa é uma boa maneira de se construir relações sólidas.

- Aposte na regra dos quatro Ps da rede de contatos: Propósito, Preparação, Presença e Promessa.

Contato Angela Weinberger: http://globalpeopletransitions.com/Link externo

American Women’s Club Zurich - http://www.awczurich.org/Link externo

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15 de fevereiro de 2017Desenvolvimento da competência intercultural é imprescindível para se viver no exterior

Decepcionados, brasileiros emigram; despreparados, podem não tolerar a mudança cultural e ver o sonho ir por água abaixo.

As perspectivas ao emigrar para um outro país muitas vezes não são correspondidas.

(Keystone)

Muito tem se falado sobre as consequências das crises econômica e política no Brasil, que têm levado muitos brasileiros ao exterior. Segundo dados da Receita Federal, entre 2011 e 2015 houve um aumento de 67% no total de Declarações de Saída Definitiva do País, o documento apresentado ao Fisco por quem emigra. Junto com a experiência profissional e o diploma, alguns brasileiros levam na mala o emprego garantido, a maioria vai com a família, mas em comum, todos fogem da crise e carregam sonhos de uma vida melhor. Só que a maioria desconhece um item que não deveria faltar na bagagem: competência para lidar com diferenças. Sem isso, a tão esperada oportunidade de fazer uma carreira internacional e de mudar de vida pode dar errado.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Leitura sobre o país de destino e treinamento são uma das maneiras de melhorar essa habilidade. De acordo com estudo da Unesco, publicado em 2015, competência intercultural refere-se ao conhecimento adequado sobre culturas particulares, assim como conhecimento geral sobre diversas questões que possam acontecer devido a essas interações, além de atitudes receptivas que encorajem o contato com grupos diferentes dos seus. Já o termo Sensibilidade Intercultural refere-se à capacidade de fazer diferenciações perceptivas complexas entre os padrões culturais.

A competência e a sensibilidade intercultural são habilidades que podem e devem ser aprendidas e treinadas. Existem diversos cursos e treinamentos no mercado direcionados ao público em vias de emigrar ou já quando estabelecido no país estrangeiro. Existem também treinamentos para esposas e famílias, que podem ajudar no período de adaptação. O objetivo é criar uma consciência mais aberta às diferenças e permitir que pessoas consigam entender melhor atitudes tão diversas, nunca esperadas por um brasileiro, por exemplo. O problema é que muitos brasileiros nunca ouviram falar nessa possibilidade e acreditam que emigrar vai resolver todos os problemas que tinham no Brasil.

Treinamento e informação ajudam imigrantes - O que isso significa na prática? Pessoas têm maneiras diferentes de fazer as coisas, palavras têm conceitos distintos em outras nações. A brasileira *Ellen Pires, que passou por treinamento intercultural pago por sua empresa antes de ser expatriada para a Suíça, relata que foi de grande valia, já que teria se sentido mal se não soubesse que os suíços geralmente não conversam enquanto trabalham, ao contrário dos brasileiros. "Eles deixam para trocar ideia na hora do cafezinho, pontualmente às 9h30min. Depois disso, foco total no trabalho e conversa só se for sobre assunto profissional. Se eu não tivesse sido treinada sobre essas diferenças, teria achado que era pessoal contra mim.  Ainda bem que fui orientada, porque essas diferenças sutis fazem toda a diferença no dia a dia”, conta.

Quem deixa o seu país de origem sem se preparar para viver com pessoas tão dissemelhantes pode não tolerar o choque cultural e até entrar em depressão. Especialistas no assunto relatam já terem visto muitos executivos de alto escalão não conseguirem lidar com pessoas de diferentes culturas, simplesmente porque em outros locais liderança é exercida de uma outra maneira ou pelo distanciamento entre a vida privada e profissional, abrindo espaço para muitos mal-entendidos.

O mundo é muito maior que a sua cidade - Trocando em miúdos, aumentar a sensibilidade intercultural seria preparar o indivíduo para abrir a mente e imaginar que o mundo é muito mais que a sua cidade, seu bairro ou casa. Isso envolve praticamente tudo, porque a cultura é ampla e acompanha o ser humano em suas atividades mais básicas, que vão desde a sua alimentação, passando pelo horário da refeição, noções de higiene, idioma, tom de voz, distanciamento entre interlocutores, música e muito mais.

Muitos estudos se desdobraram em desvendar os motivos pelos quais expatriados preferem desistir e voltar ao país de origem antes do prazo. Os números de insucesso ficam na casa de 16% a 40%, segundo estudos internacionais. De acordo com pesquisa feita pelos consultores em Liderança Stewart Black e Hal B. Gregersen, retornos prematuros acontecem por falta de ajuste transcultural por parte dos expatriados, de suas esposas e famílias. Black e Gregersen conduziram estudo em 1997 que indica que entre 10 a 20 dos expatriados americanos de um grupo de 100 enviados a outros países retornam prematuramente por insatisfação com seus trabalhos e choque cultural. E um terço dos que conseguem fechar o ciclo não têm a performance esperada pelas suas organizações, justamente por essa inadequação.

A psicóloga intercultural Andrea Sebben prepara expatriados brasileiros

(swissinfo.ch)

De acordo com a psicóloga intercultural Andrea Sebben, diretora da Equipe Andrea Sebben, autora de diversos livros sobre o tema e treinadora de expatriados, à luz da Psicologia Intercultural, que define as personalidades migratórias, existem pessoas que são naturalmente bem-sucedidas na migração por terem facilidade em criar vínculos, em experimentar coisas novas, em adquirir um novo idioma e, principalmente, por que conseguem participar de grupos muito facilmente. "Fazer parte de uma comunidade e vincular-se ao país hospedeiro são cruciais para o expatriado”. Segundo Andrea, a outra personalidade é aquela que sofre com a separação, que tem dificuldade em criar vínculos, em sentir-se parte do grupo, em aprender um novo idioma e em experimentar novos alimentos. Esse tipo sofre na partida, durante a expatriação e quando volta, pois uma vez que se estabelece na cultura estrangeira, sofre demais também ao retornar ao país de origem.

Brasil e Suíça são como água e vinho

Deixar o Brasil e viver especificamente na Suíça é um grande desafio. Os países são muito diferentes um do outro em termos culturais. Entre as várias categorias desenvolvidas por antropólogos e estudiosos do tema no mundo, os dois países, embora pertencentes ao Ocidente, diferem muito e geralmente estão nas extremidades opostas dos gráficos de comparações entre as duas culturas. E para piorar a situação, muitos dos brasileiros nunca tiveram qualquer contato com treinamento intercultural e precisaram aprender a duras penas que a vida pode sim ser muito estranha à realidade conhecida.

Na tese de mestrado sobre Barreiras Culturais enfrentadas por Mulheres Brasileiras na Suíça Alemã, escrita por mim em setembro de 2016 pela Universidade de Lugano, ficou comprovado que somente uma brasileira, das dez entrevistadas, conhecia treinamento intercultural. Do total de mulheres, três eram casadas com brasileiros, que emigraram como expatriados. Deles, nenhum teve qualquer preparação para viver no exterior; um recebeu um livro sobre o país. As barreiras culturais enfrentadas por essas mulheres, gerando problemas para as famílias, estão totalmente atreladas à falta de consciência intercultural e preparo para uma mudança tão grande em suas vidas.

As diferenças - A grosso modo pode-se dizer que um é água e o outro é vinho. Se a Suíça é um país extremamente individualista, o Brasil encontra-se no grupo dos coletivistas. Família, para culturas individualistas, engloba pai, mãe e filhos. Para outras mais coletivistas, inclui até mesmo tios de primeiro, segundo e terceiro graus.

Quanto o assunto é gerenciamento do tempo, de novo as diferenças são gritantes. Enquanto os suíços levam o assunto pontualidade como quase uma religião, como explica o interculturalista Richard Lewis, autor de diversos livros sobre o assunto. Já para o brasileiro, o tempo é relativo e pontualidade não é sua característica mais forte. Na categoria tolerância à incerteza, a Suíça está ocupa posição de destaque no gráfico. O brasileiro, ao contrário, está acostumado a viver na corda bamba. Esse tipo de diferença, no dia a dia, traz muitos problemas. Mas se os dois grupos culturais estivessem a par da normalidade na diferença de comportamento e de valores, certamente não haveria tanta desarmonia e estresse desnecessário.

*O nome da entrevistada foi modificado para preservar sua identidade.

1° de fevereiro de 2017O guarda-roupa como aliado na reconstrução da identidade

Além de aprender um idioma diferente e outros códigos de conduta, imigrantes precisam adaptar a imagem pessoal ao país estrangeiro sem perder a essência.

Renata Ajonas recomenda bom senso e o uso do estilo pessoal para adaptar o visual ao do país estrangeiro.

(Divulgação)

Renovar o guarda-roupa pode estar entre as mudanças que imigrantes têm pela frente, dependendo do país de destino. Isso acontece com brasileiros que emigram para a Suíça. O clima frio do Hemisfério Norte e a diferença cultural interferem na maneira de se vestir e podem dificultar o processo de adaptação. A cultura influencia nos trajes e até mesmo na interpretação da moda. Então, esse imigrante que sempre soube combinar peças de roupa e se vestia com autoconfiança, hesita com hábitos tão diferentes.

Não se trata de uma ode à moda ou estímulo ao consumismo, mas é importante falar sobre o abalo pessoal sofrido com a perda da referência ao mudar-se de ambiente cultural e da conexão com o estilo da vestimenta que todos têm. Imagem privada e autoconfiança andam de mãos dadas, por isso a dobradinha encontro do novo visual e adaptação serem processos que acontecem simultaneamente. Na realidade de imigrante, esse sentimento é ainda mais forte. Afinal de contas, como pertencem a uma categoria minoritária, têm mais dificuldade em passar confiança ao morador local, que segue outros valores e padrões. O psicólogo americano Albert Mehrabian, especialista em comunicação não verbal, confirma a que apenas 30 segundos são suficientes para que o outro julgue e seja julgado.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Um dos primeiros choques culturais dos brasileiros é constatar que até no verão suíço pode fazer mais frio que o pior dos invernos brasileiros. A imensa quantidade de shorts e camisetas, por exemplo, não terá mais serventia. Outro desafio é saber usar e combinar as peças de inverno e montar, dentro desse novo cenário, um guarda-roupa que aqueça e promova autoestima. Para homens, essa questão é mais fácil, já que as peças são básicas e praticamente iguais no mundo inteiro.

Para as mulheres não. Entre vários exemplos de inseguranças e insatisfações, muitas brasileiras reclamam que se cansam de usar roupas de tons escuros e fechados e sentem falta de cores mais comuns em países tropicais. O antropólogo Edward Hall explica essas diferenças categorizando nações em conceitos como policromático e monocromático, do inglês Polychronic e Monochronic. Países mais frios, onde o cinza é constante e os cidadãos são guiados pelo trabalho árduo e pontualidade extrema, pertencem à categoria monocromática. A Suíça está obviamente inserida nesse grupo.

Imigrar significa repaginação

A psicologia da imigração explica que todo imigrante precisa passar pela reconstrução de seu eu e se reinventar. E esse período de reinvenção é árduo, com perda de referências pessoais e reelaboração de valores próprios. De acordo com a estilista pessoal e consultora de imagem Tsitaliya Mircheva-Petrova, a reelaboração do estilo faz parte desse processo. “Funciona como uma repaginação. Se você fosse uma marca, teria certamente que adaptar sua logo a essa nova realidade”, explica Tsitaliya, que também escreve no blog Mums in Heels sobre moda e estilo de vida para mães na Suíça.

A consultora de moda e estilo Renata Ajonas diz que a roupa precisa ter a identidade do dono. “Se você não está vestido de você mesmo, ou seja, usando uma peça que não combine com o seu eu, vai se sentir insegura” explica Renata, que é brasileira e já morou na Noruega e vivenciou a realidade de imigrante. A estilista de Moda Kathy Patellis-Schmidt afirma que estilo tem a ver com quem você é e tem que vir de dentro, externalizando o bem estar. Kathy é canadense e mora na Suíça.

A escritora e consultora de moda Gloria Khalil, em seu livro Chic: Um Guia Básico de Moda e Estilo, explica que “o estilo manifesta sua identidade social e sinaliza para os outros de que modo você quer ser tratada. No livro britânico Porque moda importa (Why Fashion Matters), Frances Corner, que é diretor da Universidade Londrina de Moda, explica que ela está conectada com a arte de se adornar, com a apresentação visual para o mundo. “O que nós escolhemos vestir reflete como nós vemos o entorno e como queremos ser vistos pelas pessoas”, conclui.

Cultura influencia  

Mesmo no verão, as roupas europeias têm corte geralmente mais comportado, com decotes menos generosos. Dessa maneira, muitas brasileiras se sentem inseguras quanto ao uso de uma roupa trazida do Brasil que mostre um pouco mais que as vestimentas suíças, por exemplo. Adicione a esse caldeirão de questionamentos o fato de muitas estrangeiras temerem sofrer preconceito devido a vestimenta, principalmente por saberem que carregam a fama de erotizadas.

Juliana Petraglia diz está cansada e usar roupa escura.

(Divulgação)

A alagoana Juliana Petraglia reclama que, desde que saiu de Alagoas, sentiu que seu guarda-roupa se tornou triste e fechado. No entanto, ela tem medo de ousar e usar tons mais alegres e coloridos, temendo ser alvo de olhares. Outro componente cultural é a forma como a mulher suíça expressa sua feminilidade. As roupas precisam ser práticas, fáceis de passar. É bem raro vê-las com a quantidade de bijuterias que uma brasileira usaria, unhas pintadas ou salto alto. Em geral, o figurino básico é calça jeans, camiseta de malha e jaqueta para frio, na maioria das vezes com cores leves ou fechadas. Esse novo papel social confronta e confunde a brasileira, que fica sem saber como expressar sua feminilidade na vestimenta. Como brasileira, Renata Ajonas entende o medo de errar na escolha da roupa, mas a questão passa novamente pelo autoconhecimento. “Se a mulher se encaixa no perfil mais discreto, vai evitar roupas com transparências, decotes e fendas exageradas. Conhecendo seu estilo pessoal, poderá fazer escolhas mais coerentes e confiantes”, diz Renata.  

Feminilidade à prova

Clima frio, cultura diferente, mulheres que pouco expressam feminilidade na vestimenta, poucas estampas, paleta de cores limitada. Essas são apenas algumas das dificuldades encontradas pelas brasileiras na Suíça, principalmente na parte alemã. A redefinição de seu papel enquanto mulher, a escolha de uma roupa que não atraia a atenção ou a escolha de um modelo que revele a sensualidade mesmo com temperaturas abaixo de zero são desafios. Questões sobre como fazer para manter o estilo mais colorido no longo e escuro inverno? É possível manter a feminilidade, mesmo vivendo em um país no qual as mulheres se vestem de forma mais masculina?

Sim, é possível e essencial manter as preferências das roupas, mesmo que o clima e a cultura sejam totalmente diferentes da do país de origem. Tsitaliya recomenda que as brasileiras ou qualquer outra imigrante jamais percam a identidade e a maneira individual de se vestir. “Não existe erro, existem alguns códigos, mas expresse quem você é e não mude sua essência”. Kathy Patellis-Schmidt confirma: “mantenha sua autenticidade”.

De acordo com a consultora de Moda e Estilo Renata Ajonas, é essencial que a mulher conheça as preferências, o que irá nortear os próximos passos nesse ambiente tão diverso como a Suíça. Renata fala com propriedade, já que conhece bem o país. Afinal de contas, o importante, segundo todos os especialistas, é o bem estar. 

Já pensou sobre seu estilo?

Existem sete estilos, segundo estudos universais da mulher: romântica, esportiva, clássica, contemporânea, dramática, sensual e étnica.

- Clássico: compre casacos atemporais e de qualidade, cortes elegantes e cores mais discretas

- Sensual: as costas de fora não funcionam devido ao frio, mas vale uma saia com fenda, por exemplo

- Contemporânea: vai buscar texturas e cores diferentes nos casacos. Essa mulher quer seguir a tendência na moda

- Dramática: vai usar e abusar da criatividade nos gorros, bolsas e com as cores.

- Romântica: pode trazer estampas florais para blusas, cachecóis e até casacos em tons de bege e branco.

- Esportiva: que prima pelo conforto, pode e deve vestir o seu jeans e tênis, desde que componham o visual com elegância

- Étnica: mantém o estilo com os acessórios como com uma faixa na cabeça, brincos e colares, além de roupas com estampas fortes e meia calça por baixo. 

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15 de janeiro de 2017Conhecer direitos e deveres promove integração

A advogada Fernanda Pontes Clavadetscher criou o projeto Saber Direito em 2012, que tem como objetivo de levar gratuitamente consciência forense à comunidade da língua portuguesa residente na Suíça. O assunto é abordado por meio de palestras itinerantes e informações na internet. 

(Liliana Tinoco Baeckert)

Seu trabalho com imigrantes mostrou na prática a forte conexão entre cidadania e conhecimento. De acordo com a advogada, a desinformação ajuda a criar mitos e crendices na área de direito, e em casos extremos pode até camuflar episódios de violência doméstica. Recomeçar na Suíça não foi fácil, todo residente estrangeiro no país sabe dos percalços para validar diploma e trabalhar, mas o caminho do trabalho voluntário mostrou os atalhos.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Para muitos o reinicio em outro país é muito difícil. Como foi seu recomeço na Suíça?

Fernanda Pontes Clavadetscher: Em 2008, eu e meu marido decidimos que já era a hora de criar nossos filhos aqui na Suíça, pois seria uma grande oportunidade para eles. Mas quando cheguei e me instalei definitivamente, vi que a realidade era diferente. Uma coisa é você vir a passeio e outra é morar aqui. Os três primeiros anos foram os mais difíceis e acredito que isso acontece com muitos estrangeiros que vêm para cá. Outro clima, outra cultura, outras regras. Com certeza a minha fé foi essencial para o meu recomeço na Suíça e fez com que, aos poucos, eu fosse acreditando que aqui, definitivamente, é o meu lugar.

swissinfo.ch: Como você fez para exercer a sua profissão na Suíça?

F.P.C: Num primeiro momento parecia impossível atuar novamente na área jurídica. Mas, aos poucos fui percebendo que eu poderia trabalhar como consultora jurídica do Direito local e ao mesmo tempo continuar advogando, já que eu tenho as minhas inscrições na Ordem dos Advogados de Portugal e do Brasil. Posso dizer que eu já era apaixonada pela informação como instrumento de trabalho desde os tempos que ainda morava no Brasil. Eu era professora de Direito Civil na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, quando em 2008 decidimos nos mudar para a Suíça. Atualmente, estou cursando mestrado em direito pela Universidade de Zurique para me reciclar. Estudar é sempre muito positivo.

swissinfo.ch : O que te motivou a criar o projeto Saber Direito?

F.P.C. : Na verdade tudo começou no meu meio social logo que cheguei na Suíça. Conforme eu ia fazendo novas amizades, percebi que os imigrantes de língua portuguesa careciam de informações jurídicas básicas, o que me fez refletir sobre essa situação e traçar uma estratégia para solucionar ou pelo menos amenizar esse problema. Com a minha experiência como professora universitária e palestrante no Brasil escrevi um projeto de palestras itinerantes, cujos temas abordavam principalmente o direito suíço. Com a minha entrada no Conselho de Cidadania, tive a oportunidade em apresentar essa ideia ao Consulado-Geral do Brasil em Zurique. Por entender ser um projeto que atenderia uma necessidade latente da nossa comunidade, os ciclos de palestras foram iniciados em junho de 2012, em Lugano, com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

No mesmo ano comecei a escrever um blog com informações jurídicas sobre as principais dúvidas dos brasileiros e portugueses residentes na Suíça - www.juridiconasuica.blogspot.chLink externo. Eu estou convencida de que a falta de informação além de limitar a integração, contribui para aumentar imbroglios que poderiam ser facilmente resolvidos. Eu queria que as informações jurídicas importantes para os estrangeiros estivessem ao alcance de todos os imigrantes da língua portuguesa. 

As barreiras causadas pelo entendimento da língua local, alemão principalmente, é o maior obstáculo para o acesso a essas informações. Textos específicos sobre o assunto são muito complexos e a desinformação tende a criar mitos e crendices. É impressionante como a consciência dos seus direitos e deveres contribui diretamente para uma melhor integração e qualidade de vida dos imigrantes na Suíça.

swissinfo.ch:  O que vocês exatamente fazem no Saber Direito?

F.P.C.: Nós levamos informação jurídica à população portuguesa e brasileira, seja por meio das palestras, pré-atendimento pelo site, e-mail e nas principais redes sociais. As postagens são atualizadas constantemente e quem tiver uma dúvida, pode entrar em contato conosco por meio de formulários de atendimento disponíveis no site e até por telefone, em caso de urgência. O Saber Direito ganhou forças com o tempo. Recebeu a participação de outros profissionais, e o que a princípio era um projeto se tornou uma instituição. Hoje o Saber Direito presta informações jurídicas em português por meio do nosso site www.saberdireito.chLink externo e das mídias sociais. Além disso, as palestras itinerantes continuam a acontecer por toda a Suíça e em Liechtenstein.  

Hoje são mais de 10 mil seguidores no Facebook, sendo 71% mulheres, na sua maioria entre 25 a 44 anos. Em quatro anos, o Saber Direito já realizou mais de 20 eventos informativos na Suíça.

Eu preciso dizer que sem a participação de outros profissionais não seria possível atender todas as demandas dos imigrantes que nos procuram. Por isso, contamos com uma equipe multidisciplinar de voluntários. Patrícia Mutzke, por exemplo, é uma parceira ativa que também escreve o blog Brasil na Suíça.blogspot.chLink externo e tem especialização em direito migratório pela Universidade de Berna. Eu também com a colaboração da profissional de comunicação Adriana Hepper Bailoni, que vai me ajudar a ampliar a presença do projeto nas mídias sociais.

swissinfo.ch : Qual a importância do Saber Direito para você e para a comunidade?

F, P. C.: O Saber Direito é a concretização de um projeto no qual acredito. Através das informações que são prestadas em português, o imigrante tem a oportunidade de não só resolver ou se precaver de problemas como também de se sentir acolhido em um país que não é o dele. Pessoalmente, hoje eu sinto uma grande satisfação em auxiliar pessoas que desconhecem seus direitos e deveres, principalmente por saber o quanto isso pode ajudar na melhoria da qualidade de vida de qualquer cidadão. Para mim é uma missão.

swissinfo.ch: Em que sentido o desconhecimento do direito pode atrapalhar a vida de um imigrante?

F. P. C.: Por mais incrível que pareça, o desconhecimento mostra a sua pior face quando o assunto diz respeito à mulher imigrante e, em alguns casos, camufla até violência doméstica. Infelizmente ainda existem esposas que ignoram o fato de que o marido transgride a lei quando agem com agressividade física e psicológica. Elas não sabem o que fazer quando diante da crueldade, aguentam caladas porque têm medo de serem separadas dos filhos e, como acontece com muitos imigrantes, perdem a referência por não saberem se comunicar.

Embora não seja nosso papel fazer esse tipo de atendimento, para isso existem órgãos competentes, nós encaminhamos essas pessoas às entidades que poderão ajudá-las, não sem antes e informá-las que agressão é um ato criminoso. A primeira recomendação é que elas sempre, em qualquer hipótese, chamem a polícia.

swissinfo.ch : Quais são os maiores mitos e crendices com relação a direitos e deveres por parte dos imigrantes de língua portuguesa?

F. P. C.: Com certeza a falta de informação colabora para o surgimento de muitos mitos, principalmente quando o assunto está ligado ao Direito de Família, já que cada caso é um caso e, por isso, cada situação deve ser analisada individualmente. Pensão alimentícia, por exemplo, é um clássico. Outro tema que vemos muito no Saber Direito é o medo da perda da guarda dos filhos. Também existem outras questões que chegam até nós relativas a registro do casamento e ao divórcio.

swissinfo.ch: Que dicas você daria para quem está recomeçando sua profissão na Suíça?

F. P. C.: Antes de qualquer coisa, tenha fé e acredite no seu potencial! A pessoa tem que confiar no recomeço. Informe-se sobre como poderá atuar na sua profissão na Suíça. Se for preciso, volte para os bancos da faculdade ou faça cursos profissionalizantes. Procure se integrar. A conexão com a população local é muito importante e lhe fará bem. Saiba como funcionam as leis e as regras do país, pois assim evita uma série de transtornos.  

1° de janeiro de 2017Medo e insegurança são portas de entrada para doenças nos imigrantes

Aumento de peso, problemas hormonais e no aparelho locomotor são muito comuns em quem deixou o país de origem e sofre com a adaptação. Tomar rédeas da sua vida e enfrentar o mundo podem ser uma ótima resolução para 2017.

Estresse e depressão: problemas que afetam muitos imigrantes na Suíça. (foto simbólica).

(Ex-press)

A médica natural Patricia Quito OliveiraLink externo acredita que migrantes são muitas vezes acometidos por doenças devido ao alto grau de estresse que vivem por deixarem seu país.

A experiência de oito anos de consultório em Zurique dá autoridade à médica da cidade de Santos. Sua clientela é formada, na maioria, de pacientes da América Latina, Brasil e Portugal; muitos que chegam com uma dor generalizada, mas que após uma conversa mais profunda revelam problemas de adaptação na Suíça transformados em enfermidades. Formada pela Paracelsus Schule, em Zurique, a médica defende a importância de se prestar atenção na integração cultural dos estrangeiros.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Você acha que problemas com a integração podem influenciar a saúde dos imigrantes, principalmente da mulher?

Patrícia Quito Oliveira: Com certeza, e não somente da mulher latina. Qualquer estrangeira que venha morar na Suíça ou em qualquer lugar e não tenha conseguido driblar os problemas da imigração corre esse risco. Uma das primeiras barreiras pode ser a língua. O alemão não é fácil e o suíço alemão dificulta ainda mais. A pessoa, que ainda não está totalmente integrada, tenta praticar o idioma e se frustra, já que ouve uma coisa e aprende outra.

Pela minha experiência de oito anos de consultório em Zurique, mulheres que ainda não se encontraram têm mais problemas com integração. Isso significa que elas já trazem de suas origens conflitos internos não resolvidos e, diante de uma fase mais complexo, como a da imigração, desenvolvem novas fraquezas. Geralmente são pessoas indecisas, que têm problemas para tomar iniciativa. Eu defendo a ideia de que se você está bem consigo mesma, estará em paz em qualquer lugar do mundo.

swissinfo.ch: É como se a mudança de país enfraquecesse ainda mais a pessoa?

P.Q.O.: Sim. É preciso estar sempre em contato com o seu interior, principalmente em momentos mais difíceis como os de mudança de país. É importante lutar para aprender a língua e não deixar que as primeiras barreiras te enfraqueçam. A falta de integração cultural debilita porque a pessoa se sente incapaz. E isso é uma forma de desencontro com seu eu interior. Com o tempo, desencadeia uma série de outros distúrbios, que acabam por se transformar em doença. A cultura influencia muito a vida de todos. Dessa forma, torna-se ainda mais importante não lutar contra a nova cultura, mas absorver os novos aprendizados e inseri-los aos antigos trazidos do país de origem.

O aprendizado da língua, nesse contexto, torna-se essencial. Existe algo que mais enfraqueça uma pessoa do que não poder ou saber se comunicar? Dessa maneira, o não aprendizado do alemão acaba por colocar os imigrantes a parte da sociedade em que vivem. É como se elas não tivessem mais vontade própria, já que não podem se expressar.

Cada pequena dificuldade dá a pessoa a sensação de ter voltado a ser criança novamente, como uma regressão, afastando-a novamente do seu eu.

swissinfo.ch: Quais seriam as doenças mais comuns que acometem esse público?

P.Q.O.: Essa é uma pergunta bem interessante. Atendo pacientes que reclamam de problemas com o fígado, mas basta eu abordar o lado emocional que já puxo o fio da meada. Essa é uma grande vantagem da medicina natural; o médico tradicionalista não tem muito tempo para avaliar questões mais profundas. Muitas pacientes vêm aqui para poderem desabafar. No entanto, muitas das doenças que desenvolvemos têm origem psicossomática. Essa linha da medicina acredita que as patologias se manifestam em primeiro lugar nas dimensões energética, emocional e só depois aparece no corpo. Muitas enfermidades são criadas como defesa própria, como um escudo de proteção.

Há casos de pacientes que, após mudarem de país, começaram a ter rachadura nas mãos, outro exemplo de doença psicossomática. São geralmente pessoas que alimentam medo da língua e de sair de casa para lutar pelo que querem. A rachadura das mãos torna-se a desculpa perfeita. Faço analogia com o fato de colocar a mão na massa e fazer acontecer, ou até mesmo abrir a porta de casa e não poder porque as mãos estão machucadas. 

Patricia Quito Oliveira 

(swissinfo.ch)

A dor no joelho e outras doenças do aparelho locomotor também são emblemáticas: te impede de buscar o que quer, funciona como a perfeita desculpa para o medo de andar para a frente, de enfrentar seus objetivos. A fibromialgia, por exemplo, é muito comum nessa dinâmica. Nós, seguidores da medicina natural e chinesa, acreditamos que os bloqueios energéticos causados por esses conflitos internos mal resolvidos geram doenças como essa. Infelizmente as pessoas se podam muito psicologicamente. O medo exagerado e incontrolado, inclusive, aumenta os casos de síndrome do pânico ou até mesmo síndromes de ansiedade, depressão ou transtorno bipolar. 

Outro problema muito comum são as doenças hormonais. Há uma alta incidência também de hipotireoidismo. Para a medicina natural, o bloqueio no chacra da laringe, justamente pela perda do poder de expressão, bloqueia a energia naquele local e transforma o obstáculo em patologia. A prisão de ventre também é outro inconveniente e tem a ver com o fato de as pessoas se fecharem em situação como a de imigrante. O ganho de peso é um dos sintomas mais comuns. Um corpo maior oferece a falsa sensação de maior proteção. As enfermidades do aparelho gastrointestinal também são muito comuns. 

swissinfo.ch: E como o imigrante pode se proteger dessas doenças, principalmente em situações em que é normal estar mais vulnerável?

P.Q.O.: Estando aberto para mudanças, disponível a aceitar que as coisas podem ser diferentes. Algumas pessoas se colocam em uma posição irredutível, são muito radicais em suas opiniões. Adaptar-se não significa se anular, mas simplesmente deixar espaço para o novo, aceitar que o diferente entre na sua vida. O segredo é ter disposição. Há casos de pessoas que não querem que o filho aprenda os costumes do país hospedeiro. Alguns indivíduos não querem abrir mão de suas verdades, mas o que é a verdade? A única que se sabe é a que existem várias e talvez nenhuma, mas somente maneiras diferentes de se fazer as coisas.

Se eu puder aconselhar alguém, vou dizer que procure o caminho do meio, o ponto de equilíbrio. Aceite a nova cultura sem abrir mão da sua, segredo para viver bem em qualquer lugar. É difícil, mas não impossível. Invista nesse reencontro com seu eu, com o seu poder interior. Faça cursos de alemão, estude, se reinvente, aceite o desafio e se cuide. Use as ferramentas que você ache necessárias para lidar com seus medos internos; seja um profissional de psicologia, um curso intensivo de alemão ou qualquer outra ideia. Vá em frente e coragem. 

15 de dezembro de 2016Sonhando com um príncipe encantado nos Alpes

A falta de esclarecimento, no entanto, pode estragar o sonho das desavisadas...

Uma união entre duas culturas diferentes: por vezes um desafio.

(swissinfo.ch)

A fantasia da felicidade eterna no casamento com um homem estrangeiro ainda faz parte de um considerável número de brasileiras que emigram. Elas se apaixonam ou vêm para trabalhar, de forma legal ou ilegal e se casam. O fato é que deixam família e emprego no Brasil para se casarem com um suíço. 

Organizam a festa, algumas famílias viajam e se conhecem, mas um detalhe fica esquecido: a informação. No calor das emoções, quem pensa em procurar dados sobre o país de destino, quem participa de um treinamento de interculturalidadeLink externo, que prepararia para a vida em uma nova cultura? Praticamente ninguém. A maioria acha que está a caminho do paraíso do Primeiro Mundo. Resultado: conflitos desnecessários, falta de comunicação e muitos mal-entendidos, podendo terminar até em divórcio.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Esclarecimento é, portanto, a palavra chave. De acordo com a psicóloga e pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco, Flavia de Maria Gomes Schuler, que escreveu a dissertação de mestrado Casamento intercultural e suas peculiaridades: um estudo sobre brasileiras na Suíça, informação é fundamental, tanto para o processo de adaptação ao novo país quanto para entender o companheiro de uma outra cultura. "Relação a dois não é conto de fadas, muito menos quando o casal é formado por pessoas de mundos tão diferentes. Não pense que eu seja contra esse tipo de relacionamento. Só dissemino a ideia de que as brasileiras precisam vir com consciência de que irão encontrar uma nova realidade", explica Flavia Schuler.

A psicóloga vive hoje em Recife, é casada com um suíço-brasileiro, mas morou na Suíça durante 17 anos. A motivação para escrever sobre o tema veio quando trabalhava na organização não-governamental MEOSLink externo, na Basiléia. Foi prestando assistência psicológica a mulheres de língua portuguesa que ela percebeu as dificuldades daquelas pessoas em lidar com o diferente, a falta de esclarecimento sobre o país e sobre o que significa ser uma estrangeira. "Eu percebi que elas idealizavam aquele país lindo, mas que com a convivência com o parceiro e com os problemas da adaptação, os sonhos desmoronavam", diz. 

Para a dissertação, escrita sob a orientação da Profa. Dra. Cristina Maria de Souza Brito Dias, Flavia Schuler entrevistou 20 brasileiras moradoras dos cantões de Argóvia, Zurique e Basiléia, algumas no país de forma ilegal. As entrevistas foram realizadas em 2010. A constatação veio de encontro ao que ela já desconfiava: ao migrarem, de modo geral, não estavam conscientes das dificuldades que seriam enfrentadas ao deixar o seu país. Elas, inicialmente, só percebiam as facilidades que teriam ao deixar o Brasil, pois migraram acalentando vários sonhos, mas a realidade do dia a dia, no entanto, se mostra bem diferente.

Se informar é preciso

Exatamente nesse ponto entra a importância da informação. Sem a consciência sobre o que significa viver em outro país e até que ponto isso pode afetar a vida, as pessoas se desiludem muito e algumas até desistem ou desenvolvem uma depressão.

Dificuldades encontradas no novo contexto: Neste item, as falas das participantes destacaram como principais dificuldades encontradas: língua, solidão, saudade, ilegalidade, deixar os filhos (quando fruto de uma união anterior e precisam ficar no Brasil), a mentalidade suíça e o preconceito.

De acordo com a dissertação de Schuler, para o migrante a chegada ao novo país marca o início das interações com a nova cultura e com a população. Esta é, sem dúvida, a etapa mais longa da migração e, para algumas pessoas nunca acabará, ou seja, o sentimento de estar sempre em contato com o estrangeiro, com o estranho, com o que não é familiar, pode durar toda uma vida no país de acolhimento.

O estudo afirma que mesmo que as condições de vida, para essas mulheres, se apresentem melhores por certo prisma, haverá sempre um choque cultural e um duro processo de adaptação, daí ser importante estudar as condições de integração no país de destino. As dificuldades encontradas por essas mulheres são inúmeras. De acordo com o estudo, uma das grandes dificuldades é a língua. Muitas pessoas se veem reduzidas quase a uma criança, pois elas têm que aprender tudo de novo.

"A língua é a mais complicada que eu já ouvi e por isso eu não queria ficar aqui, mas como minha mãe estava doente, eu tinha que trabalhar para mandar dinheiro para ela. Eu saía de casa muda e voltava calada. Eu tinha saudade de tudo que eu tinha lá e não tinha aqui. Isso foi o mais difícil", diz Lilian, uma das entrevistadas de Flávia Schuler.

A mentalidade suíça também é apontada como uma das dificuldades, porque culturalmente o brasileiro e o suíço são muito diferentes. O relato seguinte afirma:

"Quando eu cheguei à casa de minha tia foi muito difícil para tomar conta do meu sobrinho, para ela poder trabalhar fora. A convivência com o marido dela foi impossível! Ele é bem suíço mesmo. Tudo tem que ser sempre do mesmo jeito, como um desenho, nada pode mudar. Eu vivia triste, não me acostumava, mas precisava ajudar minha família", relata Gil, outra entrevistada.

Nem tudo está perdido

De acordo com a pesquisadora, o relacionamento entre casais binacionais pode dar certo sim. Mas para que todo o processo de adaptação e a convivência ocorra de forma mais suave, é importante ficar atento a algumas dicas:

Aprender a língua do país
Não se isolar no seu mundo brasileiro
• Não fazer amizades somente com brasileiras. Conecte-se com suíços também. Muitos maridos reclamam que as esposas não querem conhecer pessoas de outras nacionalidades
• Se prepare para deixar o país e para enfrentar uma nova cultura
• Casamento não é conto de fadas, muito menos com um estrangeiro. As duas culturas são muito diferentes e cada um tem um modo de ver o mundo
Não se feche para a cultura do (a) parceiro (a)
• Esteja ciente de que conceitos como família, amizade, trabalho, dinheiro etc. são muito diversos
• Abra seu coração

1. de dezembro de 2016Transmissão de valor aos filhos e festas lideram reclamações entre casais binacionais

A criação dos filhos e o conceito de divisão entre espaço privado e social são os dois maiores motivos de conflitos entre casais binacionais de origem brasileira e suíça.

Helene Labenz Gawlik consegue driblar melhor os conflitos porque pai era alemão 

(swissinfo.ch)

As razões estão diretamente ligadas às diferenças culturais entre os dois países, que funcionam em lados opostos em muitas categorias, como por exemplo comunicação, gestão do tempo e das finanças. Assim como outras sociedades com históricos e origens tão diversas, suíços e brasileiros têm variadas maneiras de educar e valores morais, e discordantes conceitos sobre questões triviais, como família, amizade e lar, por exemplo.

Os dados foram gerados por meio de sondagem qualitativa, realizada com 18 brasileiras casadas com suíços ou estrangeiros criados no país. A pesquisa, realizada pela swissinfo.ch no mês de outubro deste ano, perguntou às brasileiras quais seriam os maiores causadores de conflitos com seus maridos devido a diferenças culturais. O estudo inclui mulheres, com idades que variam de 22 a 60 anos, casadas ou divorciadas, moradoras dos cantões de Schwyz, Zurique, Argóvia, Solothurn e Berna.

A educação dos filhos e o conceito de vida privada empataram. Das 18 entrevistadas, sete relataram problemas com relação a esses temas. Em terceiro lugar, com seis pontos, entra a categoria "finanças", que inclui tantos gastos desnecessários, principalmente relacionados a compras exageradas de sapatos, quanto à preocupação exacerbada em economizar dinheiro para a aposentadoria. Logo após, com quatro pontos na lista, entra a divergência quanto à utilização do tempo livre: o marido quer férias na montanha, a esposa na praia; o homem acha que precisa estar em dia com as tarefas domésticas no fim de semana, a mulher quer passear.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

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Educação dos filhos - não importa a idade da prole. A celeuma inclui tanto discordâncias na educação de crianças pequenas quanto de adolescentes de 18 anos. Os pais suíços encaram a iniciação sexual dos filhos como um assunto normal, permitindo que tragam inclusive namorada para dormir em casa. As mães brasileiras, no entanto, são muito mais conservadoras nesse quesito. Segundo Ana Dias*, o marido acha normal a filha de 14 anos sair com as amigas à noite e ainda comunica a ela que pode começar sua vida sexual antes dos 18 anos. Quando se trata de crianças pequenas, eles também se mostram mais liberais. "Meu marido acha tudo normal e nada perigoso. Ele quer nossas filhas livres, subindo em árvores, enquanto eu tenho medo que elas caiam", relata Milena Bach*, uma das entrevistadas.

Mas quando o assunto é permitir que os filhos assistam televisão, os suíços se mostram mais tradicionais e contra a adoção da famosa "babá eletrônica", entrando em conflito com as esposas brasileiras. E aí que a cultura explica sua importância: o brasileiro está entre as seis nacionalidades que mais assistem televisão no mundo, de acordo com pesquisa divulgada em 2013 pela Motorola Mobility, que confirma o que já se sabia por observação. A pesquisa constatou os hábitos de cerca de 9,5 mil consumidores de 17 países. O exemplo citado é emblemático e serve para mostrar que a cultura se faz muito forte quando se trata da criação dos filhos. Na Suíça, país seguro e repleto de florestas, é comum que crianças brinquem mais na rua, tenham contato com a natureza e, consequentemente, subam em árvores.

De acordo com Marla Alupoaicei, autora de livros sobre o assunto, quando o primeiro bebê nasce, a dinâmica de um casal muda drasticamente, mas mais ainda para um casal binacional. "Além da enorme responsabilidade que acompanha a tarefa de criar um novo ser, o casal vê a tensão crescer paralelamente à incerteza sobre como proceder. Ideias culturais sobre criação das crianças são muito enraizadas, indivíduos geralmente lutam para identificar seus próprios valores e atitudes sobre o tema", explica Alupoaicei, em seu livro O seu casamento intercultural: um guia para um relacionamento saudável e feliz (em inglês: Your Intercultural Marriage: a guide to a healthy, happy relationship). Ela explica ainda que pais que enfrentam problemas na criação dos filhos estão, na verdade, batalhando sobre diferenças básicas de filosofia, valores e crenças que o casal ainda não conseguiu resolver.

Conceito de espaço privado versus social – brasileiro gosta de festa, não é nenhuma novidade. Já os suíços são muito mais reservados. Entre as reclamações dos maridos estão a presença constante de amigas da esposa em casa, o que tira a privacidade; e a necessidade de silêncio e de isolamento, principalmente quando ele visita os parentes da mulher no Brasil. "A minha família não entende porque o meu marido necessita permanecer algumas horas trancado no quarto de hóspedes quando todos estão conversando lá fora", relata Dalila Meyer*.

De acordo com Rosemary Jaggi, seu problema é que sempre foi muito comunicativa e festeira, e queria fazer dos novos amigos que conheceu na Suíça membros da família, na tentativa de repetir as reuniões de domingo com galinhada em Goiás. No caso de Rosemary, entram dois outros aspectos culturais, além do privado e social: os diferentes conceitos de domingo e de família. Em uma cultura coletivista, como o Brasil, amigos também podem fazer o papel de família. Afinal de contas, quanto mais gente melhor.

Finanças: a entrevistada Tatiana Beyer* não consegue entender a preocupação exagerada com o dinheiro para a aposentadoria. Ela compreende a necessidade de economizar para o futuro, mas acha que os suíços tomam a questão quase como uma paranoia. "Eles são muito precavidos com as finanças. A gente nem pensa nisso no Brasil. Isso não significa que eles sejam pão duros, eu acredito que eles têm prioridades diferentes, mas o jeito como levam a coisa é exagerada. Suíço gasta fortunas com bebidas, por exemplo", diz Tatiana.

Algumas das entrevistadas tiveram que conter os gastos com supérfluos, principalmente com a compra de roupas e sapatos. Segundo a brasileira Leda Pearl*, quando chegou à Suíça, ela gastava muito, comprava o que via, fato que se arrepende. Se os suíços vivem felizes com no máximo três pares de sapatos, o brasileiro se comporta de outra forma quando consome. Estudo do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) de 2013 confirma: 46% da população não controla seu orçamento. As mulheres só repetem o comportamento que já tinham no Brasil.

Jogando futebol com a torcida ao contrário

É importante mencionar que qualquer relação a dois necessita de ajustes, mas o relacionamento entre duas pessoas de culturas muito diferentes tem adicionados alguns fatores complicadores. Além de todos os motivos de conflitos citados na matéria, o estilo diferente de comunicação é o maior ponto frágil. Um dos cônjuges não irá falar a língua nativa. Há casos de casais que lançam mão de uma terceira língua, o que significa que um dos dois estará em desvantagem ou os dois se comunicarão em uma língua que não dominam 100%, porta aberta para mais mal-entendidos. De acordo com a psicóloga e pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco, Flávia Schuler, em uma cultura diferente, dificuldades na comunicação se ampliam, mas isso não significa que não possam ser resolvidos", explica.

A pesquisadora, que escreveu dissertação de mestrado sobre o assunto, diz que até a forma de falar do alemão, que tem uma sonoridade e um tom bem diferentes do português, causa mal-entendidos entre os casais binacionais. Além disso, some o fato de que as culturas germânicas têm uma forma mais direta de falar o que pensam. "Isso no dia a dia soa como ofensa pessoal, o que muitas vezes é somente uma forma diferente de comunicar o que se deseja", diz.

Dessa maneira, Flávia Schuler defende o esclarecimento sobre o tema cultura. Isso inclui que esposas e maridos estejam abertos a essas diferenças. "Quando a esposa migra para a Suíça, a carga de adaptação pesa mais sobre ela. É como se ela jogasse futebol com a torcida ao contrário. Por isso acredito na importância do marido e da esposa compreenderem e aceitarem que suas culturas são diferentes e entrarem em acordo", enfatiza.

*Alguns nomes foram mudados a pedidos das entrevistadas.
Os pontos de discordância, de acordo com a sondagem: 

Os pontos de discordância, de acordo com a sondagem:

 

Categorias

Suíços

Brasileiras

1

Criação dos filhos

Dão mais liberdade

Criança de 3 anos é considerada apta a brincar sozinha na rua

Permitem que filhos tragam namorados para dormir em casa

Não quer que a criança assista a TV

Iniciação sexual mais aberta

Mães precisam sair todos os dias com filos para pegarem luz do sol, mesmo quando frio

Bebês só devem tomar banho duas vezes por semana

Crianças vão à escola sozinhas

Noção diferente de perigos e riscos para crianças

Vigilância atenta aos pequenos

Maior permissividade quanto à TV

Não querem sair de casa se faz frio

·Banho todos os dias, até mesmo duas vezes

·Crianças vão à escola de carro

2

Privado e Social

Só convidam pessoas íntimas para casa

Precisa ter momentos de privacidade e se fechar no quarto, mesmo que esteja visitando a família brasileira em viagem

Poucos amigos e amizades são eternas

Fazem questão de convidar vários amigos e conhecidos para reuniões com muita comida em casa.

Muitos amigos, incluindo recém conhecidos, colegas do trabalho

3

Gerenciamento das Finanças

Preocupados em guardar dinheiro para a aposentadoria

 

·compra desenfreadamente

Aquisição de supérfluos

4

Tempo Livre

Férias na montanha

Fim de semana é ideal para colocar o trabalho de casa em dia

Domingo é dia de silêncio e de descanso

 

Férias na praia

Fim de semana foi feito para curtir com a família, festejar com amigos e não trabalhar

Domingo é dia de convidar os amigos para almoçar em casa e criar um clima de festa em família

 

5

Jeito Extrovertido

Discretos

Realista

Contido

Gosta de sossego

 

 

 

 

Ri muito e alto

Otimista

Emocional, chora e ri com facilidade

Gosta de festas

6

Conceito de família

Família é basicamente mãe, pai e filhos. Tem dificuldade de aceitar a grande quantidade de integrantes da família brasileira

Pouco contato com a família (pais, avós, tios)

O conceito de família inclui tia, tios, primos, vizinhos, amigos e até animais de estimação

Contato constante com família no Brasil

7

Organização da casa

Lixeira para dejetos biológicos

Como gosta de colocar a casa em ordem, tende a ser mais organizado

Prefere jogar tudo no mesmo lixo, sem separar

Acumula objetos

 

 

 

8

Agenda e Pontualidade

Pontual

Organização do tempo

 

Tem que aprender a ser pontual

Várias festas de uma vez só, sempre atrasada

 9

Idioma

Mal-entendido por língua diferente

Humor diferente por conta da língua

Demanda em relação à proficiencia da língua alemã

Mal-entendido por língua diferente

Acha muito difícil aprender alemão

 

 


15 de novembro de 2016Precisamos falar sobre diversidade cultural nos casamentos

Casais binacionais deveriam se informar sobre a realidade cultural dos parceiros com o objetivo de amenizar as diferenças.

Casamento: uma união para a vida inteira, apesar das diferenças?

(Keystone)

É só dar uma volta pelas maiores cidades suíças para confirmar os dadosLink externo do Departamento Federal de Estatísticas: as brasileiras, ouvidas e vistas em vários pontos do país, estão em segundo lugar na preferência dos suíços para casar. As alemãs ocupam a liderança. De acordo com os dados do BFS, cerca de 49% dos matrimônios no país têm perfil binacional, o que significa que um dos cônjuges dispõe de outra nacionalidade. 

Diante do alto índice de casamentos entre as duas nacionalidades, uma pergunta não pode ser ignorada: será que essas brasileiras sabiam ou sabem o que significa emigrar? Elas se preparam ou simplesmente deixam o Brasil para viver um grande amor? Segundo pesquisa empírica com 15 mulheres para essa matéria, elas seguem o sonho e embarcam sem muita ou quase nenhuma informação. Isso não significa que o relacionamento não dará certo, mas pesquisa prévia garante maiores taxas de sucesso e menos frustração. Afinal de contas, qualquer união, mesmo quando inclui pessoas de uma mesma cidade, já constitui pelo menos a junção de duas culturas diferentes. Imagina quando oriundas de países tão diferentes quanto a Suíça e Brasil.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

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Um dos maiores erros é ignorar a cultura do cônjuge. De acordo com a autora do livro Your intercultural marriage (Seu casamento intercultural), Marla Alupoaicei, os casais dispendem em média muito mais tempo planejando suas festas de casamento que o matrimônio em si. De acordo com a escritora, a maioria dos jovens casais foca exclusivamente na cerimônia, agindo muitas vezes de forma inocente, idealista e romântica. A autora escreve em seu livro algo que pode ser confirmado pelas inúmeras brasileiras casadas na Suíça: casais interculturais provavelmente experimentam mais conflitos que os casais de mesma nacionalidade. Por uma razão óbvia, mas que ninguém pensa quando está apaixonado. Segundo Dugan Romano, em seu livro intitulado Intercultural Marriage: Promisses & Pitfalls (que significa Casamento intercultural: Promessas & Armadilhas), esses casais serão constantemente expostos a diferentes costumes, cerimônias, línguas e países. A exposição, entretanto, não será sentida como acontece com expatriados, por exemplo, que lidam com a diversidade cultural mais profundamente no ambiente de trabalho. Casais interculturais sentem essas particularidades nas decisões mais íntimas.

As diferenças podem aflorar já com a organização do casamento, enquanto ainda são namorados, ou estarem relacionadas a uma decisão muito íntima, que influencie a vida dos filhos, por exemplo. De acordo com a brasileira Mariane Nunes*, atitudes banais, como decisões de rotina, que não teriam a menor estranheza para um casal brasileiro, podem se transformar em incompreensão por uma família binacional. Mariane cita o exemplo da festa de aniversário do filho, que virou motivo de briga entre o casal durante dez anos, todas as vezes que o menino fazia mais um ano de vida. “O meu marido e sua família nunca entenderam que era muito importante para mim comemorar o aniversário do nosso filho como fazemos no Brasil. É uma tradição nossa, que eu valorizo muito e não quis abrir mão”, explica. 

Já a egípcia Samah Rayed*, casada com um alemão e moradora da Suíça, se viu perplexa diante da decisão de circuncisar o filho, seguindo a tradição de sua família, ou de não o fazer, deixando o menino como o pai. A egípcia, após muita reflexão e diálogo, preferiu deixar o filho se parecer com o pai a não seguir uma tradição familiar. Uma decisão como essas, no entanto, pode ser o detonador de um pavio prestes a explodir.

Culturas diferentes, valores desiguais

Os diferentes valores que regem as culturas podem funcionar exatamente como estopim para relações de diferentes culturas. O que é importante para um, soa totalmente esdrúxulo para o outro. Essa relação é totalmente proporcional ao tempo de convivência e obviamente à exposição a certas questões.

Dessa maneira, a autora Marla Alupoaicei aconselha que casais conversem, ou que pelo menos estejam conscientes, de que temas morais podem divergir, até mesmo quando os parceiros tenham a mesma religião. Por isso, é importante checar o que poderia ser motivo de discordância:

- Aborto, contracepção, gravidez, tratamento de infertilidade e decisão sobre o número de filhos

- Álcool e uso de drogas

- Batismo

- Circuncisão

- Corte de cabelo, maquiagem, uso de joias e estilo de vestimenta

- Dança

- Namoro

- Morte (incluindo cremação e rituais de enterro) e questões relacionadas, como eutanásia

- Sexualidade

- Doença e tratamentos

- Como educar os filhos

- Comida e refeições

Conflitos podem ocorrer devido a diferenças culturais

Assim como dimensões culturais são levadas em conta no mundo profissional, deveriam ser consideradas também em relações matrimoniais. Dimensões culturais são usadas para categorizar e explicar os comportamentos de cada cultura. Existem inúmeras, mas Alupoaicei sugere que dimensões como tempo, por exemplo, seja considerada para que casais não se esqueçam de que vêm de origens diferentes. Em culturas como a brasileira, em que o tempo é flexível, atrasos são permitidos. De acordo com Richard Lewis, criador do Modelo de Comunicação Intercultural e autor de inúmeros livros sobre o tema, em culturas onde o tempo é linear, pessoas medem o tempo em horas, minutos e segundos. É quase uma obsessão com o tempo. Só essa característica já é suficiente para inúmeras brigas entre um casal de brasileira e suíço.

Em culturas individualistas, como a Suíça, por exemplo, o conceito de família é diferente. Família basicamente significa pai, mãe e filhos. Já na cultura brasileira, que é coletivista, esse conceito se amplia e pode significar até o vizinho. Outra razão para conflitos em casamentos binacionais. Outras categorias importantes devem ser observadas nesse processo. A coluna trará, na próxima edição, mais informações a respeito de possíveis conflitos. 

01. de novembro de 2016Fazendo as pazes com o alemão

A linguista Cristina Schumacher explica os porquês dos problemas com a língua

(swissinfo.ch)

Além de todas as dificuldades enfrentadas por um brasileiro imigrante na Europa, a língua alemã vem culminar como um dos principais problemas apontados por quem vive em países germânicos. De aparência tão incompreensiva, o aprendizado se faz árduo e vagaroso, a ponto de muitos se dizerem traumatizados com a língua.

Na Suíça, a situação se complica devido à importância atribuída aos dialetos pela população local, fazendo com que os estrangeiros se sintam deslocados e aparte da sociedade onde vivem. Afinal de contas, eles aprendem um idioma nas escolas e se deparam com uma realidade linguística totalmente diferente nas ruas, tornando o que já era complexo em algo quase inacessível.

Para falar sobre o assunto, a linguista Cristina Schumacher, autora de mais de 30 títulos sobre o aprendizado de línguas e do livro Alemão Urgente para Brasileiros, destrincha a problemática com o idioma germânico e incentiva brasileiros e portugueses a darem mais uma chance à língua de Goethe.

swissinfo.ch: Na dissertação em que eu escrevi sobre mulheres brasileiras na Suíça, percebi que existe uma relação quase traumática entre o público brasileiro e o alemão. O que a Senhora atribuiria a essa isso?

C.S: Como eu explico no meu livro Alemão Urgente para Brasileiros, devido a sua fama de idioma difícil e inacessível, o alemão acaba sendo alvo de aprendizagem apenas das pessoas, cuja motivação para conhecê-lo se prova muito concreta. As dificuldades geradas por essa fama, mal fundamentada, ainda são acrescidas da suposta “antipatia” que o seu sistema fonético costuma evocar em ouvidos de falantes de outras línguas. É lamentável, contudo, que impressões dessa natureza venham a constituir barreiras ao contato ou conhecimento de um instrumento de comunicação de tão raras exatidão e beleza.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

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Eu acredito, no entanto, que esse fenômeno que acomete os falantes do português possa ser explicado com base em três dimensões. A primeira seria a dimensão formal da língua, que é baseada na dissimilaridade dos sistemas, que passam pelos traços dos sistemas de sons, de organização das palavras e até mesmo conceituais. Por exemplo, ao lidar com as duas línguas é possível perceber que um conceito em alemão pode precisar de um parágrafo para ser explicado, enquanto a mesma ideia em português precise ser explicada de uma outra. Muitas vezes esse conceito nem pode ser explicado, gerando uma expressão vazia. Português e alemão não são lentes simultâneas, mas bem diferentes.

A dimensão cultural, entretanto, também influencia o aprendizado. Isso significa toda forma de lidar com o convívio entre essas duas culturas, que são muito diferentes, por meio da língua. O idioma nos serve e se adapta à forma como vivemos.

Eu explicaria esse fenômeno também pela dimensão ritual e literal da língua. A Portuguesa, pelo seu caráter mais ritual, vai permitir que a pessoa diga “Passa lá em casa”, como uma forma de ritual de conversa, como maneira de estender um diálogo, ou até mesmo de mostrar uma simpatia, mas não um literalmente convite. O germânico, no entanto, entenderia como uma solicitação de presença. Fazendo uma ligação com o sócio cultural e o sistema de convívio, fica óbvio que essa relação vai exigir um certo preparo para ser compreendida.

Na língua ritual, como é a nossa, os códigos são sobrepostos. É necessária, dessa maneira, uma decifração dos códigos sociais para entender. Saindo dessa ótica e indo para a língua alemã, representante da conduta literal direta, fica então fácil perceber como o desconhecimento sobre a cultura própria e a alheia gera julgamento de valor e, consequentemente, pode trazer um componente de rejeição que vai atrapalhar seu aprendizado.

Muitos brasileiros percebem o alemão como grosseiro, mas na verdade, isso é somente uma outra forma de se expressar, de olhar o mundo. A língua não determina, mas conduz a um determinado ponto de vista. Ela tem um papel de manter um jeito de se relacionar com a realidade. Essa subjetividade, no entanto, é uma zona obscura, difícil de se alcançar. Por isso gera sofrimento. Portanto, esses fatores, todos juntos, se retroalimentam.

swissinfo.ch: Existem outras dificuldades?

C.S: Os dois idiomas apresentam contrastes de pronúncia e de estrutura. O rigor estrutural do alemão se contrapõe à flexibilidade do português. A pronúncia alemã, que tem suas consoantes explodidas pela tensão, é contrária às consoantes relaxadas do português. O jeito leve de dizer bonita é muito diferente do jeito marcado e duro do idioma germânico, que é tenso.

swissinfo.ch: Tenho a impressão de que suíços e alemães não têm muito problema para aprender o português...

C. S.: Quem teve acesso a uma língua de tão rígida estrutura como o alemão, que permite análises mais profundas, vai conseguir falar uma língua mais flexível como o português mais facilmente. Dessa forma, é comum encontrar alemães e suíços que aprendam a língua portuguesa mais rapidamente, situação que nem sempre se repete ao contrário.

swissinfo.ch: E o dialeto, onde entraria nessa questão?

C. S.: O termo dialeto surgiu com as grandes navegações europeias na América. Por si próprio, já traz inconscientemente uma relação de poder. A crença era a de que o Português, língua de dominação, seria superior às línguas faladas pelos povos locais.

Dialeto remete à sub língua, o que pode causar mais um bloqueio ao brasileiro que esteja tentando aprender. Isso não acontece somente com o alemão suíço, mas com outros “dialetos”. Dessa maneira, eu não gosto de usar a palavra dialeto, prefiro o termo variedades da língua. É importante remover o peso da situação.

swissinfo.ch: E qual a conclusão disso tudo? Vale a pena aprender alemão?

C.S.: Mas é claro. Aprender um outro idioma significa lançar mão de um recurso exploratório de outras culturas. Funciona como exercício de perspectivas, ver o mundo de outras formas. Isso te permite construções diversas, explorar as coisas com completitude.

Assim como explicou no meu livro, o alemão constitui, na verdade, um surpreendente meio de enriquecimento linguístico. O idioma germânico é precipitadamente julgado por muitos como uma complicação desnecessária. Aprender uma nova língua é como ocupar uma nova casa, com outra disposição de ambientes, orientação solar, colocação de aberturas, mobília etc. Nos tempos de hoje, quando os povos precisam conviver mais que nunca, é preciso ampliar as realidades de cada um. Portanto, não desistam e aproveitem essa oportunidade maravilhosa que têm em descobrir e participar de um outro mundo.  

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